{"id":10686,"date":"2007-07-24T00:00:00","date_gmt":"2007-07-24T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:40","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:40","slug":"mas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/mas\/","title":{"rendered":"Mas&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Meu saudoso pai era um sujeito simpl\u00f3rio. Filho de calabreses, dizia o que lhe passava pela cabe\u00e7a sem maiores cuidados. At\u00e9 porque \u00e9 mais ou menos recente a obriga\u00e7\u00e3o de ser politicamente correto. <\/p>\n<p>Tem uma hora que cansa. \u00d4 se cansa. <\/p>\n<p>Hoje estou assim. Por isso, recorro aos causos do Ald\u00e3o para n\u00e3o cair num tom ainda mais pessimista.  <\/p>\n<p>Por exemplo. O pai, sempre que voltava de um banco, contava a seguinte hist\u00f3ria. Houve um tempo \u2013 l\u00e1 nos prim\u00f3rdios \u2013 que o cidad\u00e3o trocava cheques por chapinhas numeradas num balc\u00e3ozinho fub\u00e1 de qualquer ag\u00eancia. As institui\u00e7\u00f5es financeiras tinham instala\u00e7\u00f5es simples, humildes at\u00e9; onde tudo acontecia em breves minutos. N\u00e3o demorava, o caixa chamava o tal n\u00famero, era apresentar a chapinha e efetuar a opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era assim rudimentar, e eficiente.<\/p>\n<p>O que o pai n\u00e3o entendia era todo o aparato arquitet\u00f4nico dos bancos de hoje, os zilh\u00f5es de computadores, a ostensiva publicidade, o oba-oba em troca de filas enormes, atendimento arrastado, os equ\u00edvocos sempre a dano do cliente.<\/p>\n<p>O Ald\u00e3o n\u00e3o se dava conta das tarifas. Ah! as tarifas&#8230; <\/p>\n<p>Mas, fazia quest\u00e3o de ressaltar a incoer\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8212; U\u00e9, toda essa modernidade n\u00e3o deveria ser em prol da freguesia? Ent\u00e3o? E o que fazem todos aqueles pap\u00e9is colados nos computadores dos caixas para lembrar isso e aquilo que, no fundo, no fundo, j\u00e1 deveriam ter feito ou v\u00e3o esquecer de fazer? Tem coisa errada a\u00ed e a gente \u00e9 quem paga, n\u00e3o \u00e9 filho?<\/p>\n<p>Tem sim, pai. Anda muita coisa errada por aqui \u2013 e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com os bancos, n\u00e3o.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>O Ald\u00e3o n\u00e3o era l\u00e1 de escutar m\u00fasica popular brasileira. Preferia velhas can\u00e7\u00f5es italianas e boler\u00f5es no estilo \u201cBesame Mucho\u201d. No entanto, acho que dois compositores brazucas, Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc, traduziram em versos, gravados por Elis, o que ele queria dizer: \u201cO Brazil n\u00e3o conhece o Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Uma verdade cada vez mais absoluta. T\u00e3o real que salta aos olhos nesses dias esquiz\u00f3ides. Contrastem a hiper-valoriza\u00e7\u00e3o dos Jogos Pan-americano com o caos a\u00e9reo que o Pa\u00eds vive, ressaltado tragicamente pelo acidente com o avi\u00e3o da TAM.<\/p>\n<p>Comparem o que foi gasto com os \u2018elefantes brancos\u2019 criados para receber as competi\u00e7\u00f5es esportivas e analisem o sucateamento de equipamentos e dos aeroportos brasileiros \u2013 que, acrescente-se, n\u00e3o vem de hoje n\u00e3o e, de longe, n\u00e3o \u00e9 o maior dos problemas sociais que enfrentamos. <\/p>\n<p>Faz algum sentido nos alardearmos como pot\u00eancia esportiva? Faz sentido falar em Olimp\u00edadas ou em ser a sede de Copa do Mundo de 2014?<\/p>\n<p>\u00c9 uma brincadeira de p\u00e9ssimo gosto. Mas, \u00e9 uma brincadeira que vai ao encontro de interesses espec\u00edficos de uma casta de privilegiados senhores do Poder. Imaginem o quanto de \u2018bons neg\u00f3cios\u2019 podem advir de tais eventos.<\/p>\n<p>O pai n\u00e3o resistiria &#8211; e, como bom oriundi que estranha o que n\u00e3o entende, repetiria:<\/p>\n<p>&#8212; Tem coisa errada a\u00ed e a gente \u00e9 quem paga, n\u00e3o \u00e9 filho?<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Voc\u00eas devem me achar ranzinza. E lhes dou raz\u00e3o. Capaz at\u00e9 que eu perca meus cinco ou seis fi\u00e9is leitores. Enfim. Me sinto desconfort\u00e1vel nos \u00faltimos dias &#8211; uma sensa\u00e7\u00e3o que parece sem volta, chegou para ficar. \u00c9 impress\u00e3o minha ou est\u00e3o querendo faturar politicamente em cima dos 200 mortos? Que jogo de empurra \u00e9 este na apura\u00e7\u00e3o do caso. Desconfio que todos entabulam discursos em causa pr\u00f3pria em hora inoportuna. N\u00e3o h\u00e1 pudores. A \u00fanica dor que percebo verdadeira \u00e9 a dos familiares das v\u00edtimas do tr\u00e1gico acidente.<\/p>\n<p>Uma dor que, ali\u00e1s, a m\u00eddia tem explorado descarada e insidiosamente. O que, como jornalista, considero vergonhoso, deprimente. Uma coisa \u00e9 informar, outra \u00e9 fazer sensacionalismo \u2013 sem contar os demagogos de plant\u00e3o \u2013 em hora inadequada.<\/p>\n<p>\u00c9 um entre os zilh\u00f5es de casos que vi \u2013 e lamento. \u00c9 minha vez de dizer:<\/p>\n<p>&#8212; T\u00e1 tudo errado por aqui, pai, e todos s\u00f3 v\u00eaem a culpa do outro&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>H\u00e1 um descompasso entre esse o Brasil medieval e desvalido e o Brazil que somos n\u00f3s a quebrar recordes e exigir o lugar garantido no v\u00f4o para Miami. N\u00e3o nos damos conta da mis\u00e9ria que nos ronda \u2013 e amea\u00e7a. Queremos o salto de qualidade da contemporaneidade sem preencher o vazio das condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de sobreviv\u00eancia para milh\u00f5es e milh\u00f5es de brasileiros. <\/p>\n<p>Vislumbramos a Dazlu e fechamos os olhos para o Jardim \u00c2ngela que existe em cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Eis o extraordin\u00e1rio abismo entre os dois brasis. Um abismo que s\u00f3 tende a ser mais profundo gra\u00e7as a hipocrisia nossa de todos os dias \u2013 e em todos os n\u00edveis. N\u00e3o queremos conhecer o verdadeiro Brasil.<\/p>\n<p>Vou parar por aqui&#8230;<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>&#8230; N\u00e3o sei o que o pai diria numa hora dessas. Talvez optasse pelo sil\u00eancio, como farei a partir de agora. Sei bem. N\u00e3o era isso que voc\u00eas gostariam de ler. Tamb\u00e9m n\u00e3o era o que eu gostaria de escrever. Mas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu saudoso pai era um sujeito simpl\u00f3rio. 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