{"id":10679,"date":"2007-07-18T00:00:00","date_gmt":"2007-07-18T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:41","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:41","slug":"tinho-dija-e-a-inconfiavel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/tinho-dija-e-a-inconfiavel\/","title":{"rendered":"Tinho, Dija e a inconfi\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Acontecem coisas engra\u00e7adas nessas viagens longas que se faz de \u00f4nibus. \u00c9 inevit\u00e1vel. Chega uma hora que rola ladeira abaixo a pose com que todos se apresentam. E a\u00ed \u00e9 um salve-se quem puder. Est\u00e1 todo mundo a meter o bedelho em tudo quanto \u00e9 conversa&#8230;<\/p>\n<p>Mesmo os mais reservados acabam por ouvir hist\u00f3rias e mais hist\u00f3rias sobre a vida dos seus vizinhos de banco \u2013 e o \u00f4nibus se torna uma vers\u00e3o ambulante da Grande Fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Olha a\u00ed. L\u00e1 vem um rapaz com jeito de Agostinho.<\/p>\n<p>&#8212; Vai um p\u00e3o de queijo a\u00ed, compadre? Acho que comprei demais. Se n\u00e3o der um fim nisso hoje, vai estragar. E a patroinha vai pegar no meu p\u00e9. Aceita?<\/p>\n<p>Simp\u00e1tico e pr\u00e1tico o mo\u00e7o de cal\u00e7as pelas canelas e sand\u00e1lias. At\u00e9 hoje n\u00e3o entendi a malandragem dessa moda \u2013 enfim, j\u00e1 passei da idade de entender as coisas que nunca vou entender&#8230;<\/p>\n<p>Vou aceitar mesmo assim.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>&#8212; Ai, o Dija, m\u00e3e, n\u00e3o ia gostar. Imagina. Ele detesta caminhar. At\u00e9 quando vai ao shopping, ele fica sentado na pra\u00e7a de alimenta\u00e7\u00e3o enquanto vou \u00e0s compras.<\/p>\n<p>\u00c9 a mo\u00e7a do banco atr\u00e1s do meu. Uma jovem senhora que viaja com a m\u00e3e e com a filha de onze anos. Dija, presumo, \u00e9 o marid\u00e3o que, por motivos \u00f3bvios e\/ou profissionais, n\u00e3o quis ou n\u00e3o p\u00f4de viajar. No entanto, ao cabo de algumas horas de viagem, sei mais sobre ele do que sobre qualquer inconfidente mineiro \u2013 inclusive, Tiradentes.<\/p>\n<p>Querem ver?<\/p>\n<p>\u00c9 resmung\u00e3o, n\u00e3o gosta de arroz e feij\u00e3o, prefere churrasco. Trabalha muito. N\u00e3o tem tempo para mais nada. At\u00e9 as cuecas, ela \u00e9 quem compra. Sempre se queixa de dores nas costas. Gosta de ver futebol pela TV, \u00e9 torcedor fan\u00e1tico da sele\u00e7\u00e3o.Tem adora\u00e7\u00e3o pela filha e liga de meia em meia hora. Bastava ressoar o toque de um celular para o \u00f4nibus inteiro fazer a ilustre sauda\u00e7\u00e3o: &quot;\u00c9 o Dija&quot;.<\/p>\n<p>E era&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Sentem que l\u00e1 vem hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>A senhora ao meu lado conta para o casal no banco da frente. Encantou-se com Ouro Preto, que cidade!<\/p>\n<p>&#8212; Gostei mais de Tiradentes. Parece mais ajeitadinha, diz a interlocutora.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>A senhora retruca. Em seus 50 anos de vida nunca tivera uma sensa\u00e7\u00e3o assim. \u00c9 kardecista e, depois de conhecer as igrejas e se postar diante do monumento a Tiradentes, lhe veio a sincera sensa\u00e7\u00e3o que vivera ali em outra encarna\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o tem explica\u00e7\u00e3o. Parece que j\u00e1 conhecia todos os lugares. Em meus 50 anos&#8230;<\/p>\n<p>E se punha a suspirar sobre o que fora na \u00e9poca do Brasil Col\u00f4nia, ali pelas cercanias da hist\u00f3rica Vila Rica, primeiro nome de Ouro Preto. <\/p>\n<p>&#8212; Acho que fui uma escrava. Senti uma carga de sofrimento muito pesada. Voc\u00eas podem imaginar as dores de ser arrebanhado em outro continente como animal, a viagem nos por\u00f5es de um navio negreiro e se tornar escrava. A vida era um padecer sem fim&#8230;<\/p>\n<p>Fez-se um breve sil\u00eancio. De repente a senhora, de tez clara, achou por bem reformular a hist\u00f3ria. Talvez estivesse entre os inconfidentes.<\/p>\n<p>&#8212; Por que n\u00e3o? \u2013 ela pr\u00f3pria se perguntou e tratou de responder.<\/p>\n<p>&#8212; Em meus 50 anos de vida sempre fui uma mulher de luta. N\u00e3o admitiria viver sob o tac\u00e3o de invasores a roubar nosso ouro. Sou professora de Hist\u00f3ria, sabiam? Quer dizer, hoje trabalho no ramo do com\u00e9rcio. Mas, quando veio a Redentora, em 64, fui presa na escola onde trabalhava. Me levaram para \u2018tocar pianinho\u2019 nos por\u00f5es da ditadura. Sempre fui uma libert\u00e1ria, uma guerreira. Liberdade ainda que tardia&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Desisti de ouvir o discurso da mulher. Tinha coisa errada. Mentia descaradamente. At\u00e9 acredito que viveu em Ouro Preto em outras eras. N\u00e3o sei se foi escrava, inconfidente, a pr\u00f3pria Mar\u00edlia sem Dirceu ou guia de turismo. Mas, calculem comigo, se foi presa em 64 quando era professora de Hist\u00f3ria, ela tinha no m\u00ednimo 17 ou 18 anos; portanto, nasceu em 46 ou 47, donde se conclui que hoje tem 60 ou 61 anos&#8230;<\/p>\n<p>Ta\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>Achou que me enganaria com essa hist\u00f3ria de: \u201cEm meus 50 anos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Eu, hein!<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Devia ter previsto. Foi morder o p\u00e3o de queijo que o rapaz me ofereceu e sair em busca de um pronto-socorro dent\u00e1rio em Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Eu, hein!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acontecem coisas engra\u00e7adas nessas viagens longas que se faz de \u00f4nibus. \u00c9 inevit\u00e1vel. Chega uma hora que rola ladeira abaixo a pose com que todos se apresentam. 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