{"id":10667,"date":"2007-07-03T00:00:00","date_gmt":"2007-07-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:24","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:24","slug":"a-amiga-que-se-foi","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-amiga-que-se-foi\/","title":{"rendered":"A amiga que se foi"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 tempos que n\u00e3o a vejo pela a\u00ed. Nem sei se j\u00e1 partiu ou se ainda insiste em ficar mais uns dias. N\u00e3o gostaria de perde-la de vista. Mas, verdade verdadeira, n\u00e3o tenho como prende-la a mim. Nossa \u00faltima conversa come\u00e7ou assim:<\/p>\n<p>&#8212; Estou pensando em dar o fora, ir para outro pa\u00eds. Dar outro rumo \u00e0s nossas vidas. <\/p>\n<p>Tenho ouvido essa frase com assustadora freq\u00fc\u00eancia. Mas, nunca imaginei que ouviria da boca dessa jovem senhora, sempre t\u00e3o otimista, de olhos cor de esmeralda. Ainda mais pelo tom de desalento com que me falou. Conhe\u00e7o a mo\u00e7a de outros carnavais. Tem experi\u00eancia de vida, filhos crescidos, discernimento na arte de se relacionar com as pessoas e uma relativa estabilidade profissional. Apesar de um ou outro percal\u00e7o, entende-se uma sonhadora. N\u00e3o sei o porqu\u00ea justo agora n\u00e3o v\u00ea a menor chance de ser feliz por aqui. Ou sei? <\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de dinheiro, n\u00e3o. Ao contr\u00e1rio. Este \u00e9 o Pa\u00eds das oportunidades. Mas, h\u00e1 algo de errado com a alma do brasileiro. N\u00e3o quero ser c\u00e9tica. N\u00e3o gosto de generalizar. Mas, n\u00e3o consigo ver solu\u00e7\u00e3o para o caos em que vivemos, e vai al\u00e9m do que temos visto nos aeroportos. <\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Perdemos a vergonha, pergunto. <\/p>\n<p>&#8212; Vergonha na cara, eis um ingrediente que est\u00e1 em falta no mercado. Macuna\u00edma, o her\u00f3i sem car\u00e1ter, lembra? Ali\u00e1s, se olharmos ao redor, vemos que existem duas ou tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es perdidas, aviltadas ou pela mis\u00e9ria ou pela abastan\u00e7a&#8230; <\/p>\n<p>Entendo a indigna\u00e7\u00e3o da amiga. Acontecimentos recentes demonstram um Pa\u00eds em cacos. Meninos ricos &#8211; e imbecilizados &#8211; surram uma trabalhadora pelo prazer de humilhar quem n\u00e3o \u00e9 do mesmo n\u00edvel s\u00f3cio-econ\u00f4mico. Meninos pobres matam a sangue frio num sem\u00e1foro em S\u00e3o Paulo. Degenerados pelo crime. S\u00e3o apenas dois momentos da guerra di\u00e1ria que enfrentamos nas ruas, nas esquinas. Lembrar a hecatombe de maio do ano passado com os ataques do PCC em S\u00e3o Paulo ou a guerra declarada ao tr\u00e1fico no Morro do Alem\u00e3o no Rio de Janeiro \u00e9 emblem\u00e1tico \u2013 e tristemente definitivo \u2013 da trag\u00e9dia que hoje vivemos no Pa\u00eds. <\/p>\n<p>Recentemente, o locutor esportivo Luciano do Valle foi assaltado num movimentado cruzamento do bairro de Moema, em S\u00e3o Paulo. Ficou sob a mira de um rev\u00f3lver nas m\u00e3os de meninos de rua. Recuperou seus pertences depois \u2013 celular, carteira, rel\u00f3gio &#8212; , mas perdeu a vontade de deixar sua casa em Porto de Galinha, litoral de Pernambuco, para novos desafios profissionais e pessoais.<\/p>\n<p>&#8212; Quantos &#8216;lucianos&#8217; existem por a\u00ed, sem ter um porto seguro. Mas, n\u00e3o \u00e9 apenas isso, meu caro.  <\/p>\n<p>Para ela, a viol\u00eancia \u00e9 uma das pontas do iceberg da geleira moral que este barco chamado Brasil atravessa, sujeito a todas as intemp\u00e9ries e cat\u00e1strofes. Acha mesmo que \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia das mazelas que por aqui se sucederam, ao longo dos anos, sem que ningu\u00e9m tomasse provid\u00eancias cab\u00edveis \u2013 quer seja em \u00e2mbito do Governo, das institui\u00e7\u00f5es, da m\u00eddia que \u00e9 conivente. Quer seja, junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>&#8212; Ali\u00e1s, sempre digo isso, ainda vivemos a s\u00edndrome do Caramuru. Lembra aquela hist\u00f3ria do colonizador que amea\u00e7ou incendiar as \u00e1guas dos rios, ateando fogo a uma cuia com \u00e1lcool \u2013 e os \u00edndios assustados entregaram o ouro, as mulheres e tudo mais aos portugueses. \u00c9 certo que ganharam peda\u00e7os de vidros, tecos de espelhos, aguardente e toda uma tranqueirada sem serventia. E ficaram alegres e entorpecidos.<\/p>\n<p>III. <\/p>\n<p>Ao que parece, continuamos assim ainda hoje. Desde aquelas priscas eras, somos suscet\u00edveis \u00e0 chantagem e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>&#8212; Veja o absurdo. Pe\u00e7a para qualquer contador lhe dizer. Voc\u00ea trabalha de cinco a sete meses do ano s\u00f3 para pagar taxas e impostos. E o que vemos nos notici\u00e1rios? Vemos o destino que d\u00e3o ao nosso dinheiro. Olhe o tanto de esc\u00e2ndalos envolvendo o dinheiro p\u00fablico em todas as inst\u00e2ncias institucionais. \u00c9 mesmo para descrer de tudo, n\u00e9? <\/p>\n<p>N\u00e3o sei como atenuar o desabafo da amiga. Lembro que o jornalista Mino Carta, em diversas ocasi\u00f5es, escreveu que n\u00e3o v\u00ea solu\u00e7\u00f5es para tais problemas a curto prazo. Ver este Pa\u00eds minimamente equilibrado em termos de justi\u00e7a social, talvez s\u00f3 seus netos. Ou mais realisticamente os netos dos seus netos. Pior: outras vozes sensatas embicam para o mesmo per\u00edodo. Desde que d\u00e9ssemos, os da nossa gera\u00e7\u00e3o, um rumo adequado \u00e0s a\u00e7\u00f5es a partir de agora.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, n\u00e3o \u00e9 o que vemos. Cada vez mais, percebo que se instala em nossa gente uma certa cumplicidade oportunista com o errado, o falso, o transgressor. N\u00e3o damos um passo em prol do que se entende por civiliza\u00e7\u00e3o. Tudo vira negociata. Tudo precisa ter um ganho pessoal. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o vira&#8230; <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o que at\u00e9 em nossas novelas os canalhas s\u00e3o os tipos mais populares. Se forem simp\u00e1ticos, com boa estampa, n\u00e3o h\u00e1 como torcer contra. H\u00e1 sempre a desculpa que coisas piores, muito piores, s\u00e3o feitas em Bras\u00edlia e nas esferas dos poderosos. <\/p>\n<p>Ai, ai, ai. N\u00e3o quero deixar me levar pela argumenta\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a. Mas, confesso, estou por um triz. N\u00e3o vou mentir. H\u00e1 algum tempo penso nessa possibilidade. Mas, ainda n\u00e3o havia me dado conta do tamanho da minha tristeza. <\/p>\n<p>Mas, para onde voc\u00ea vai, pergunto. <\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei. Mas por aqui n\u00e3o d\u00e1 para ficar. Tamb\u00e9m poucos sentir\u00e3o minha falta. Preferem outras companhias, mais apropriadas ao momento. A Indiferen\u00e7a, por exemplo. Ou mesmo as purpurinas da Dona Fantasia, presente em todos os desfiles e paradas&#8230; <\/p>\n<p>H\u00e1 os que ainda acreditam, insisto. N\u00e3o se v\u00e1 assim. Precisamos de voc\u00ea, amiga Esperan\u00e7a. <\/p>\n<p>&#8212; Nada posso fazer. Voc\u00eas est\u00e3o me confundindo com as doces mentiras da Ilus\u00e3o. Somos parentes, at\u00e9 nos parecemos. Mas, n\u00e3o sou de enganar ningu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Se a amiga Esperan\u00e7a se for, t\u00e3o cedo n\u00e3o volta&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 tempos que n\u00e3o a vejo pela a\u00ed. 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