{"id":10674,"date":"2007-06-29T00:00:00","date_gmt":"2007-06-29T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:07:59","modified_gmt":"2017-09-14T04:07:59","slug":"a-varanda-uma-novela-blogueira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-varanda-uma-novela-blogueira\/","title":{"rendered":"A Varanda. Uma novela blogueira"},"content":{"rendered":"<p>Era o primeiro dia de um ano qualquer.<br \/>\nDe um tempo qualquer.<br \/>\nAs casas ainda tinham port\u00f5es baixos<br \/>\ne varandas, pequenas varandas<br \/>\nque se transformavam em territ\u00f3rio<br \/>\nlivre para os casais enamorados. Ali,<br \/>\nestavam a salvo. Entre o compromisso<br \/>\nde &#8216;namorar em casa&#8217; e os perigos<br \/>\nda malfala\u00e7\u00e3o das ruas.<\/p>\n<p>Na varanda, era onde tudo acontecia &#8211; ou quase.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a esperava o rapaz. Ele lhe roubava<br \/>\no primeiro beijo. As car\u00edcias avan\u00e7avam.<br \/>\nConstru\u00edam-se sonhos, segredos.<br \/>\nFaziam-se projetos, planos para o futuro.<br \/>\nDiscutia-se por nada. Cenas de ci\u00fames, tamb\u00e9m.<br \/>\nO acerto de contas &#8211; n\u00e3o se usava a express\u00e3o<br \/>\ndiscutir a rela\u00e7\u00e3o. Ficavam de bem &#8211; ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Na varanda, a despedida, o fim.<br \/>\nTamb\u00e9m podia acontecer&#8230;<\/p>\n<p>Tudo sob a espreita velada da fam\u00edlia, ouvidos<br \/>\natr\u00e1s da porta; e da vizinhan\u00e7a, olhares<br \/>\nentre as frestas da janela&#8230;<\/p>\n<p>Eis o tema da nossa primeira novela blogueira.<\/p>\n<p>CENA 1 &#8211; O casal na varanda<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o acredito mais na gente.<\/p>\n<p>Ela disse em tom determinado, de quem havia pensado e repensado a situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o lhe interessava o passado, nem o futuro. Queria dar um fim \u00e0quele amor acabado, esgar\u00e7ado por promessas e desilus\u00f5es. N\u00e3o poderia precisar quando tomou consci\u00eancia do que estava ocorrendo. Mas, era fato. Acabar com aquela indecis\u00e3o virou objetivo de vida. Queria viver o presente. S\u00f3 isso&#8230; Seria pedir muito?<\/p>\n<p>CENA 2 &#8211; Ele custa acreditar&#8230;<\/p>\n<p>Estava em pandarecos. Nunca lhe passou pela cabe\u00e7a viver tamanha afli\u00e7\u00e3o. Tinha certeza: era a mulher da sua vida, embora andasse um tanto ocupado para lhe dar a aten\u00e7\u00e3o que sempre pediu. Pensou que fosse dengo de menina mimada que, ali\u00e1s, ela nunca deixou de ser, mesmo depois de se transformar numa insinuante mulher.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio contemporizava. N\u00e3o cabia aquela inseguran\u00e7a. J\u00e1 havia lhe dito, n\u00e3o se lembrava quando, mas havia dito: ela era tudo o que ele sempre quis para sempre &#8211; e agora, num desses vapt-vupt da vida, amea\u00e7ava por um ponto final e seguir em frente. Que bobinha &#8212; pensou. Aonde pensa que vai chegar agindo desse modo, sem medir as conseq\u00fc\u00eancias&#8230;<\/p>\n<p>Lembrou de ouvi-la dizer algo sobre um tal de &quot;relacionamento pra valer&quot;. Falou tamb\u00e9m sobre uma defini\u00e7\u00e3o para que vivessem juntos, felizes, morando na mesma casa, discutindo aquelas coisas comuns de todo casal: contas a pagar, luz, telefone. Problemas familiares, visitas indesej\u00e1veis, supermercados. Filhos, isso mesmo, filhos, por que n\u00e3o t\u00ea-los? <\/p>\n<p>Era o que ela tanto sonhava&#8230; <\/p>\n<p>Achou que fosse coisa de momento. N\u00e3o havia d\u00favidas sobre o que os dois sentiam. Mas, preso ao trabalho e a outras tantas obriga\u00e7\u00f5es e compromissos, achou que com o passar do tempo tudo naturalmente se acomodaria. Afinal, todos invejavam o modo como se amavam. <\/p>\n<p>Eram mesmo feito um para o outro.<\/p>\n<p>Em uma coisa, no entanto, concordava. J\u00e1 n\u00e3o se divertiam como nos primeiros tempos. Culpa dele, reconhecia. At\u00e9 j\u00e1 se esquecera a espontaneidade de um sorriso. Pudera, tantas e tantas a resolver&#8230; <\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para conciliar tudo.<\/p>\n<p>Respirou fundo. Admirou sua doce beleza. Ela desandara a falar sobre coisas que ele n\u00e3o gostaria de estar ouvindo. E falava num tom absolutamente s\u00e9rio, convicto. Tentava contra-argumentar e invocava o quanto foram felizes e dos momentos \u00fanicos que viveram de plena entrega. <\/p>\n<p>N\u00e3o recebia qualquer resposta favor\u00e1vel, qualquer rea\u00e7\u00e3o&#8230; <\/p>\n<p>Entendeu que o barco fazia \u00e1gua. Passou a considerar a hip\u00f3tese de que estava mesmo tudo acabado. Mesmo assim jogou os \u00faltimos trunfos. Disse tudo o que um homem pode dizer \u00e0 mulher amada &#8212; e foi embora. <\/p>\n<p>O truque j\u00e1 dera certo em outras ocasi\u00f5es. Entrou no carro sozinho. Esperou alguns minutos antes de dar a partida naquela trapitonga que lhe trouxera de t\u00e3o longe. Olhos arregalados, cora\u00e7\u00e3o batia r\u00e1pido,<br \/>\ndescompassado. Sil\u00eancio absoluto. Nem sombra dela. Girou a chave na igni\u00e7\u00e3o. Pisou no acelerador e lentamente foi deixando para tr\u00e1s os sonhos e a frustra\u00e7\u00e3o de ter cavado o pr\u00f3prio fracasso. <\/p>\n<p>Duas curvas depois, a estrada abria-se a sua frente. Pensou em voltar&#8230; Mas, n\u00e3o havia retorno \u00e0 vista, tanto para o autom\u00f3vel como para esse amor que acabara de acabar.<\/p>\n<p>&#8212; A vida continua, resignou-se&#8230;<\/p>\n<p>CENA 3 \u2013 Ela fez o que deveria ser feito&#8230; <\/p>\n<p>Precisava n\u00e3o chorar &#8212; ao menos, na frente dele. <\/p>\n<p>Sabia que o jogo era pra valer. Queria ser forte. Nem pensar em voltar atr\u00e1s na decis\u00e3o que, ali\u00e1s, vinha amadurecendo h\u00e1 algumas semanas. Era tudo ou nada&#8230;<\/p>\n<p>Amaram-se demais, \u00e9 certo. Por\u00e9m, j\u00e1 n\u00e3o eram os mesmos. Coisa comum de acontecer. Andavam cada vez mais distantes. O encanto havia se quebrado. N\u00e3o havia porque insistir, continuar&#8230;<\/p>\n<p>&quot;Acho s\u00f3 que \u00e9 tempo perdido. Voc\u00ea \u00e9 quem sabe&#8230;&quot;&#8211; dissimulou a m\u00e3e, ainda ontem, durante a ceia do reveillon. Apesar da data, estavam todos tristes. N\u00e3o havia o que festejar. <\/p>\n<p>&quot;Sem chance, parte para outra. Mas, lembre-se, os homens s\u00e3o todos iguais&quot;. <\/p>\n<p>A irm\u00e3 n\u00e3o fazia segredo. Gostaria de v\u00ea-la livre daquele estorvo. O pai nada falou &#8212; ali\u00e1s, como era de seu h\u00e1bito. Nunca foi a favor daquele romance. Mas, n\u00e3o lhe pediram qualquer opini\u00e3o. N\u00e3o seria agora que se faria ouvir.<\/p>\n<p>As vozes misturavam-se \u00e0s lembran\u00e7as, doces lembran\u00e7as, de um passado n\u00e3o t\u00e3o distante. Nunca imaginara ter que dizer a ele o que estava a lhe dizer e, aparentemente, n\u00e3o sentia qualquer abalo. <\/p>\n<p>Podia ser diferente, menos dolorido. Ele relutava em ir embora. Ela j\u00e1 se desesperava. N\u00e3o ag\u00fcentaria a press\u00e3o por muito tempo. Um vacilo &#8212; e pronto. Abriria os bra\u00e7os em sua dire\u00e7\u00e3o e tudo voltaria \u00e0 rotina de sempre. Um dia-a-dia que j\u00e1 n\u00e3o preenchia a enorme sensa\u00e7\u00e3o de vazio. Segurou-se o mais que p\u00f4de. N\u00e3o moveu um m\u00fasculo sequer em sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como um bicho assustado, encolheu-se num canto e virou o rosto para a parede. Fez-se o sil\u00eancio. J\u00e1 n\u00e3o se olhavam. Ouviu passos e o ru\u00eddo do port\u00e3o se fechando. S\u00f3 ent\u00e3o desatou a chorar. Estava tudo acabado. Era hora de repensar a vida. N\u00e3o queria que fosse assim. <\/p>\n<p>Mas, certo ou errado, era o que precisava ser feito.<\/p>\n<p>Sentia-se sinceramente triste. Mas, ao mesmo tempo, livre, leve. N\u00e3o cabia arrependimento, apenas esperan\u00e7a. Era hora de terminar para recome\u00e7ar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, lembrou que era primeiro de janeiro.<br \/>\nAno novo. Vida nova. <\/p>\n<p>&quot;At\u00e9 que enfim &quot;, suspirou chorosa. Mas, confiante na morenice de seus vinte e poucos anos:<\/p>\n<p>&#8212; A vida continua, entusiasmou-se.<\/p>\n<p>CENA 4 &#8211; A irm\u00e3, amiga e conselheira&#8230;<\/p>\n<p>Notou um brilho diferente nos olhos da irm\u00e3 que acabara de entrar. Percebeu, por\u00e9m, que continuava triste. Havia chorado, \u00e9 certo. Logo, logo viriam sinais de melhora, acreditava nisso. A tens\u00e3o passaria. Ela saberia dar tempo ao tempo. <\/p>\n<p>\u00c0 noite, sairiam para conversar, como grandes amigas que sempre foram. Ouviria tudo o que a irm\u00e3 tinha a lhe dizer, daria sua opini\u00e3o sem grilos, e conselhos &#8212; afinal, era um ano mais velha. <\/p>\n<p>Tinha certeza de que a maninha sairia de mais essa roubada e ambas dariam, ao boas e sonoras gargalhadas ao lembrar desse dia. Como nos tempos de adolescentes. <\/p>\n<p>A bem da verdade, nunca entendeu tal relacionamento. Da noite para o dia, a irm\u00e3 come\u00e7ou a falar em amor eterno, alma g\u00eamea. Que ele era o homem da sua vida. Estranhou, l\u00f3gico.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembrava de v\u00ea-la assim antes.<\/p>\n<p>Cresceram juntas. Frequentaram as mesmas escolas, o mesmo curso de ingl\u00eas. Aprenderam viol\u00e3o, vestiram-se de anjinhos nas prociss\u00f5es e eram vidradas em festinhas, no teatrinho na escola e showzinhos improvisados. Mas, gostavam mesmo de contar vantagens sobre as aventuras e conquistas junto aos garotos da cidade. <\/p>\n<p>Digamos que, no bom sentido, at\u00e9 competiam entre si para ver quem ficava com o surfista mais gatinho. Roqueiros, groupies e afins tamb\u00e9m entravam na disputa. <\/p>\n<p>Sempre foi muito divertido.<\/p>\n<p>Teve um dia que ela pr\u00f3pria &#8211; a maninha mais velha &#8211; extrapolou. Enrabichou-se por um bicho-grilo que apareceu na cidade em plenos anos 80. Quando deu por si, estava em Matchu-Pitchu. <\/p>\n<p>Meu Deus, o que foi aquilo? <\/p>\n<p>Achou o gringo t\u00e3o gracinha. Uma verdadeira rel\u00edquia. Vivia do que produzia. Brincos, colares, pulseiras, balangand\u00e3s de fazer inveja \u00e0 Carmem Miranda. N\u00e3o resistiu \u00e0quele sotaque sibilante, aquele jeito sincopado de falar. <\/p>\n<p>Para encurtar a conversa, largou-se no mundo. Partiram de \u00f4nibus, com alguns trocados, pelos sinuosos cami\u00f1os de la latinidad. <\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, antes mesmo de atravessar a fronteira uruguaia, j\u00e1 estavam com fome e sem dinheiro. Mas, ele n\u00e3o dizia nada; n\u00e3o seria ela a estragar a aventura com essas bobagens tolas.<\/p>\n<p>Dois dias depois, estava exausta e na mendic\u00e2ncia. Achou melhor dar sinal de vida \u00e0 fam\u00edlia. Adivinhem com quem falou num telefonema a cobrar? Com a irm\u00e3, claro. Foi ela, ali\u00e1s, quem amaciou a m\u00e3e e o pai e, de quebra, lhe arranjou dinheiro para voltar at\u00e9 porque o &#8216;guaio&#8217; j\u00e1 dera no saco. <\/p>\n<p>Eram mesmo muito unidas. <\/p>\n<p>Quando chegou, foi receb\u00ea-la na esta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o fez qualquer coment\u00e1rio. Fez mais: s\u00f3 depois que os pais lhe asseguraram que n\u00e3o haveria repres\u00e1lias levou elazinha para casa.<\/p>\n<p>Hoje seria a sua vez de dar o ombro amigo. Afinal, por tudo j\u00e1 descrito acima, era uma mulher experiente. <\/p>\n<p>Al\u00e9m do que a pr\u00f3pria irm\u00e3, ao entrar, j\u00e1 dissera: <\/p>\n<p>&#8212; A vida continua.<\/p>\n<p>Melhor assim. N\u00e3o ia l\u00e1 com a fu\u00e7a daquele tipo. Que hist\u00f3ria! Amor eterno, alma g\u00eamea. E l\u00e1 isto existe?<\/p>\n<p>CENA 5 \u2013 Cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>Era a m\u00e3e &#8211; e sabia o que estava dizendo. <\/p>\n<p>Cuidou-se a vida toda para dar \u00e0s meninas uma educa\u00e7\u00e3o compat\u00edvel com os dias que estavam vivendo. Algumas amigas diziam que era moderna demais, compreensiva demais, generosa demais. Sentia um tom de cr\u00edtica na frase. Mas assim \u00e9 que era preciso ser &#8211; e ponto. <\/p>\n<p>Argumentava sempre que \u00e0s v\u00e9speras do Terceiro Mil\u00eanio n\u00e3o podia ser diferente. Hipocrisia nunca. <\/p>\n<p>As meninas cresceram nesse clima de liberdade, jogo aberto mesmo e, apesar de algumas decep\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se arrependia um mil\u00edmetro do que havia feito. <\/p>\n<p>Hoje, eram mo\u00e7as bonitas, inteligentes, formadas &#8212; a mais velha fazia p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o &#8212; e logo, logo se encaminhariam na vida, tinha certeza. <\/p>\n<p>Eram namoradeiras. Mas, normal. \u00c9 da idade. Mais cedo ou mais tarde, se acertariam tamb\u00e9m no perigoso jogo do amor.<\/p>\n<p>Por isso, sabia o que a filha mais nova estava sentido. <\/p>\n<p>At\u00e9 ela acreditou que, desta vez, era para valer. No in\u00edcio, come\u00e7ou falando dele com admira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o havia nada entre eles ainda. Mas, vira-e-mexe, lembrava uma das suas piadas, citava uma fala, comentava um show que havia assistido e at\u00e9 sua discreta deseleg\u00e2ncia. Ria e viajava s\u00f3 com o olhar. <\/p>\n<p>Percebeu tudo. <\/p>\n<p>Era uma quest\u00e3o de tempo. Mod\u00e9stia \u00e0 parte, tinha uma filha encantadora. Ele n\u00e3o resistiria&#8230;<\/p>\n<p>Dito e feito. Alguns meses depois, veio com a not\u00edcia num final de semana. Havia tomada a iniciativa e foi maravilhoso. Tinha certeza: estava amando. Comemoraram o feito como grandes amigas e brindaram com vinho tinto, embora fizesse um lindo s\u00e1bado de sol. Estava que era s\u00f3 felicidade e logo contou a novidade para a irm\u00e3. Foi uma manh\u00e3 inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>P\u00f4xa, eles se amavam. <\/p>\n<p>Todos viam e comentavam: feitos um para o outro. Ele sabia como cortej\u00e1-la, como faz\u00ea-la feliz. Gra\u00e7as ao bom Deus, estavam todos bem &#8212; inclusive ela, a m\u00e3e.<\/p>\n<p>A roda do tempo revela-se, por vezes, implac\u00e1vel. E gira que gira. Reduz nossas ilus\u00f5es a p\u00f3.<\/p>\n<p>Uma manh\u00e3 \u00e0 toa percebeu que n\u00e3o brigavam. Eram atenciosos um para com o outro. Mas, j\u00e1 n\u00e3o carregavam o intenso brilho da paix\u00e3o. <\/p>\n<p>Conversavam. Ela escutou por escutar. A menina comentava que sentia falta de um trabalho mais realizador, uma carreira pr\u00f3pria da qual podia se orgulhar. Ele, por sua vez, n\u00e3o ficava \u00e0 vontade nesse assunto. Fazia observa\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es. Dizia saber o que era bom ou ruim para ela. E, a bem da verdade, estava financeiramente equilibrado. Esse neg\u00f3cio de trabalhar era bobagem&#8230;<\/p>\n<p>Conhecia sua menina. Tinha certeza de que ela n\u00e3o estava gostando dessa tutela. No entanto, preferiu n\u00e3o fazer qualquer coment\u00e1rio. <\/p>\n<p>Poderia ser mal-interpretada&#8230;<\/p>\n<p>Colocava-se na pele da menina. Lembrou que, na idade dela, tinha tantos sonhos. Queria ser algu\u00e9m. N\u00e3o se via como uma mera dona-de-casa. Pintava, bordava, declamava, fazia poesias. Chegou at\u00e9 a ensaiar alguns passos de sapateado. Era muito ativa.<\/p>\n<p>Era&#8230; <\/p>\n<p>Pois, casou. A\u00ed, vieram as meninas e tudo mais virou um grande hobby. Uma brincadeira, at\u00e9 certo ponto triste.<\/p>\n<p>Por isso, quando a filha lhe disse que o romance estava por um fio, n\u00e3o se surpreendeu. Teve de esconder uma inoportuna satisfa\u00e7\u00e3o. Mas, entendeu que era preciso coragem. <\/p>\n<p>Enfim, se as coisas j\u00e1 n\u00e3o andavam bem, para que insistir? <\/p>\n<p>Ela e a menina pareciam-se tanto. Talvez fosse essa mesma a decis\u00e3o certa. N\u00e3o que ela pr\u00f3pria, hoje uma respeit\u00e1vel senhora de cinq\u00fcenta e tantos anos, se arrependesse de algo. Era uma mulher realizada. Mas, se tivesse lutado por aqueles ideais, o mundo certamente teria conhecido uma de suas mais sens\u00edveis artistas pl\u00e1sticas. Sua especialidade: pintura em porcelana.<\/p>\n<p>Bem, era hora de pensar na filha. Assim que a menina entrasse, iria ao seu encontro para, num imenso abra\u00e7o, mostrar que ela nunca estar\u00e1 sozinha&#8230; <\/p>\n<p>E, como todos dizem, a vida continua&#8230;<\/p>\n<p>CENA 6 \u2013 A vida em tom s\u00e9pia, como se fosse Carlitos&#8230;<\/p>\n<p>Nunca foi de muito falar. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m com tr\u00eas mulheres em casa, pouco lhe sobrava para opini\u00f5es e pareceres. N\u00e3o reclamava. A mulher e as filhas &#8212; al\u00e9m da chacrinha que herdara nos arredores da cidade &#8212; faziam sua plena felicidade. Gostava de estar com elas. Divertia-se. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, sempre lhe aprontavam alguma. Como aquela vez, num shopping da Capital, entraram as tr\u00eas num improvisado est\u00fadio fotogr\u00e1fico e cismaram em tirar uma foto com roupas de \u00e9poca. Foi obrigado a pagar esse mico. Mas, no preciso momento, vestido a car\u00e1ter, imaginou-se o pr\u00f3prio Carlitos. Por isso, arregalou os olhos na hora do flash e se saiu muito bem. Todos que viam a foto da fam\u00edlia elogiavam sua performance em tom s\u00e9pia. <\/p>\n<p>Destacou-se mais do que as tr\u00eas, quem diria? <\/p>\n<p>Ficou melhor caracterizado que Belinha, a mais nova e, c\u00e1 entre n\u00f3s, a mais meiga. Era um doce de menina, carinhosa e sempre lhe dando uma aten\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n<p>Pois n\u00e3o \u00e9 que justamente Belinha estava lhe deixando preocupado. Andava amuada, sempre a cochichar com a m\u00e3e e a irm\u00e3. <\/p>\n<p>Certamente, falavam do rapaz que n\u00e3o aparecera para as festas de fim-de-ano. Nem lembra direito do motivo que a filha alegou para a aus\u00eancia. Ficou feliz, mas n\u00e3o contou para ningu\u00e9m sobre o seu regozijo. Ela teria mais tempo para mim\u00e1-lo e lhe fazer companhia quando ia para a ro\u00e7a nas manh\u00e3s de s\u00e1bado. Era uma del\u00edcia caminhar por aquelas trilhas r\u00fasticas, ouvindo suas hist\u00f3rias de garota destemida a enfrentar os desafios da cidade-grande, onde foi morar quando completou 18 anos. <\/p>\n<p>N\u00e3o sabia dizer se agora ela tinha 23 ou 24. Talvez 25. Estava formada e agora era doutora, mas ainda n\u00e3o estava satisfeita com os rumos profissionais. Era tratada como estagi\u00e1ria. Ora, n\u00e3o sabiam o talento que estavam perdendo.<\/p>\n<p>Quando apareceu com a not\u00edcia do namoro, l\u00f3gico, contou primeiro para a irm\u00e3, depois para a m\u00e3e. Foi o \u00faltimo a saber e por vias indiretas. <\/p>\n<p>N\u00e3o emitiu qualquer coment\u00e1rio. <\/p>\n<p>Primeiro porque sequer sabia quem era o mo\u00e7o. Segundo porque n\u00e3o lhe davam aten\u00e7\u00e3o mesmo se tivesse estudado a \u00e1rvore geneal\u00f3gica da fam\u00edlia do sortudo \u2013 encantar Belinha era mesmo tirar a sorte grande na loteria da vida.<\/p>\n<p>Sempre esquecia o sobrenome italiano do rapaz. Seria um ato falho? <\/p>\n<p>Vamos ser sinceros. N\u00e3o se sentia confort\u00e1vel sempre que os via junto. O mo\u00e7o tinha um jeit\u00e3o s\u00e9rio, respeitoso. A menina era mais arisca. Grudava nele e n\u00e3o largava. De in\u00edcio, ficava sem jeito. Mas, aproveitava a situa\u00e7\u00e3o&#8230; De bobo, ele n\u00e3o tinha nada. <\/p>\n<p>N\u00e3o desgostava dele, n\u00e3o. Ao menos, n\u00e3o usava aqueles bermud\u00f5es pelas canelas, nem o bon\u00e9 com a aba para tr\u00e1s. Parecia um genro normal. O que j\u00e1 era uma not\u00e1vel conquista nesses tempos de MTVs, McDonalds e afins&#8230;<\/p>\n<p>Agora, estavam ali, os dois, na varanda, enredados numa discuss\u00e3o sem fim. Ele pr\u00f3prio &#8211; o pai &#8211; j\u00e1 estava atordoado. N\u00e3o sabia o que pensar. A filha talvez estivesse se precipitando. N\u00e3o seria melhor pensar mais sobre o assunto. Ouvir as explica\u00e7\u00f5es dele&#8230; <\/p>\n<p>Namoravam h\u00e1 tanto tempo&#8230; <\/p>\n<p>P\u00f4xa, essas mulheres nunca est\u00e3o satisfeitas. As tr\u00eas. Eram os amores da sua vida. Mas, quando cismavam com alguma coisa, sai de baixo. Formavam um clube do Bolinha \u00e0s avessas. Sabia o final de mais esse caso especial: o rapag\u00e3o, que agora achava at\u00e9 simp\u00e1tico, estava rifado. Assim como o sonho que ele discretamente acalentava de ser av\u00f4 ainda naquele ano que mal se iniciara. Mas, que prometia fortes emo\u00e7\u00f5es&#8230; <\/p>\n<p>Silenciosamente (ali\u00e1s, como era um h\u00e1bito seu) e sozinho, resolveu brindar, com uma purinha e de uma golada s\u00f3, os inef\u00e1veis des\u00edgnios daquilo que aprendemos a chamar de destino &#8211; inclusive o dele pr\u00f3prio. J\u00e1 vivera tempo suficiente para saber que o amor, mesmo quando acaba, quando provoca dores e afli\u00e7\u00f5es, \u00e9 a mais intensa e poderosa manifesta\u00e7\u00e3o de vida.<\/p>\n<p>Riu de si pr\u00f3prio e de toda a encrenca.<\/p>\n<p>&#8212; Passar\u00e1, passar\u00e1&#8230; &#8211; gostou de repetir baixinho aquela certeza.<\/p>\n<p>Afinal, todos estavam bem. Nada que duas ou tr\u00eas noites de sono pesado n\u00e3o curassem. Eram jovens e logo, logo, recome\u00e7ariam suas vidas como se esse primeiro de janeiro nunca tivesse existido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era o primeiro dia de um ano qualquer.<br \/>\nDe um tempo qualquer.<br \/>\nAs casas ainda tinham port\u00f5es baixos<br \/>\ne varandas, pequenas varandas<br \/>\nque se transformavam em territ\u00f3rio<br \/>\nlivre para os casais enamorados.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10674","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10674","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10674"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10674\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13974,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10674\/revisions\/13974"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10674"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10674"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10674"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}