{"id":10693,"date":"2007-07-30T00:00:00","date_gmt":"2007-07-30T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:40","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:40","slug":"o-homem-e-a-menina-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-homem-e-a-menina-2\/","title":{"rendered":"O homem e a menina"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Trabalhar pelo que se ama,<br \/>\n amar aquilo em que se trabalha.&quot; (Tolst\u00f3i)<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>O homem caminhava pela praia &#8212; ali\u00e1s, como houvera feito em todas aquelas tardes de hipot\u00e9tico descanso. Atravessara momentos dif\u00edceis, repletos de altos e baixos, erros e acertos, mais tristezas do que alegrias. Muitas vezes, em meio ao estresse do dia-a-dia, percebera-se absolutamente indiferente \u00e0 vit\u00f3ria do bem sobre o mal, \u00e0 supremacia dos insensatos, \u00e0s verdades mentirosas que a m\u00eddia e as pessoas imp\u00f5em como se, insidiosas e ladinas, nada quisessem ou esperassem de n\u00f3s. <\/p>\n<p>Enfim, o homem caminhava pela praia a ruminar desatinos, a contabilizar os sonhos que deixara para tr\u00e1s. Vez ou outra olhava para o mar. Em sil\u00eancio. Era s\u00f3 um homem s\u00f3 a mirar a linha que une os dois tons de azul no horizonte t\u00e3o imagin\u00e1ria quanto ele pr\u00f3prio se achava ali, naquela hora, naquele lugar a espera de todas as respostas, a espera de, quem sabe, um milagre chamado esperan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>O homem caminhava pela praia e sentiu a inconveniente presen\u00e7a de um grupo de pessoas mais a frente, pr\u00f3ximo ao ancoradouro dos barcos. Eram entusiasmados turistas que se reuniam para um r\u00e1pido tour pelas ilhas perdidas dos arredores de Angra e Parati. <\/p>\n<p>Sem pensar, deixou-se ficar por ali para ver a partida. <\/p>\n<p>Justificou-se perante ele mesmo reconhecendo que \u00e9 sempre tocante ver uma embarca\u00e7\u00e3o se afastar do cais. H\u00e1 invariavelmente algu\u00e9m dando adeus para algu\u00e9m. \u00c9 um gesto de separa\u00e7\u00e3o que pressup\u00f5e a doce promessa de reencontro, da volta.<\/p>\n<p>Tolices de um homem s\u00f3.<\/p>\n<p>III. <\/p>\n<p>Escuna ao mar, lamentou a falta dos tradicionais apitos. Dariam mais dramaticidade a cena. Mas, ponderou, j\u00e1 estava a querer demais. Caminhar pela praia era sua rotina e prop\u00f3sito, agora, j\u00e1 reivindicava uma cena de cinema para o pacato cotidiano. Era melhor retornar, preferencialmente, pela mesma faixa de areia, a remoer os mesmos pensamentos e lembran\u00e7as que o trouxeram at\u00e9 ali, beira do mar, lugar comum. Ele tamb\u00e9m era um homem comum &#8212; e sem planos. Vazio.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Nem bem havia dado o primeiro passo, ouviu um choror\u00f4 t\u00edmido, abafado; mas do\u00eddo que ele s\u00f3&#8230; <\/p>\n<p>Olhou ao redor e espantou-se ao ver que o lugar estava quase deserto. L\u00e1 estavam ele e mais meia d\u00fazia de pessoas que, pelo gren\u00e1-e-amarelo dos trajes, logo reconheceu tratar-se de funcion\u00e1rios de um hotel pr\u00f3ximo dali. Vieram acompanhar a turba de forasteiros e agora se preparavam para retornar. Mas, de quem era o tal do lamento sentido? <\/p>\n<p>Atentou o olhar e viu recostadas a um beiral duas garotinhas, de tr\u00eas ou quatro anos quando muito. Aproximou-se e notou que a mais crescidinha consolava a menor que debru\u00e7ada numa banqueta de praia escondia o rosto com os bra\u00e7os para disfar\u00e7ar o choro. <\/p>\n<p>Ao lado delas, a monitora de f\u00e9rias tratou logo de explicar quando o viu por perto. &quot;Essa pestinha n\u00e3o quis ir com os pais no passeio de barco para ver o teatrinho no hotel, agora est\u00e1 morrendo de saudade da m\u00e3e. Pode?<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Ao ouvir a sua hist\u00f3ria narrada a um estranho, a garotinha tirou meio rosto para fora. E com os pequenos olhos avermelhados e os l\u00e1bios franzidos, respondeu ao homem que podia sim. N\u00e3o disse sequer uma palavra e voltou ao choro abafado, mas foi o suficiente para que ele lhe desse raz\u00e3o. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m em sil\u00eancio condenou a irresponsabilidade dos pais. <\/p>\n<p>Mas, percebeu que algo de muito bom havia lhe arrebatado a alma e o cora\u00e7\u00e3o. Lembrou em algu\u00e9m distante, um algu\u00e9m muito especial, que, de uma forma mais singela, o rosto da garotinha lhe trouxe a mente de imediato. Concluiu que, sim, o sonho era poss\u00edvel. <\/p>\n<p>Por que n\u00e3o? <\/p>\n<p>O grande milagre era estar vivo &#8212; e, melhor, poder lutar pelo que se quer. Quem sabe, num futuro n\u00e3o muito distante, ele n\u00e3o poderia estar por ali, na mesma praia, a olhar o infinito, mas a contemplar tamb\u00e9m algu\u00e9m a quem sempre soube amar e, talvez, tamb\u00e9m por ali houvesse outro projetinho de gente, com a mesma express\u00e3o de futuro e a quem docemente chamaria de&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>* Julho de 1999, em Gazeta do Ipiranga.<br \/>\nPorque sonhos n\u00e3o envelhecem&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Trabalhar pelo que se ama,<br \/>\n amar aquilo em que se trabalha.&quot; (Tolst\u00f3i)<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>O homem caminhava pela praia &#8212; ali\u00e1s, como houvera feito em todas aquelas tardes de hipot\u00e9tico descanso.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10693","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10693","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10693"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10693\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17208,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10693\/revisions\/17208"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10693"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10693"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10693"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}