{"id":10690,"date":"2007-07-27T00:00:00","date_gmt":"2007-07-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:40","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:40","slug":"o-rapaz-do-1819","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-rapaz-do-1819\/","title":{"rendered":"O rapaz do 1819"},"content":{"rendered":"<p>Falavam coisas do rapaz do 1819. Diziam que tinha um pacto com as tais for\u00e7as ocultas. Que ouvia vozes. Via pontos luminosos. Tinha press\u00e1gios. E s\u00f3 dizia a verdade, \u201cdoa a quem doer\u201d.<\/p>\n<p>Era, portanto, diferente da maioria dos videntes que gosta de dar uma moral para os incautos consulentes. <\/p>\n<p>1819 era o n\u00famero de um modesto sobradinho, discretamente fincado num conjunto de casas geminadas em uma rua movimentada de tradicional bairro paulistano. <\/p>\n<p>O rapaz do 1819. Assim ele era conhecido naqueles arredores. Assim fazia fama mais e mais a cada dia, em meados dos anos 80.<\/p>\n<p>Foi numa tarde fria, como a de hoje, que fui encontra-lo para uma entrevista,  no dito cujo 1819. Preciso dizer que os feitos do mo\u00e7o chegaram \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o e adivinhem quem foi incumbido de entrevista-lo? Entrevista-lo numas. O editor queria mesmo que eu o desmascarasse. Mostrasse a balela dos seus conselhos e acabasse com aquela prova cabal de que somos um Pa\u00eds atrasado, de gente atrasada e rel\u00f3gios tamb\u00e9m \u2013 inclusive o meu.<\/p>\n<p>Explico. <\/p>\n<p>Cheguei atrasado ao encontro, embora a Reda\u00e7\u00e3o fosse pertinho dali. Ele estava a minha espera com um sorriso de boas vindas. Tipo franzino, roupas comuns, nenhuma afeta\u00e7\u00e3o ao falar. O que me desconsertou um tanto. N\u00e3o era isso que esperava encontrar. J\u00e1 n\u00e3o se faziam adivinhos como antigamente&#8230; <\/p>\n<p>Para ser sincero, n\u00e3o sabia nem por onde come\u00e7ar.  <\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Entramos para o c\u00f4modo onde atendia \u2013 e outra surpresa: era apenas um escrit\u00f3rio, de m\u00f3veis convencionais, sem nenhum parangol\u00e9 que lembrasse que ali estava o grande profeta.<\/p>\n<p>Alguns segundos de sil\u00eancio, como se estud\u00e1ssemos um ao outro, resolvi come\u00e7ar, e da maneira \u00f3bvia.<\/p>\n<p>&#8212; O que acontece? Voc\u00ea v\u00ea algum esp\u00edrito, incorpora alguma entidade, tem premoni\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>&#8212; Apenas fecho os olhos e pe\u00e7o sil\u00eancio. A\u00ed, pe\u00e7o que a pessoa fique \u00e0 vontade para dizer porque veio e sou tomado pela sensa\u00e7\u00e3o das coisas que preciso dizer. \u00c9 incontrol\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah!!!<\/p>\n<p>&#8212; A\u00ed, as pessoas por si s\u00f3 v\u00e3o desenvolvendo o assunto. Colocam os problemas, temores, frustra\u00e7\u00f5es, medos, sonhos. E assim conversamos at\u00e9 que a hora se esgote&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Assim do nada. N\u00e3o olha o mapa astral. N\u00e3o joga b\u00fazios. N\u00e3o faz despacho. Nada? Apenas conversa?<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9. <\/p>\n<p>&#8212; E as pessoas se d\u00e3o por felizes? N\u00e3o percebem que voc\u00ea \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; &#8230; Eu n\u00e3o sou uma fraude. Tamb\u00e9m n\u00e3o as engano. Converso com elas. Ou\u00e7o o que elas t\u00eam a dizer e falo exatamente o que penso sobre a quest\u00e3o. Algumas se d\u00e3o por satisfeitas com as respostas. Outras n\u00e3o concordam. Mas, insisto para que falem tim por tim, exatamente o que pensam. Pois s\u00f3 assim vamos esclarecer o que muitas vezes nem mesmo ela quer ver.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>&#8212; Ai, ai, ai. Cada vez entendo menos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 vendo. H\u00e1 em voc\u00ea a contradi\u00e7\u00e3o que existe em todos n\u00f3s. <\/p>\n<p>&#8212; O qu\u00ea? O qu\u00ea? O entrevistador aqui sou eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o veio me entrevistar para saber mais de mim e das coisas extraordin\u00e1rias que dizem que eu fa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Seja sincero. Voc\u00ea veio descobrir \u2018o grande golpe\u2019 que estou dando nas pessoas. Tanto que nem sabia por onde come\u00e7ar a conversa.<\/p>\n<p>&#8212; Como n\u00e3o sabia? Sabia sim.<\/p>\n<p>&#8212; Esperava encontrar algu\u00e9m de turbante, fantasiado para um baile de carnaval, diante de uma bola de cristal. <\/p>\n<p>&#8212; Que \u00e9 isso, cara?<\/p>\n<p>&#8212; Queria desvendar a grande mentira, n\u00e3o \u00e9? <\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 falei o entrevistador aqui sou eu.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o estou magoado. Sei que isso faz parte da sua profiss\u00e3o. \u00c9 louv\u00e1vel que o jornalista desconfie de tudo. De governo, de oposi\u00e7\u00e3o, do alto, do baixo, do rico e do pobre. Porque todos e todos vivemos a era da \u2018grande mentira\u2019. Tanto \u00e9 que, quando algu\u00e9m se prop\u00f5e a ouvir \u00fanica e exclusivamente a verdade de cada um, esse algu\u00e9m \u00e9 visto como um ser paranormal, m\u00edstico, com poderes do al\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea est\u00e1 filosofando&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o e sim. N\u00e3o porque s\u00f3 estou lhe dizendo a verdade. Sim porque h\u00e1 mais conceitos filos\u00f3ficos e transcendentais nos pequenos atos da vida do que em qualquer comp\u00eandio acad\u00eamico.<\/p>\n<p>&#8212; Me d\u00ea exemplos. Exemplos concretos para clarear minhas id\u00e9ias.<\/p>\n<p>&#8212; Pegue o bate-papo de duas pessoas. H\u00e1 sempre um jogo de esconder a verdade para salvaguardar interesses. Participe de uma reuni\u00e3o qualquer \u2013 seja de trabalho ou para escolher o s\u00edndico do pr\u00e9dio ou para definir a tend\u00eancia da moda da pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o. \u00c9 n\u00edtido que o principal nunca \u00e9 posto na mesa, ressoa nas entrelinhas. Deve ficar subentendido. Assim, em tese, a gente n\u00e3o perde nunca. Pior: se n\u00e3o der certa a nossa estrat\u00e9gia, podemos pular para o outro barco rapidinho, rapidinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ningu\u00e9m quer perder, n\u00e3o \u00e9 assim? <\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea est\u00e1 perguntando ou afirmando?<\/p>\n<p>&#8212; Estou refletindo. O editor me instigou a descobrir a mentira de algu\u00e9m. E encontro algu\u00e9m que s\u00f3 lida com a verdade. Eis o grande fen\u00f4meno paranormal. Assim posso concluir que a verdade tamb\u00e9m \u00e9 algo em extin\u00e7\u00e3o como os dinossauros, os bondes e os amores sinceros.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 certo que h\u00e1 grandes mentiras na vida das pessoas. Mas, h\u00e1 verdades que s\u00e3o absolutas.<\/p>\n<p>&#8212; Qual? Qual? Agora j\u00e1 duvido de tudo e de todos. <\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 bem assim&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o me diga uma s\u00f3 verdade absoluta&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea me deve 100 paus. Acabou o tempo da sua consulta. Eis a verdade, doa a quem doer&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falavam coisas do rapaz do 1819. Diziam que tinha um pacto com as tais for\u00e7as ocultas. Que ouvia vozes. Via pontos luminosos. Tinha press\u00e1gios. 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