{"id":10694,"date":"2007-07-31T00:00:00","date_gmt":"2007-07-31T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:40","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:40","slug":"outro-golaco-do-nasci","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/outro-golaco-do-nasci\/","title":{"rendered":"Outro gola\u00e7o do Nasci"},"content":{"rendered":"<p>Aquele boteco onde o Sacom\u00e3 torce o rabo, no cruzamento da rua Bom Pastor com a rua Greenfeld, em frente a ag\u00eancia dos Correios, era nosso ponto de encontro. <\/p>\n<p>Acontecesse o que acontecesse. Sol ou chuva, alegria ou tristeza. Pass\u00e1vamos l\u00e1 todos os dias para bater o ponto e principalmente ouvir o guru Nasci filosofar, a bordo do seu indefect\u00edvel cachimbo, enquanto os \u00f4nibus F\u00e1brica-Pinheiros abriam o bico na curva para n\u00e3o atropelar incautos e mulambentos. <\/p>\n<p>Toda uma margin\u00e1lia tosca e inofensiva vivia por ali a dar cor, hist\u00f3rias e folclore ao lugar e a n\u00f3s, disc\u00edpulos fi\u00e9is e amigos do mais famoso de seus convivas. Claro que estou falando do Nasci.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Foi numa das noites que o tempo transformou em mem\u00f3ria. O Mestre me chamou:<\/p>\n<p>&#8212; Ou\u00e7a a conversa dos \u2018malucos\u2019 e aprenda com a vida.<\/p>\n<p>\u00c0quela hora, o Nasci costumava estar s\u00f3brio e brincalh\u00e3o. N\u00e3o entendi a insinua\u00e7\u00e3o. Poderia estar preparando alguma. N\u00e3o parecia haver nada de errado com Rub\u00e3o e Palito, os malucos que conversavam ao redor de algumas garrafas vazias de cerveja. Conversavam animadamente, diga-se. <\/p>\n<p>&#8212; Nasci, \u00e9 natural que estejamos os tr\u00eas felizes. Foi uma vit\u00f3ria e tanto. Vamos ter hist\u00f3ria para contar por semanas.<\/p>\n<p>Eu, Rub\u00e3o e Palito acab\u00e1vamos de chegar do futebol. O escrete do qual faz\u00edamos parte eu e o Rub\u00e3o, o Sucat\u00e3o do Clube Atl\u00e9tico Ypiranga, vencera com folga um arquirival do peda\u00e7o, o Uni\u00e3o M\u00fatua da Vila Capocha, por 3&#215;2.  Faltaram alguns boleiros e o Palito fez uma participa\u00e7\u00e3o especial. E deu conta do recado&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bola para o mato que o jogo \u00e9 de campeonato &#8212; bradava a cada desarme que fazia e logo ap\u00f3s isolar a bola com um chuta\u00e7o.  <\/p>\n<p>O jogo n\u00e3o valeu ta\u00e7a, mas confirmou as invictas do time do Bigucci, dos irm\u00e3os Ad\u00edlson e A\u00edrton, do Labate, do velho Kim e de outros caros amigos. Depois dos noventa, a confraterniza\u00e7\u00e3o costumeira. Alguns foram comemorar a vit\u00f3ria na Pizzaria do Gino na Silva Bueno. Eu, Rub\u00e3o e o convidado Palito preferimos nos apresentar ao Nasci que, gozador como de costume, duvidava da nosso talento futebol\u00edstico.<\/p>\n<p>&#8212; Que o qu\u00ea. Ganharam? S\u00f3 se jogaram contra o time de cegos do Instituto Padre Chico. Acho que nem assim. Contem a verdade.<\/p>\n<p>E tome baforadas de cachimbo narinas a dentro de quem estivesse por perto. <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Era de praxe n\u00e3o se discutir com o Nasci. Tinha sa\u00eddas divertidas e implac\u00e1veis. Por isso, preferi esquecer da porfia e ver o que acontecia ali perto. Sem dizer palavra, levei minha latinha de Coca Light para a mesa dos dois e me acomodei sem cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8212; E a\u00ed, gente, qual \u00e9 o papo?<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, cara, estava dizendo ao Palito que ele \u00e9 que sabe levar a vida.<\/p>\n<p>&#8212; Eu discordo do Rub\u00e3o. Ele \u00e9 que \u00e9 um cara de sorte.<\/p>\n<p>Entre uma e outra fala, contei rapidamente meia-d\u00fazia de garrafas de cerveja vazias sobre o tampo. N\u00e3o sou bom de c\u00e1lculo. Mas, o Palito era mais r\u00e1pido no vira-virou, e estava com meio-copo a esquentar de vantagem. O Rub\u00e3o j\u00e1 havia esvaziado o dele. No entanto, era o que mais falava. Um pelo ou outro, noves fora, beberam quase tr\u00eas cervejas cada um. N\u00e3o daria para derrubar os valentes, mas traria alguns preju\u00edzos ao racioc\u00ednio.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Desbaratinei:<\/p>\n<p>&#8212; Sobre o que voc\u00eas est\u00e3o falando&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A vidona do Palito. Est\u00e1 solto na pra\u00e7a. Os neg\u00f3cios v\u00e3o bem. \u00c9 o rei do baile da saudade, com esse bigodinho a la Clark Gable. <\/p>\n<p>&#8212; Bobagem, Rub\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 com a vida arrumada. \u00c9 bem casado, tem emprego com carteira assinada. Trabalha das 8 \u00e0s 18 e depois s\u00f3 no bem-bom&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Bem-bom a aguentar patr\u00e3o, chefe, chefete. Filho do patr\u00e3o, sobrinho do chefe, amigo do chefete. Dinheiro contado no fim do m\u00eas. Na boa&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Na boa? Cara, dou um duro do caramba. E o governo fica com a parte do le\u00e3o. Sem falar que tem funcion\u00e1rio que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, n\u00e3o. Precisou dele, o cara mata pai, m\u00e3e, av\u00f4, av\u00f3&#8230; s\u00f3 para abonar a falta. Nem durmo \u00e0 noite quando os neg\u00f3cios travam e vem chegando o dia de fechar a folha&#8230;<\/p>\n<p>Entendi a observa\u00e7\u00e3o do Nasci. A vida \u00e9 maluquinha mesmo. \u00c0 deriva dos problemas do dia-a-dia e da cerveja, um cobi\u00e7ava a vida do outro.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Posso ser sincero, o Rub\u00e3o cobi\u00e7ava mais<\/p>\n<p>&#8212; Adivinha com quem o Palito chegou, domingo de m\u00e3os dadas, na piscina do clube? Adivinha?<\/p>\n<p>&#8212; Deixa disso Rub\u00e3o, \u00e9 s\u00f3 uma amiga&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Amiga, amiga&#8230; Sim, sei. Ele chegou com a Garota do Hava\u00ed. Aquela que ganhou o concurso. Algum marmanjo, em s\u00e3 consci\u00eancia e senhor dos seus sentidos, pode ser amigo e s\u00f3 amigo daquela gostosura. Uma baita morena, sabe qual?, sabe qual?<\/p>\n<p>Saber, saber, eu sabia, mas disse que n\u00e3o. N\u00e3o quis pagar-pau de bab\u00e3o para  o Palito. Amanh\u00e3 ou depois, o cara me apresenta a mo\u00e7a como noiva, esposa, sei l\u00e1 &#8211; e a\u00ed, a minha cara, como fica?<\/p>\n<p>&#8212; E o Rub\u00e3o chegou com a mulher e os filhos. <\/p>\n<p>Era o Palito a revelar segredos que sequer Freud explicaria. Desconcertou a todos.<\/p>\n<p>&#8212; Fiquei na maior inveja. Observei ele e o garoto dele batendo bola no gramado. Maior inveja. Na boa, Rub\u00e3o. Quer coisa mais emocionante, cara? Faz um temp\u00e3o que n\u00e3o vejo meu garoto. Nem sei com quem ele brinca de bola nas manh\u00e3s de domingo. Nem sei onde anda aquela mulher, a m\u00e3e do Palitinho&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Virgem M\u00e3e. Quebrou a perna da rapaziada. Percebi que o Rub\u00e3o perdeu a gra\u00e7a e os argumentos. Palito estava com os olhos vermelhos. A Garota do Hava\u00ed, tadinha, desapareceu da tela imagin\u00e1ria dos nossos assuntos e, com todo respeito, dos nossos desejos. O sil\u00eancio ficou insuport\u00e1vel. Ia pedir outra rodada de cerveja para eles e Coca Light para mim quando ouvi a voz do Nasci, s\u00e1bio Nasci, mudar de assunto.<\/p>\n<p>&#8212; Diga a\u00ed Palito, me disseram que voc\u00ea foi o melhor do jogo. Confere? N\u00e3o teve para ningu\u00e9m. Diz voc\u00ea, que \u00e9 do ramo, porque esses dois n\u00e3o entendem nada de futebol&#8230;<\/p>\n<p>Outro gola\u00e7o do velho Nasci. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, nada entendo ainda hoje &#8211; e acho que jamais entenderei &#8211; dessa bola dividida que \u00e9 a arte de viver, amar e ser feliz com o que se tem e \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Uma demoli\u00e7\u00e3o arrasa-quarteir\u00e3o varreu aquele canto do mundo, onde o Sacom\u00e3 torce o rabo. O \u201csujinho\u201d n\u00e3o existe mais. H\u00e1 nas imedia\u00e7\u00f5es a portentosa esta\u00e7\u00e3o do fura-fila. Que futuramente vai integrar-se aos trens do Metr\u00f4 paulistano. N\u00e3o sei se todo o progresso paga o pre\u00e7o das hist\u00f3rias que ali vivemos&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aquele boteco onde o Sacom\u00e3 torce o rabo, no cruzamento da rua Bom Pastor com a rua Greenfeld, em frente a ag\u00eancia dos Correios, era nosso ponto de encontro. <\/p>\n<p>Acontecesse o que acontecesse.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10694","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10694","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10694"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10694\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17207,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10694\/revisions\/17207"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}