{"id":10669,"date":"2007-07-05T00:00:00","date_gmt":"2007-07-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:57:23","modified_gmt":"2017-09-15T19:57:23","slug":"almeidinha-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/almeidinha-parte-1\/","title":{"rendered":"Almeidinha (Parte 1)"},"content":{"rendered":"<p>Invadiu a reda\u00e7\u00e3o como se j\u00e1 fosse \u00edntima do ambiente. Ele falava ao telefone e apenas balan\u00e7ou afirmativamente a cabe\u00e7a quando ela se anunciou com um trivial &quot;licen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, ela mal \u2013 ou bem &#8211; sa\u00edra da adolesc\u00eancia, mas j\u00e1 se entendia mulher. O corpo bem talhado, ali\u00e1s, fez com que o pr\u00f3prio tivesse a mesma (e muitas outras) impress\u00e3o. O rosto denunciava sua jovialidade, apesar do batom vermelho e do cabelo curto, quase \u00e0 nuca. O gel exagerado lhe dava uma apar\u00eancia molhada e uma sensualidade irresist\u00edvel.<\/p>\n<p>Preferiu manter a conversa ao telefone para avaliar aquele singelo projeto de Juliana Paes que, como num passe de m\u00e1gica, agora se postava desafiadoramente \u00e0 sua frente. J\u00e1 n\u00e3o prestava a menor aten\u00e7\u00e3o ao que o interlocutor, porta-voz de um movimento popular, dizia do outro lado da linha. O homem queria denunciar o abandono da sofrida regi\u00e3o onde morava, que estava sujeita a enchentes, epidemias de dengue, sem transporte p\u00fablico etc etc. <\/p>\n<p>O tal l\u00edder comunit\u00e1rio tinha todos argumentos poss\u00edveis e imagin\u00e1veis que, \u00e0quela hora, nada mais diziam ao editor. Seus sentidos agora lhe informaram que, se ela sentasse na cadeira \u00e0 frente da mesa, o visual poderia melhorar consideravelmente. <\/p>\n<p>Achou-se mesquinho, torpe. Mas, n\u00e3o resistiu. Apontou a cadeira sugerindo que se acomodasse e se colocasse mais \u00e0 vontade do que j\u00e1 se encontrava.<\/p>\n<p>Vamos dizer que os novos horizontes n\u00e3o foram t\u00e3o reveladores quanto imaginou. Notou, no entanto, que ela trazia um desses envelopes pardos, pr\u00f3prios para guardar sulfite, e a maneira como o segurava demonstrava uma perigosa ansiedade. Entendeu logo que o assunto da visita estava ali&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Ficou curioso e encerrou a conversa ao telefone. Despachou o senhor e suas reivindica\u00e7\u00f5es para a manh\u00e3 do outro dia, quando haveria a reuni\u00e3o de pauta. Queria enfrentar a fera de frente. <\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, chamou pela consci\u00eancia. Ou a consci\u00eancia chamou por ele. A mo\u00e7oila poderia ser sua filha e, de resto, naquela idade, na fun\u00e7\u00e3o que exercia, n\u00e3o seria \u00e9tico ficar com marolas e insinua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, n\u00e3o? &#8211; perguntou ao mesmo tempo em que ajeitava alguns pap\u00e9is sobre a mesa para passar uma id\u00e9ia de que era um senhor (hum, hum!) muito ocupado.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe o que \u00e9. <\/p>\n<p>N\u00e3o, certamente ele n\u00e3o sabia, mas estava disposto a saber. No dia, hora e local que ela determinasse. <\/p>\n<p>Ela pensou um segundo antes de continuar. Aprumou-se na desconfort\u00e1vel cadeira que ele lhe oferecera e, miragem das miragens, os olhos do decano da imprensa foram presenteados com alguns cent\u00edmetros de puro encanto, torneado pelo sol e enfeitado por milim\u00e9tricos e  insinuantes p\u00ealos doirados. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, sempre lhe pertubou esse supremo poder da juventude a inventar beleza no que j\u00e1 \u00e9 belo, bel\u00edssimo, como o par de pernas que ora vislumbrava.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe o que \u00e9 &#8211; repetiu tomando f\u00f4lego como se fosse revelar um grande segredo. <\/p>\n<p>Ele n\u00e3o a interrompeu.<\/p>\n<p>&#8211; Eu gosto de escrever e tenho alguns textos (premoni\u00e7\u00e3o braba, a raz\u00e3o do tal envelope) e gostaria de colaborar com o jornal.<\/p>\n<p>De imediato, espalhou sobre a mesa uma dezena de folhas, com fragmentos do que ela pr\u00f3pria intitulou sua obra. Era o que ele temia. E n\u00e3o sobrou escapat\u00f3ria sen\u00e3o dar uma &quot;sapeada&quot; nos escritos. Que roubada!<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>O primeiro n\u00e3o deixava d\u00favida sobre o que ela pensava sobre o que o mundo ocidental pensava sobre o continente africano. <\/p>\n<p>O seguinte descrevia os benef\u00edcios da dan\u00e7a do ventre e, de quebra, dava o endere\u00e7o da academia de uma amiga para maiores esclarecimentos (Pois \u00e9. N\u00e3o se imagina aonde o marketing pode chegar). <\/p>\n<p>A terceira foi suficiente para que desse por encerrada a her\u00f3ica miss\u00e3o. Tratava das fun\u00e7\u00f5es sociais do artista e, para mostrar embasamento, citava como fonte uma dessas enciclop\u00e9dias, onde a capa vistosa \u00e9 mais importante do que o conte\u00fado. <\/p>\n<p>&#8212; Sou uma escritora e, em breve, serei muito famosa. Assim como o Paulo Coelho. Ah! tamb\u00e9m quero ter um programa de TV, dar palestras e&#8230;<\/p>\n<p>E continua amanh\u00e3&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Invadiu a reda\u00e7\u00e3o como se j\u00e1 fosse \u00edntima do ambiente. Ele falava ao telefone e apenas balan\u00e7ou afirmativamente a cabe\u00e7a quando ela se anunciou com um trivial &quot;licen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10669","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10669","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10669"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10669\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17228,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10669\/revisions\/17228"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10669"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10669"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10669"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}