{"id":10701,"date":"2007-08-07T00:00:00","date_gmt":"2007-08-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:38","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:38","slug":"bia-e-a-tropicalia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/bia-e-a-tropicalia\/","title":{"rendered":"Bia e a Tropic\u00e1lia"},"content":{"rendered":"<p>Bia quis me provocar.<\/p>\n<p>Chegou e disse, sem sequer me dar bom dia.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o acha que o ax\u00e9 \u00e9 a Tropic\u00e1lia dos anos 90?<\/p>\n<p>Saiu sorrindo, debochada. Sem ouvir o que eu tinha a lhe dizer.<\/p>\n<p>Ela sabe da minha paix\u00e3o pela MPB do s\u00e9culo passado \u2013 quem s\u00e3o meus \u00edcones: Caetano, Gil, Benjor, Chico, Paulinho, Milton, Erasmo e Roberto (mais Erasmo que o Rei, diga-se), Raul, Djavan, Jo\u00e3o Bosco, Elis, Ivan Lins. Belo time, hein&#8230;<\/p>\n<p>Deve haver outros, mas s\u00e3o menos cotados&#8230;<\/p>\n<p>Sabe tamb\u00e9m do meu horror ao que se fez em termos de m\u00fasica pra tocar no r\u00e1dio e na TV dos 90 para c\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Entendi a provoca\u00e7\u00e3o com um raro bom-humor&#8230;<\/p>\n<p>Mas, me pus a pensar.<\/p>\n<p>A Bia n\u00e3o est\u00e1 de toda errada, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou louco de dizer que um \u00e9 a extens\u00e3o do outro que, por sinal, neste ano completa 40 anos de exist\u00eancia. \u00d3bvio que tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nada em comum em termos de valores conceituais, momento pol\u00edtico e a an\u00e1rquica fus\u00e3o de ritmos e estilos, al\u00e9m da sofistica\u00e7\u00e3o de um grupo de m\u00fasicos, compositores, poetas, artistas pl\u00e1sticos que pensaram e fizeram o movimento. Inclua-se Gil, Caetano, os maestros J\u00falio Medaglia e Rog\u00e9rio Duprat, H\u00e9lio Oiticica, Benjor, Nara Le\u00e3o, Tomz\u00e9, os irm\u00e3os Campos, entre outros.<\/p>\n<p>\u00c9pocas diferentes. Propostas distintas \u2013 se \u00e9 que o ax\u00e9 tem algum outro prop\u00f3sito sen\u00e3o sacudir o esqueleto e faturar alguns muitos dindins dos filhos da incauta classe m\u00e9dia paulistana. Essa mesma que se arrepia s\u00f3 de ouvir falar que Lula \u2013 um ex-trabalhador, iletrado \u2013 \u00e9 nosso presidente.<\/p>\n<p>Detesto genelarizar, mas enfim&#8230;<\/p>\n<p>Creio que voc\u00eas entendem o que quero dizer.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>No entanto, vejam: o ax\u00e9 como tantas outras importantes \u2013 queiramos ou n\u00e3o \u2013 manifesta\u00e7\u00f5es musicais brasileiras s\u00f3 existiram em fun\u00e7\u00e3o da hist\u00f3rica pedrada que a Tropic\u00e1lia deu no r\u00edgido mosaico de conven\u00e7\u00f5es que caracterizava a m\u00fasica popular nativa at\u00e9 o fim dos anos 60.<\/p>\n<p>Estigmatizava-se o artista dentro de uma corrente \u2013 e pronto: era obrigado a seguir certas normas. Quem fazia m\u00fasica de protesto tinha de fazer cara de s\u00e9rio, viol\u00e3o em punho, de p\u00e9 \u2013 porque banquinho e viol\u00e3o era coisa de bossanovista convicto \u2013 e continuar protestando vida afora. Macho cantador cantava de p\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Cantor rom\u00e2ntico tinha que obrigatoriamente ter um vozeir\u00e3o e apresentar-se de terno e gravata, quando n\u00e3o smoking. <\/p>\n<p>Quem era da turma da MPB podia participar dos festivais. Quem n\u00e3o era, sem chance e tome vaia.<\/p>\n<p>A guitarra el\u00e9trica era uma inven\u00e7\u00e3o demon\u00edaca de povos alien\u00edgenas. S\u00f3 mesmo os suburbanos da Jovem Guarda a cantar para uma burguesia med\u00edocre e alienada.<\/p>\n<p>Verdade verdadeira. <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>N\u00e3o acreditam?<\/p>\n<p>Ouvi da pr\u00f3pria Elis Regina, quando a entrevistei nos confins dos anos 70, que m\u00fasicos, m\u00fasicos mesmo, eram os rapazes do Zimbo Trio que a acompanhavam no programa O Fino da Bossa. Quem tocava rock conhecia, segundo a pr\u00f3pria, tr\u00eas acordes \u201ce olhe l\u00e1\u201d. <\/p>\n<p>N\u00e3o acreditam em mim?<\/p>\n<p>Pois foi a pr\u00f3pria Elis que liderou uma passeata pelas ruas de S\u00e3o Paulo contra a invas\u00e3o das guitarras el\u00e9tricas. Caetano e Gil assistiram a tudo da sacada do pr\u00e9dio onde moravam, na avenida S\u00e3o Luiz, centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 nos livros \u2013 s\u00f3 conferir.<\/p>\n<p>S\u00e3o apenas dois exemplos. Elis n\u00e3o era a \u00fanica. A mais corajosa, certamente.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>\u00c9 c\u00e9lebre o impacto, as vaias, a surpresa que causaram Gil e Caetano no Festival de 67. Os baianos subiram ao palco com uma nova proposta musical, est\u00e9tica, comportamental. Muros, paredes, teias do conservadorismo vieram abaixo. <\/p>\n<p>Caetano cantou \u201cAlegria Alegria\u201d, acompanhado de um grupo de i\u00ea-i\u00ea-i\u00ea chamado Beat Boys. Para completar, os caras eram argentinos e um deles \u2013 o organista \u2013 tinha a fisionomia de Jesus Cristo. Versos inteiros formavam um m\u00f3bile de imagens e sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cPor entre fotos e nomes<br \/>\nOs olhos cheios de cores<br \/>\nO peito cheio de amores v\u00e3os<br \/>\nEu vou. Por que n\u00e3o?<br \/>\nPor que n\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>Roberto Carlos disse que era a m\u00fasica que gostaria de ter feito. Era a primeira vez que o Rei participava de um festival. Foi vaiado ao interpretar uma can\u00e7\u00e3o triste, de Luiz Carlos Paran\u00e1. Um quase samba, \u201cMaria, Carnaval e Cinzas\u201d.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Gil foi al\u00e9m. <\/p>\n<p>Fez-se acompanhar pelos meninos dos Mutantes (S\u00e9rgio, Arnaldo e Rita), viol\u00e3o e grande orquestra na \u00e9pica \u201cDomingo no Parque\u201d. O arranjo foi do maestro Rog\u00e9rio Duprat. Misturou berimbau, guitarra, baixo eletr\u00f4nico e violinos. Entre o rock, o bai\u00e3o e a \u00f3pera de enredo tr\u00e1gico. Cena do cotidiano de Salvador. O tri\u00e2ngulo amoroso entre o rei da brincadeira (Jos\u00e9), o rei da confus\u00e3o (Jo\u00e3o) e Juliana.<\/p>\n<p>\u201cFoi no parque que ele avistou Juliana<br \/>\nFoi que ele viu<br \/>\nJuliana na roda com Jo\u00e3o<br \/>\nUma rosa e um sorvete na m\u00e3o<br \/>\nJuliana, seu sonho, urna ilus\u00e3o<br \/>\nJuliana e o amigo Jo\u00e3o<br \/>\nO espinho da rosa feriu Z\u00e9<br \/>\nE o sorvete gelou seu cora\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Gil e Caetano n\u00e3o venceram o festival.<\/p>\n<p>Ganharam Edu Lobo e Capinan, autoresd de Ponteio. Gil ficou em segundo, Chico com Roda Viva em terceiro. Caetano em quarto. <\/p>\n<p>Houve vaias, aplausos. Pol\u00eamicas e muitas cr\u00edticas.<\/p>\n<p>S\u00f3 um detalhe, Bia:<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a m\u00fasica popular brasileira nunca mais foi a mesma&#8230;<\/p>\n<p>* TAMB\u00c9M SOBRE O TEMA: <\/p>\n<p>26\/04\/2007<br \/>\nDe Chico a Chiclete<br \/>\nem LEIA ESTA CAN\u00c7\u00c3O<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bia quis me provocar.<\/p>\n<p>Chegou e disse, sem sequer me dar bom dia.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o acha que o ax\u00e9 \u00e9 a Tropic\u00e1lia dos anos 90?<\/p>\n<p>Saiu sorrindo,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10701","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10701","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10701"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10701\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17200,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10701\/revisions\/17200"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}