{"id":10689,"date":"2007-07-26T00:00:00","date_gmt":"2007-07-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:40","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:40","slug":"a-segunda-chance","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-segunda-chance\/","title":{"rendered":"A segunda chance"},"content":{"rendered":"<p>Eram todas as can\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Ele sempre lhe dizia isso, com o verbo no presente. <\/p>\n<p>\u201cSomos todas as can\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Ela gostava de ouvi-lo. Mas, fingia indiferen\u00e7a e que n\u00e3o entendia bem o que estava a lhe oferecer. Gostou dele desde o primeiro momento, mas depois se assustou quando percebeu que era correspondida. T\u00e3o diferentes. Sua vida seria revirada, os sentimentos de pernas para o ar. Como explicar ao mundo aquele relacionamento? Mesmo assim, arriscou, mas cuidou de n\u00e3o abrir a guarda. Fez e aconteceu para que ningu\u00e9m suspeitasse de que era mesmo para valer.<\/p>\n<p>Quando estavam juntos sentia-se bem. Protegida, amada. Parece que a vida fazia mais sentido.<\/p>\n<p>\u201cSomos todas as can\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 ele dizia.<\/p>\n<p>De repente, vinha o medo de que tudo, de repente, desandasse \u2013 e ela voltasse a ficar s\u00f3. Vivera uma p\u00e9ssima experi\u00eancia h\u00e1 algum tempo. Inteiramente diferente da que ele propunha agora, mas n\u00e3o queria voltar a enfrentar o charco da solid\u00e3o. Lembrava o quanto foi dif\u00edcil recuperar a auto-estima, a vida social, a vontade de ir para as baladas e, melhor, divertir-se a valer.<\/p>\n<p>Da\u00ed a indiferen\u00e7a e o \u201ccomo assim\u201d que sempre lhe dava como resposta.<\/p>\n<p>&#8212; Assim, assim&#8230; \u2013 ele lhe explicava, trazendo o seu corpo para junto dele.<\/p>\n<p>Ela esquecia as conven\u00e7\u00f5es, as noitadas insanas e deixava acontecer. No dia seguinte, cobrava-se uma postura mais firme. Era s\u00f3 um bom momento. N\u00e3o podia se deixar levar. Tinha tanta coisa ainda para viver, para conhecer. Precisava dar um jeito. Por um ponto final, antes que fosse tarde demais. Ele sofreria, mas enfim&#8230; \u00c9 da vida e dos amores.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Nos primeiras semanas, ainda se falaram pelo celular, como se nada tivesse acontecido. \u00c0s vezes, ela pr\u00f3pria ainda se sentia presa a ele \u2013 e aos projetos bobos que gostavam de fazer. Coisa de cinema. N\u00e3o existe amor assim, justificava a si mesmo <\/p>\n<p>Mas, essas conversas foram ficando mais e mais esparsas. J\u00e1 identificava um tom de m\u00e1goa na voz do outro lado da linha. N\u00e3o eram raras as vezes em que discutiam feio e ficavam semanas sem se falar. <\/p>\n<p>A\u00ed era a vez dela tomar a iniciativa. Queria saber dele. Estava bem? Como ia o trabalho? Alguma novidade? Tinha medo que lhe perguntasse se estava &#8216;ficando&#8217; com algu\u00e9m. Nunca lhe diria. Esconderia o assunto com meias-verdades. Por outra. Tinha horror em saber que ele se apaixonara e agora ela havia descambado para o limbo dos seres sem luz.<\/p>\n<p>Muitas vezes, quando estavam juntos, encantavam-se a resgatar a hist\u00f3ria maluca dos dois. Riam tanto das atrapalhadas, dos desencontros. Do primeiro beijo num Frans Caf\u00e9 da vida que escandalizou os que estavam ao redor. Talvez fossem mesmo predestinados. Iluminados. N\u00e3o se vive um sentimento assim duas vezes. Entusiasmo \u00e9 uma coisa. Sentimento, sentimento \u00e9 outra.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>\u201cSomos todas as can\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>V\u00e1 entender as mulheres. Ser\u00e1 que ele tinha raz\u00e3o? E agora? Faz ano e tanto que n\u00e3o se viam. H\u00e1 meses n\u00e3o se falavam. Poderiam ser bons amigos. Mas, ele n\u00e3o aceitava. Que bobagem. Dias desses ela tentou ligar uma, duas, tr\u00eas vezes. Nada. Tinha certeza que, ao menos o n\u00famero do telefone, ele reconheceria no visor do celular. Por que n\u00e3o atendeu? Por que n\u00e3o retornou a liga\u00e7\u00e3o? <\/p>\n<p>Estranhou essa inquieta\u00e7\u00e3o. Opa, opa. Tratou de deixar claro para si pr\u00f3pria. Era diferente o que sentia por ele. N\u00e3o podia ser o mesmo que ele dizia sentir por ela. N\u00e3o, n\u00e3o. Era diferente. Foi s\u00f3 um momento, um vacilo.     <\/p>\n<p>Mas, o que significava essa sensa\u00e7\u00e3o agora. Uma falta de ar. Um aperto no peito. Uma ard\u00eancia nos olhos. N\u00e3o pode ser. Arrependimento. N\u00e3o. S\u00f3 queria saber se estava tudo bem. Gostava dele, um cara bacana e tal.<\/p>\n<p>Sentiu um calafrio ao recordar as \u00faltimas palavras ao telefone. Ele lhe cobrou coer\u00eancia, que ponderasse. Ela o despachou.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o entendo assim. Vamos deixar tudo como est\u00e1.<\/p>\n<p>Ficou aliviada quando ele desligou. Aqueles segundos de sil\u00eancio arrastaram-se, intermin\u00e1veis. Despediam-se para sempre pela milion\u00e9sima vez. Mas nem ela acreditava no adeus&#8230;<\/p>\n<p>Olhou a cidade aos seus p\u00e9s. Abriu os olhos ao toque da comiss\u00e1ria a lhe indicar que ajustasse o banco. Come\u00e7avam os procedimentos de aterrissagem. Logo estaria de volta, em terra firme. Talvez o procurasse, talvez n\u00e3o. Claro que sim.<\/p>\n<p>Sorriu ao desvendar o segredo que, s\u00f3 agora percebera, guardou a sete chaves, inclusive dela mesmo. Teriam uma segunda chance. Afinal, eram todas as can\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9 assim?<\/p>\n<p>Era fim de tarde na metr\u00f3pole das can\u00e7\u00f5es que nunca mais se ouviu. <\/p>\n<p>Chovia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eram todas as can\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Ele sempre lhe dizia isso, com o verbo no presente. <\/p>\n<p>\u201cSomos todas as can\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Ela gostava de ouvi-lo. Mas, fingia indiferen\u00e7a e que n\u00e3o entendia bem o que estava a lhe oferecer.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10689","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10689"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10689\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17212,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10689\/revisions\/17212"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}