{"id":10697,"date":"2007-08-03T00:00:00","date_gmt":"2007-08-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:39","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:39","slug":"so-uma-perguntinha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/so-uma-perguntinha\/","title":{"rendered":"S\u00f3 uma perguntinha&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Faz alguns anos. N\u00e3o foram tantos. Mas, n\u00e3o sei precisar quantos. 1999 ou 2000, sei l\u00e1. Sei que o ano mal come\u00e7ara. Voltei entregue daqueles dias de estio entre o Natal e o reveillon. Arrastei-me at\u00e9 a Reda\u00e7\u00e3o para o primeiro dia de trabalho&#8230;<\/p>\n<p>O que ser\u00e1 que ali me esperava?<\/p>\n<p>Esperava-me a incumb\u00eancia de entrevistar o ator Ant\u00f4nio Fagundes que \u00e0 \u00e9poca era o chamado star multim\u00eddia. Estava simultaneamente em cartaz na TV (n\u00e3o lembro o nome da novela das oito na Globo), no teatro (com  a pe\u00e7a \u00daltimas Luas), no cinema (com Deus \u00e9 Brasileiro) e acabara de lan\u00e7ar um CD com as can\u00e7\u00f5es do compositor Jo\u00e3o Pac\u00edfico. <\/p>\n<p>A entrevista estava marcada para pontualmente \u00e0s 15 horas numa das salas do Teatro Cultura Art\u00edstica, ali na rua Nestor Pestana, no Centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m na Reda\u00e7\u00e3o chamou a minha aten\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>&#8212; Esse Fagundes \u00e9 um \u2018mala\u2019. Se o cara atrasa um minuto, n\u00e3o entra no espet\u00e1culo. Vai ver, faz a mesma coisa com os rep\u00f3rteres. Se cuida, cara, sen\u00e3o j\u00e1 viu, n\u00e9?<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o havia digerido a informa\u00e7\u00e3o por inteiro. Fagundes, multim\u00eddia, entrevista, atraso. Ou\u00e7o outra observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 bom n\u00e3o atrasar mesmo. E tem mais. O cara \u00e9 s\u00e9rio. N\u00e3o gosta muito desse papo de celebridade. Qual sua cor preferida? Prato que mais gosta? M\u00fasica inesquec\u00edvel? Sabe aquele papinho chinfrim de revista de fofoca, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o disse palavra. Esperei o rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico An\u00edsio Assun\u00e7\u00e3o e fomos, com alguma anteced\u00eancia, para o teatro. Que belo come\u00e7o de ano, pensei&#8230;<\/p>\n<p>No caminho, ouvi as mil e uma aventuras de An\u00edsio Assun\u00e7\u00e3o na semana de recesso. E tome bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1&#8230; Fala s\u00e9rio, hein, que energia a do An\u00edsio. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, um friozinho b\u00e1sico percorreu minha espinha quando lembrei os coment\u00e1rios de outros rep\u00f3rteres sobre o An\u00edsio. Bom fot\u00f3grafo, mas tinha a p\u00e9ssima mania de se imiscuir nas entrevistas, com palpites, observa\u00e7\u00f5es e perguntas. <\/p>\n<p>&#8212; Ele perguntou mais do que eu \u2013 me disse um.<\/p>\n<p>&#8212; O mineirinho fala mais do que a boca \u2013 esbravejou outro.<\/p>\n<p>&#8212; O An\u00edsio s\u00f3 atrapalha \u2013 alertou um terceiro. <\/p>\n<p>Achava o An\u00edsio um bom sujeito. Atrapalhado, roleiro. Mas, pronto a topar qualquer parada. Sempre que fizemos mat\u00e9rias juntos, n\u00e3o houve problemas. No entanto, seria bom deix\u00e1-lo de sobreaviso.<\/p>\n<p>&#8212; An\u00edsio, voc\u00ea ouviu a recomenda\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, por favor, o cara \u00e9 invocado. N\u00e3o abra a boca, ok? Deixa comigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; O qu\u00ea? O Fagundes? Conhe\u00e7o de cor as novelas que fez. Eu acho que&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; An\u00edzi\u00e3o, vamos combinar? Voc\u00ea n\u00e3o acha nada. Faz as fotos sem chegar muito perto. E eu pergunto. Cada um na sua.<\/p>\n<p>&#8212; Sem problema.<\/p>\n<p>Assim que chegamos as meninas que faziam a assessoria de imprensa do ator vieram nos recepcionar. Chegamos 20 minutos mais cedo, o que percebemos soou como um al\u00edvio para as duas.<\/p>\n<p>&#8212; Que \u00f3timo que voc\u00eas chegaram. O Fagundes detesta atrasos. <\/p>\n<p>Fiz o tipo educado. Falei que era nossa obriga\u00e7\u00e3o, pois respeit\u00e1vamos nossos entrevistados e tal e cousa e lousa e mariposa. <\/p>\n<p>E o An\u00edsio quieto, na dele. Cumprimentou as mo\u00e7as com breve balan\u00e7ar da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; Outra coisa. Gostaria de avisar a voc\u00eas. N\u00e3o h\u00e1 um tempo certo para a entrevista. Pode durar quinze minutos como pode ir al\u00e9m. Depende do rumo da conversa.<\/p>\n<p>Olhei firme para o An\u00edsio. Queria me certificar se ele havia escutado a recomenda\u00e7\u00e3o. Que para bom entendedor foi na linha do \u201cse-for-papo-furado-t\u00f4-fora\u201d.<\/p>\n<p>O An\u00edsio apenas sorriu sem gra\u00e7a. Continuou em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Pontualmente \u00e0s 13h50, como estava previsto, Fagundes chegou, de camisa florida, e de m\u00e3os dadas com a ent\u00e3o esposa, Mara Carvalho.<\/p>\n<p>Foi simp\u00e1tico e se comprometeu que em cinco minutos conversar\u00edamos.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu&#8230;<\/p>\n<p>Falamos por hora e tanto. Gostei da entrevista \u2013 e principalmente em saber como um ator se prepara e o quanto de informa\u00e7\u00e3o vai buscar at\u00e9 formatar o personagem. <\/p>\n<p>Mudei a pauta no transcorrer da conversa \u2013 e falamos sobretudo sobre o espet\u00e1culo \u00daltimas Luas, em que o tema da velhice \u00e9 discutido com riso e l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>(Ali\u00e1s a entrevista est\u00e1 no \u00edcone Reportagens \u2013 04.02.2000, acessem&#8230;)<\/p>\n<p>Percebi no transcorrer do papo que An\u00edsio estava enrijecido, olhos atentos. Fez seu trabalho com tal discri\u00e7\u00e3o que me surpreendeu.<\/p>\n<p>J\u00e1 na rua, \u00e0 espera do carro que nos levaria de volta \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o, o fot\u00f3grafo continuou em sil\u00eancio, mas n\u00e3o escondia a ansiedade.<\/p>\n<p>&#8212; Vai, An\u00edsio, desembucha. O que \u00e9 que h\u00e1?<\/p>\n<p>&#8212; Ser\u00e1 que eu posso ir l\u00e1 fazer s\u00f3 uma perguntinha?<\/p>\n<p>&#8212; An\u00edsio. O cara est\u00e1 ensaiando.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, \u00e9 uma perguntinha s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que perguntinha An\u00edsio?<\/p>\n<p>&#8212; Assim: como \u00e9 que \u00e9 que \u00e9 ser o rei do gado?<\/p>\n<p>Juro agradeci a todos os santos a for\u00e7a que fizeram ao deixar o An\u00edsio de boca fechada&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz alguns anos. N\u00e3o foram tantos. Mas, n\u00e3o sei precisar quantos. 1999 ou 2000, sei l\u00e1. Sei que o ano mal come\u00e7ara. 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