{"id":10685,"date":"2007-07-23T00:00:00","date_gmt":"2007-07-23T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:40","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:40","slug":"para-nao-dizer-que-nao-falei-do-pan","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/para-nao-dizer-que-nao-falei-do-pan\/","title":{"rendered":"Para n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei do Pan"},"content":{"rendered":"<p>Como \u00e9 do meu feitio, reconhe\u00e7o estar um tanto atrasado. Creio, por\u00e9m, que ainda h\u00e1 tempo para dar uma palinha aqui sobre os Jogos Panamericanos&#8230; <\/p>\n<p>&#8230; de 1963, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Qual a surpresa? <\/p>\n<p>N\u00e3o acredito que passou pela cabe\u00e7a de alguns de voc\u00eas a id\u00e9ia de que eu pudesse vestir uma camisa listada, de verde e amarelo, e sair por a\u00ed a gritar:<\/p>\n<p>\u201cAi&#8230; ai, ai, ai, ai&#8230;\u201d.  <\/p>\n<p>Me poupem desse mico. <\/p>\n<p>Pior seria, sob a reg\u00eancia do Galv\u00e3o Bueno, me esgani\u00e7ar naquele refr\u00e3ozinho chato que s\u00f3: <\/p>\n<p>\u201cAh! Sou brasileiroooo&#8230;<br \/>\nCom muito orgulhooo&#8230;<br \/>\nCom muito amooor&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Voc\u00eas me conhecem. Sabem que eu n\u00e3o seria capaz. Por favor. Tenho um nome a zelar.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Voltemos ao Pan que interessa a este espa\u00e7o. <\/p>\n<p>1963. L\u00e1 estava eu nas numeradas do Pacaembu, o charmoso est\u00e1dio Dr. Paulo Machado de Carvalho, para assistir \u00e0 abertura dos Jogos que ningu\u00e9m entendia bem o que seriam. Entre os nossos, sab\u00edamos que haveria partidas de futebol e de basquete que eram os esportes em voga \u2013 e nos interessavam. Verdade verdadeira, s\u00f3 futebol me interessava. Mas, gostava de ver as partidas de &quot;bola ao cesto&quot;, pois havia alguns jogadores extraordin\u00e1rios: Vlamir Marques, Amauri Passos, Rosa Branca, Mosquito \u2013 os dois \u00faltimos, al\u00e9m do que, jogavam no Palmeiras.<\/p>\n<p>Nem lembro de quem foi a id\u00e9ia. Do Darcy, do Bet\u00e3o ou sei l\u00e1 de quem. Sei que topamos de imediato ver a festan\u00e7a que rolou numa tarde de s\u00e1bado. Sem qualquer pirotecnia ou exibi\u00e7\u00e3o de escola de samba, jacar\u00e9s gigantes, samambaias e danielas mercurys, a cantar \u201cAquarela do Brasil\u201d, aquela dos versos que falam Brasil brasileiro e do coqueiro que d\u00e1 coco.<\/p>\n<p>Melhor assim. N\u00e3o sei qual seria a nossa rea\u00e7\u00e3o diante dessas esquisitices.<\/p>\n<p>Foi apenas e t\u00e3o somente um desfile de delega\u00e7\u00f5es esportivas. Ali\u00e1s, n\u00e3o lembro que tal e magn\u00e2nimo acontecimento tenha mudado sequer um mil\u00edmetro da vida da pacata cidade. Repito: o Pan era apenas uma competi\u00e7\u00e3o esportiva.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o havia a parceria (cumplicidade) dos esportes com as TVs, o marketing e os altos lucros que da\u00ed adv\u00eaem.<\/p>\n<p>Bom neg\u00f3cio mesmo talvez apenas para os simp\u00e1ticos pipoqueiros que trabalhavam na Pra\u00e7a Charles Miller &#8212; e nos deixavam pegar uns piru\u00e1s de gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Esqueci de dizer. Era garoto. Tinha onze, doze anos. Fomos em bando para l\u00e1. De \u00f4nibus el\u00e9trico. O mais velho deveria ter quatorze anos. Uma farra. Encontramo-nos no Parque da Aclima\u00e7\u00e3o, onde invadimos o \u201cCardoso de Almeida\u201d que nos levaria at\u00e9 \u00e0s imedia\u00e7\u00f5es do est\u00e1dio. <\/p>\n<p>Levaria&#8230;<\/p>\n<p>Um dos nossos come\u00e7ou a cantoria e, que jeito!, o acompanhamos em um coro solid\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cAclima\u00e7\u00e3o, bairro da perdi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDe dia d\u00e1 tarado.<br \/>\nDe noite d\u00e1 ladr\u00e3o.<br \/>\nDe dia falta \u00e1gua .<br \/>\nDe noite condu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe entro no \u00f4nibus<br \/>\nest\u00e1 imundo&#8230;<br \/>\nO cobrador \u00e9 um vaga&#8230;<br \/>\nAclima\u00e7\u00e3o, bairro da perdi\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>Educados que \u00e9ramos nunca conclu\u00edamos o verso. O motorista, por\u00e9m, n\u00e3o tinha l\u00e1 um um grande senso de humor. Ou sequer estava sensibilizado que ir\u00edamos torcer pelo Brazil-zil-zil. Preferiu ser solid\u00e1rio ao colega de trabalho, um senhor austero de bigodes e gravata fininhos, fininhos e as &#8216;notas&#8217; dobradas entre os dedos.<\/p>\n<p>Parou o coletivo e&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Ednaldo tinha a l\u00edngua presa. N\u00e3o conseguia falar \u201ccrian\u00e7a\u201d. Da\u00ed, veio o apelido de Tian\u00e7a que, ali\u00e1s, de inocente &#8216;tian\u00e7a&#8217; n\u00e3o tinha nada. Pois ent\u00e3o. Acompanhamos o amigo Tian\u00e7a no estribilho e tamb\u00e9m no gesto igualmente solid\u00e1rio de aceitar ao gentil convite para que todos abandon\u00e1ssemos o \u00f4nibus. Como ainda n\u00e3o hav\u00edamos pagado as passagens, descemos rapidinho pela porta traseira antes que algu\u00e9m cismasse de chamar o Juizado de Menores.<\/p>\n<p>Creio que o JM foi o predecessor da Febem porque trem\u00edamos de medo s\u00f3 de ouvir a amea\u00e7a: <\/p>\n<p>\u201cVou chamar o Juizado\u201d. <\/p>\n<p>Os mais jovens n\u00e3o conseguir\u00e3o sequer imaginar. No entanto, viv\u00edamos uma \u00e9poca em que os mais velhos sempre tinham raz\u00e3o e respeitavam-se suas decis\u00f5es, fossem quais fossem.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Enfim, voltemos \u00e0 nossa odiss\u00e9ia. <\/p>\n<p>Est\u00e1vamos na rua Conselheiro Furtado, imedia\u00e7\u00f5es da Pra\u00e7a Jo\u00e3o Mendes. Ou seja, longe pra ded\u00e9u. Mesmo assim, resolvemos n\u00e3o arriscar outra condu\u00e7\u00e3o. Decidimos ir a p\u00e9 mesmo. T\u00ednhamos todo o tempo do mundo. Sa\u00edmos cedo de casa e nossa meta era rastrear o Pacaembu atr\u00e1s de carteiras de cigarros estrangeiros que enriquecessem nossas valiosas cole\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Era moda naquele tempo. Eu mesmo cheguei a juntar duzentas e tantas marcas diferentes. Se os gringos fumavam o tanto que fumavam nos filmes que assist\u00edamos nas matin\u00e9s do cine Riviera, imaginem a fartura que encontrar\u00edamos.<\/p>\n<p>Ledo engano. Voltamos de m\u00e3os vazias.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>No Pacaembu, com entrada franqueada ao p\u00fablico, n\u00e3o enfrentamos maiores atropelos. Diria mesmo que reuniria mais p\u00fablico um jogo do Campeonato Paulista entre Palmeiras e Juventus numa tarde chuvosa de quarta-feira. <\/p>\n<p>Corri logo para as numeradas, onde nunca havia posto os meus sacrossantos p\u00e9s, lavados e enxaguados numa cerim\u00f4nia de &#8216;lavap\u00e9s&#8217; da igreja de Nossa Senhora da Gl\u00f3ria. Por dois bons motivos. O primeiro \u2013 e \u00f3bvio \u2013 era a grana. Ou a falta de. O segundo porque meu pai s\u00f3 acompanhava os jogos pr\u00f3ximo ao alambrado, com o radinho Speak colado ao ouvido.<\/p>\n<p>Primeiro ele ajeitava um lugar para mim.<\/p>\n<p>&#8212; Abre um lugar para o garoto, sen\u00e3o ele n\u00e3o v\u00ea os gols do Palestra.<\/p>\n<p>Depois fazia \u00e0s vezes de rep\u00f3rter de campo para quem estivesse do lado, dividindo as not\u00edcias que ouvia no potente.<\/p>\n<p>&#8212; Vai sair o H\u00e9lio Burini e entrar um menino novo que veio do Bangu. Um tal de Ademir. Filho daquele beque carioca, o Domingos da Guia&#8230;<\/p>\n<p>Grande Aldo, que naquele s\u00e1bado preferiu ir ao Jockey Club \u201cgarantir o leite dos cavalos\u201d, como dizia, dona Yolanda, minha m\u00e3e. Mas, liberou um trocado para a condu\u00e7\u00e3o a fim de que eu pudesse me divertir com a turma da Muniz de Souza.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>E c\u00e1 estou a desandar nossa conversa sobre o Pan. Voltemos ao Pacaembu e sejamos sucintos.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 cerim\u00f4nia, diria que, aos meus olhos de moleque, pareceu um espet\u00e1culo bonito. Alegre. Parecido com os concursos de bandas e fanfarras que a TV Record promovia anualmente e me causavam alergia s\u00f3 de ouvir o som estridentes das cornetas. As delega\u00e7\u00f5es entraram uma a uma e se posicionaram no centro do gramado. \u00c0 frente, as respectivas bandeiras. Os atletas vestiam-se formalmente. Os homens de terno e gravata. As mulheres, vestidos comportados em tons discretos. Hinos, hasteamento de bandeiras, discursos, essas coisas.<\/p>\n<p>Viv\u00edamos em um Brasil diferente, em um mundo que ainda recendia ao p\u00f3s-guerra. Distante, muito distante da tal sociedade midi\u00e1tica que hoje nos imp\u00f5e valores e verdade absolutas. Talvez por isso todos ali se sentiam apenas e t\u00e3o somente irmanados numa grande e singela confraterniza\u00e7\u00e3o. Sequer havia essa n\u00f3ia de atualiza\u00e7\u00e3o do quadro de medalhas.<\/p>\n<p>Ah! Ningu\u00e9m vaiou ningu\u00e9m. Tamb\u00e9m n\u00e3o apareceu nenhum presidente por l\u00e1 \u2013 \u00e9 bom que se diga. Ao menos que eu me lembre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como \u00e9 do meu feitio, reconhe\u00e7o estar um tanto atrasado. 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