{"id":10671,"date":"2007-07-07T00:00:00","date_gmt":"2007-07-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:42","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:42","slug":"almeidinha-parte-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/almeidinha-parte-3\/","title":{"rendered":"Almeidinha (Parte 3)"},"content":{"rendered":"<p>VII.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o. Por qu\u00ea? Precisa?<\/p>\n<p>Era a resposta que ele imaginava. Fez uma express\u00e3o contrariada, como se a lamentar a perda, e argumentou: uma lei determina que as pessoas que escrevem para jornal precisam ser jornalistas diplomados em n\u00edvel superior. Se elazinha fosse ao menos estudante de jornalismo, poderia fazer uma concess\u00e3o. <\/p>\n<p>Mas, infelizmente&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Bonito&#8230; Tanto faz, n\u00e3o \u00e9 assim?<\/p>\n<p>Sorriu da resposta\/pergunta. Como iria lhe explicar? Todos sabem que n\u00e3o \u00e9 exatamente assim. Mas, \u00e9 um jeito que os jornalistas usam para se livrar (e livrar os leitores) de alguns \u2018grandes talentos\u2019 que aparecem nas reda\u00e7\u00f5es com ares e pinta de g\u00eanio. <\/p>\n<p>N\u00e3o era o caso dela. Poderia at\u00e9 deix\u00e1-la por l\u00e1 como estagi\u00e1ria. Por\u00e9m diante do que aconteceu h\u00e1 alguns anos, numa certa casa branca &#8211; inclusive a cor da pintura externa da sede ao jornal -, achou mais conveniente evitar problemas futuros.<\/p>\n<p>Evitar acidentes \u00e9 dever de todos&#8230;<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Ela fez que se convenceu.<\/p>\n<p>&#8212; Acho muito justo, disse e sorriu.<\/p>\n<p>Entretanto, merecia uma oportunidade. Ademais, estava em seus planos cursar uma faculdade. O olhar se revelou ainda mais malicioso. <\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o vai se arrepender, garanto&#8230;<\/p>\n<p>Percebeu e vibrou com o fato de ela ter abolido a express\u00e3o &quot;senhor&quot; da frase. Mas, reconsiderou. N\u00e3o faz a menor diferen\u00e7a: os jovens de hoje s\u00e3o assim mesmo e cousa e lousa. <\/p>\n<p>&quot;N\u00e3o tem cabimento&quot; &#8211; sussurrou para que n\u00e3o cometesse qualquer ato de auto-engano.<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? &#8211; perguntou.<\/p>\n<p>&#8211; Infelizmente n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Continue a escrever, a estudar e, principalmente, leia muito &#8211; parecia um pastor falando. <\/p>\n<p>Era melhor manter dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, t\u00e1 hein! Que pena&#8230;<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Foi embora com seus escritos e os atropelos descabidos que lhe trouxe. P\u00f4de ent\u00e3o admirar a tranq\u00fcilidade da Reda\u00e7\u00e3o em pleno fechamento da edi\u00e7\u00e3o. L\u00e1 fora um arco-\u00edris enfeitava o cinzento c\u00e9u paulistano. Nem percebeu que havia chovido. Ficou aliviado. <\/p>\n<p>Logo, logo chegaria o caf\u00e9 novo e quente, que reporia alma e alucina\u00e7\u00f5es no devido lugar. <\/p>\n<p>&#8212; A mo\u00e7a mandou entregar &#8211; era Dona Santa, a copeira, que chegava com o caf\u00e9 e uma folha dobrada em quatro. Abriu para ler, era uma poesia \u2013 ou algo assim. Seria talvez um tratado de inten\u00e7\u00f5es que ela n\u00e3o hesitaria em realizar:<\/p>\n<p>&quot;Deslizo em m\u00e3os do prazer e meu corpo vibra e treme&#8230; Sempre te quis. N\u00e3o h\u00e1 fantasia que interrompa o tremor, o tes\u00e3o, a ternura, o suor, o amor, o encanto.\u201d<\/p>\n<p>Assinado: B. <\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Quando o amigo Almeidinha me contou essa hist\u00f3ria, quase ca\u00ed da cadeira e me engasguei com o caf\u00e9 morno que acabara de me servir. Prestativo, o jornalista veio em meu socorro. Tapinhas nas costas e a pergunta inevit\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8212; O que foi? Era s\u00f3 uma menina&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o perguntou o nome da mo\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8212; Era Beatriz, Branca&#8230; Bruna. Isto mesmo. Bruna. Disse tamb\u00e9m que gostava de mar, de surfe. E que ainda iria dar o que falar. Coisas de menina deslumbrada, voc\u00ea sabe&#8230;<\/p>\n<p>Saber, saber n\u00e3o sei. Mas, desconfio que o Almeidinha, na sua santa ingenuidade, perdeu a chance de ser o autor de um best-seller chamado \u2018Bruna Surfistinha\u2019&#8230;<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>Abracei o amigo e me despedi sem nada lhe dizer. <\/p>\n<p>&#8212; Eu apare\u00e7o, Almeidinha. <\/p>\n<p>&#8212; Apare\u00e7a, sim. Desde as diretas-j\u00e1 que n\u00e3o vejo nada de verdadeiramente interessante acontecer por aqui. Estou pensando em me aposentar&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; ?!!?<\/p>\n<p>Nota do Autor:<br \/>\nEste post\/brincadeira \u00e9 dedicado<br \/>\nao jornalista Jorge Tarquini,<br \/>\namigo e autor do texto final<br \/>\ndo livro \u201cBruna Surfistinha\u201d.<br \/>\nQuem soube fazer a hora<br \/>\ne o best-seller&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>VII.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o. Por qu\u00ea? Precisa?<\/p>\n<p>Era a resposta que ele imaginava. 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