{"id":10680,"date":"2007-07-19T00:00:00","date_gmt":"2007-07-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:41","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:41","slug":"tudo-bem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/tudo-bem\/","title":{"rendered":"Tudo bem?"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o lembro exatamente as palavras que usou, mas n\u00e3o esque\u00e7o o que ouvi do jornalista Mino Carta, l\u00e1 pelos fins dos anos 70. Ao lado do grande Cl\u00e1udio Abramo, ele tocava corajosamente o Jornal da Rep\u00fablica, que durou pouco mais de 170 n\u00fameros. <\/p>\n<p>Mas, vamos ao que disse ou ao que pude entender &#8212; nem vou usar aspas para n\u00e3o confundir voc\u00eas.<\/p>\n<p>O Brasil ainda n\u00e3o viveu uma grande trag\u00e9dia (\u00e0quela \u00e9poca, entenda-se). Talvez por isso as elites brasileiras e mesmo amplos setores da classe m\u00e9dia n\u00e3o tenham exatamente clara a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 viver em uma sociedade contempor\u00e2nea. <\/p>\n<p>Sen\u00e3o me engano, o jornalista havia assistido a um bate-boca entre duas senhoras \u00e0 beira de uma bomba de gasolina. Disputavam a primazia de serem atendidas pelo frentista. \u00c0quele tempo, a majora\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o dos combust\u00edveis era constante e anunciada entre a novela da sete e o Jornal Nacional. Os postos fechavam rigorosamente \u00e0s 20 horas. Da\u00ed que se formavam longas filas nas cercanias. Todos queriam encher o tanque de seus possantes e assim garantir a esperteza e a economia de alguns trocados. <\/p>\n<p>Por certo, Mino se referia \u00e0s grandes li\u00e7\u00f5es de vida que, por exemplo, a Europa viveu durante o per\u00edodo das grandes guerras ou os efeitos da cat\u00e1strofe de Hiroshima que o Jap\u00e3o enfrentou, enfim&#8230; <\/p>\n<p>N\u00e3o que as desejasse para o Pa\u00eds; de resto aben\u00e7oado por Deus e bonito por natureza. Mas, clamava para que o conceito de Na\u00e7\u00e3o fosse aqui respeitado em toda sua plenitude. Que privilegiadas castas de brasileiros acordassem para o soerguimento de uma verdadeira sociedade contempor\u00e2nea. Afinal, projetava-se o fim do per\u00edodo dos ditadores militares, mas a propalada justi\u00e7a social pedia mais, muito mais do que panela\u00e7os, cantorias e discursos. <\/p>\n<p>Havia no comportamento daquelas duas damas \u2013 e ele assistiu a cena em um bairro nobre paulistano \u2013 algo de doentio. Um ego\u00edsmo descabido. Uma soberba injustific\u00e1vel. Para elas, o mundo resumia-se aos cent\u00edmetros que separavam os reluzentes p\u00e1ra-choques dos ve\u00edculos da onipot\u00eancia divinal da bomba de gasolina. Essa grand\u00edssima verdade \u2013 quem estava mais perto \u2013 permitia a cada uma das oponentes despejar descontrolados improp\u00e9rios sobre a rival. <\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Esta narrativa do jornalista talvez tenha me ficado latente na mem\u00f3ria por um fato tristemente semelhante que acabara de assistir naqueles dias. Emblematicamente, tamb\u00e9m envolveu autom\u00f3veis. A saber: o modelo rebrilhante e esportivo de um garot\u00e3o, com adornos de ouro nos pulsos e no pesco\u00e7o, e um t\u00e1xi de frota, desses bem mambembes. N\u00e3o sei exatamente como foi o esbarr\u00e3o entre as duas carca\u00e7as. Mas, o pr\u00edncipe \u2013 sim, porque devia s\u00ea-lo ou se julgava assim \u2013 desceu brandindo uma barra de ferro e a berrar o maior de todos os esculachos que um ser humano poderia ouvir: <\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea \u00e9 pobre, cara! Voc\u00ea \u00e9 pobre! Olha o que voc\u00ea fez! Olha o que voc\u00ea fez no meu carro, \u00f4 pobre! <\/p>\n<p>O estrago n\u00e3o ia al\u00e9m de alguns arranh\u00f5es entre a lateral e um dos p\u00e1ra-lamas. Na verdade, creio eu, o que deixou o rapaz indignado foi o fato de um pobre ousar tomar a frente em seu caminho. <\/p>\n<p>Junto \u00e0s duas hist\u00f3rias a conclus\u00e3o do jornalista. Sen\u00e3o acord\u00e1ssemos dessa mesquinhez, n\u00e3o demoraria e o Pa\u00eds mergulharia num estado de guerra civil em que sequer distinguir\u00edamos quem era por n\u00f3s e quem seria contra n\u00f3s. De uma forma ou de outra, organizados ou n\u00e3o, os desvalidos e abandonados \u2013 ele alertou \u2013 se fariam ouvir.<\/p>\n<p>III. <\/p>\n<p>Destacaria que essas reflex\u00f5es foram feitas h\u00e1 30 anos, pouco mais talvez. Destacaria tamb\u00e9m que soam hoje como profecias. Lamentavelmente. H\u00e1 ainda uma agravante. Enfrentamos hoje uma trag\u00e9dia generalizada, n\u00e3o tenho d\u00favida. N\u00e3o temos o que \u201cinvejar\u201d de iraquianos e\/ou palestinos e\/ou qualquer habitante de uma regi\u00e3o de conflito. <\/p>\n<p>E reparem.<\/p>\n<p>Nossos pequenos\/grandes dramas di\u00e1rios nos tornaram insens\u00edveis a qualquer rea\u00e7\u00e3o em conjunto. Os males que nos afligem s\u00e3o tantos que nos confundem e aniquilam toda e qualquer forma de mobilizarmos. Dos estelionatos eleitorais \u00e0 guerra nos morros cariocas. Dos esc\u00e2ndalos do Lalau \u00e0 barb\u00e1rie das ruas, onde um garoto pode ser arrastado por quarteir\u00f5es por um carro. Dos mensal\u00f5es do Congresso aos seq\u00fcestros rel\u00e2mpagos ou n\u00e3o. Da desfa\u00e7atez da m\u00eddia \u2013 salvo raras exce\u00e7\u00f5es \u2013 \u00e0s 30 mil mortes anuais em acidentes de tr\u00e2nsito. Da impunidade de pol\u00edticos e governantes \u00e0 trag\u00e9dia anunciada de Congonhas&#8230;<\/p>\n<p>Nesses tempos, ningu\u00e9m deveria perguntar \u2013 mesmo por educa\u00e7\u00e3o \u2013 se \u201cest\u00e1 tudo bem\u201d para um brasileiro. Seria hip\u00f3crita, da nossa parte, responder, mesmo que mecanicamente: \u201cTudo bem. Tudo bem\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o vamos nada bem, leitores.<br \/>\nE a tend\u00eancia \u00e9 piorar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o lembro exatamente as palavras que usou, mas n\u00e3o esque\u00e7o o que ouvi do jornalista Mino Carta, l\u00e1 pelos fins dos anos 70. 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