{"id":10696,"date":"2007-08-02T00:00:00","date_gmt":"2007-08-02T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:39","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:39","slug":"disparada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/disparada\/","title":{"rendered":"Disparada"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Prepare o seu cora\u00e7\u00e3o pr\u00e1s coisas que eu vou contar. Eu venho l\u00e1 do sert\u00e3o, eu venho l\u00e1 do sert\u00e3o. Eu venho l\u00e1 do sert\u00e3o e posso n\u00e3o lhe agradar. Aprendi a dizer n\u00e3o, ver a morte sem chorar. E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo. Estava fora do lugar, eu vivo pr\u00e1 consertar.&quot;<\/p>\n<p>Voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o acreditar? Eu mesmo custei a crer. <\/p>\n<p>Os mais famosos versos de Geraldo Vandr\u00e9 e Th\u00e9o Azevedo tomaram vida hoje na voz de um homem simples que distraidamente os cantava, enquanto caminhava pelas alamedas do campus onde trabalho.<\/p>\n<p>Eu voltava do almo\u00e7o \u2013 e fiquei encantado. <\/p>\n<p>Sem que ele percebesse acertei o ritmo dos meus passos a uma dist\u00e2ncia razo\u00e1vel em que n\u00e3o atrapalhasse a cantoria. Mas, pudesse ouvi-la. De boa.<\/p>\n<p>Como posso lhes dizer a sensa\u00e7\u00e3o que a can\u00e7\u00e3o me causou, mesmo \u00e0 capela?<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>\u201cNa boiada j\u00e1 fui boi, mas um dia me montei. N\u00e3o por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse. Que qualquer querer tivesse, por\u00e9m por necessidade. Do dono de uma boiada cujo vaqueiro morreu.&quot;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m entoa em v\u00e3o os versos de Disparada. Ainda mais em nossos dias.<\/p>\n<p>S\u00f3 pode ser um bom sujeito, pensei.<\/p>\n<p>Aparentava ter a\u00ed por volta de 30 anos \u2013 jovem, portanto, para a m\u00fasica que \u00e9 de 1966. Trajava-se com certo desalinho produzido, pr\u00f3prio dos anos 70. Entre o grunge e o hiponga. Largado. O bon\u00e9 que mais parecia uma boina dava o realce.<\/p>\n<p>Mas, legal mesmo era ouvi-lo.<\/p>\n<p>N\u00e3o me espantaria se fosse um artista. Ou quase.<\/p>\n<p>Que o qu\u00ea. <\/p>\n<p>Al\u00e9m de perder o homem de vista, j\u00e1 estou a inventar hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>&quot;Boiadeiro muito tempo, la\u00e7o firme e bra\u00e7o forte. Muito gado, muita gente, pela vida segurei. Seguia como num sonho, e boiadeiro era um rei. Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo. E nos sonhos que fui sonhando, as vis\u00f5es se clareando. As vis\u00f5es se clareando, at\u00e9 que um dia acordei.&quot;<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para duvidar das can\u00e7\u00f5es do passado. Chegam sempre em boa hora. Diferente de certas mulheres. Que chegam depois. Partem antes. Ou amea\u00e7am vir \u2013 e n\u00e3o v\u00eam.<\/p>\n<p>Mas, isso \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>&quot;Ent\u00e3o n\u00e3o pude seguir valente em lugar tenente. E dono de gado e gente, porque gado a gente marca. Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente \u00e9 diferente. Se voc\u00ea n\u00e3o concordar n\u00e3o posso me desculpar. N\u00e3o canto pr\u00e1 enganar, vou pegar minha viola. Vou deixar voc\u00ea de lado, vou cantar noutro lugar.&quot;<\/p>\n<p>Deixemos fantasmas na tumba. E promessas no altar do bom Ant\u00f4nio. Quem \u00e9 \u00e9 \u2013 e n\u00e3o fica na amea\u00e7a. Faz a hora. <\/p>\n<p>Mas, isso \u00e9 outra can\u00e7\u00e3o de Vandr\u00e9. <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>&quot;Na boiada j\u00e1 fui boi, boiadeiro j\u00e1 fui rei. N\u00e3o por mim nem por ningu\u00e9m, que junto comigo houvesse. Que quisesse ou que pudesse, por qualquer coisa de seu. Por qualquer coisa de seu querer ir mais longe do que eu.&quot;<\/p>\n<p>Era garoto ainda. Vi pela TV o sambista Jair Rodrigues emocionar a plat\u00e9ia do Teatro Record logo nos primeiros acordes. Vandr\u00e9 era um dos favoritos do segundo Festival de M\u00fasica Brasileira, o primeiro feito pela TV Record. Ningu\u00e9m poderia supor que aquele crioulo alegre, simp\u00e1tico parceiro de Elis, pudesse segurar uma toada t\u00e3o forte, de versos combativos. Jair ganhou o premio de melhor int\u00e9rprete e grafou definitivamente seu nome na Hist\u00f3ria da MPB. <\/p>\n<p>Ah! Outro destaque foi o percussionista Airto Moreira que fez a marca\u00e7\u00e3o do ritmo, socando um chocalho contra uma queixada de boi. Uma bem-bolada maluquice, t\u00edpica daqueles memor\u00e1veis anos.<\/p>\n<p>Quem diria? Airto tamb\u00e9m fez hist\u00f3ria como m\u00fasico internacional.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>&quot;Mas o mundo foi rodando nas patas do meu cavalo. J\u00e1 que um dia me montei agora sou cavaleiro. La\u00e7o firme e bra\u00e7o forte num reino que n\u00e3o tem rei.&quot;<\/p>\n<p>Voc\u00eas devem conhecer o babado daquele festival. <\/p>\n<p>A Banda, de Chico Buarque, e Disparada dividiam a prefer\u00eancia do p\u00fablico. <\/p>\n<p>Quem venceria?<\/p>\n<p>Venceu A Banda por pequena margem. O garoto Chico, solid\u00e1rio, n\u00e3o teve d\u00favidas em propor o empate. Entendeu que seria mais justo. O apresentador Blota J\u00fanior, ent\u00e3o, anunciou as campe\u00e3s para del\u00edrio do p\u00fablico.<\/p>\n<p>Todos ganharam. <\/p>\n<p>Inclusive eu que ouvi a can\u00e7\u00e3o naquele tempo e hoje.<\/p>\n<p>E assim pude contar a hist\u00f3ria do cantador sem hist\u00f3ria para voc\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Prepare o seu cora\u00e7\u00e3o pr\u00e1s coisas que eu vou contar. Eu venho l\u00e1 do sert\u00e3o, eu venho l\u00e1 do sert\u00e3o. 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