{"id":10705,"date":"2007-08-11T00:00:00","date_gmt":"2007-08-11T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:38","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:38","slug":"cansei","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/cansei\/","title":{"rendered":"Cansei"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 para contar vantagem, n\u00e3o. <\/p>\n<p>Os leitores sabem que n\u00e3o sou desses trelel\u00eas.<\/p>\n<p>Sou mesmo um an\u00f4nimo escriba, com a alma-sem-alma de rep\u00f3rter \u2018vira-lata\u2019. N\u00e3o busco a grande manchete, nem o \u2018furo\u2019 de reportagem que v\u00e1 salvar o planeta do cataclisma final. Nada disso. Vivo apenas por uma boa hist\u00f3ria \u2013 e a sua distinta aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isto posto, vamos ao que se pode.<\/p>\n<p>Lembro aquela velha cita\u00e7\u00e3o \u2013 e explico na seq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 mulher de C\u00e9sar n\u00e3o basta ser honesta. \u00c9 preciso parecer honesta.\u201d<\/p>\n<p>Seguinte.<\/p>\n<p>Que me perdoem os gabolas da vez, mas essa hist\u00f3ria de uma tal manifesta\u00e7\u00e3o c\u00edvico nacional, denominada \u201cCansei\u201d, \u00e9 um caso expl\u00edcito de apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita e descarado pl\u00e1gio.<\/p>\n<p>N\u00e3o me levem a mal, n\u00e3o. Mas, a id\u00e9ia \u00e9 minha \u2013 e n\u00e3o \u00e9 de hoje.<\/p>\n<p>N\u00e3o falo a tal mobiliza\u00e7\u00e3o, os prop\u00f3sitos e o escambau. Mas, o conceito.<\/p>\n<p>O conceito \u00e9 meu, ningu\u00e9m tasca.<\/p>\n<p>Vou lhes explicar tim-tim por tim-tim.<\/p>\n<p>A coisa toda remonta aos meados dos anos 50. <\/p>\n<p>Sempre fui um garoto espigado e com uma tend\u00eancia, que ainda hoje cultivo, de ficar a imaginar coisas&#8230;<\/p>\n<p>Pois, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Todos os anos, meu bom padrinho, Seo Alexandre, me presenteava com um terninho de cal\u00e7as curtas no dia do meu anivers\u00e1rio. Foi assim quando fiz dois, tr\u00eas, quatro, cinco anos&#8230; Se quiserem posso at\u00e9 mostrar as fotos para provar.<\/p>\n<p>Havia todo um ritual \u2013 que inclu\u00eda as ora\u00e7\u00f5es da minha madrinha, Dona Gisela, e um ir-e-vir \u00e0 alfaiataria. <\/p>\n<p>N\u00e3o era assim: entra-se em uma loja qualquer, compra-se e pronto. Com cerca de 20 dias de anteced\u00eancia, o padrinho passava para me buscar \u2013 ele tinha um baita carr\u00e3o, daqueles rabo-de-peixe. \u00cdamos \u201ctirar as medidas\u201d. Ele escolhia o tecido; eu, a cor, sempre em tons convencionais e escuros.<\/p>\n<p>Voltava l\u00e1 uma semana depois para experimentar a prova. O palet\u00f3 parecia uma armadura, enfeitado com aqueles fiozinhos brancos.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que no dia 4 de dezembro eu estava nos trinques para a festinha de anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Sapatos engraxados, brilhantina no amea\u00e7o de topete e o elegante terno novo.<\/p>\n<p>Como disse, foi assim at\u00e9 os cinco anos.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Corria o ano santo de 1956 sem maiores atropelos pelos lados do Cambuci e cercanias. Muito talvez em fun\u00e7\u00e3o das ora\u00e7\u00f5es da madrinha Dona Gisela. At\u00e9 que numa bela manh\u00e3 de s\u00e1bado \u2013 como a de hoje, ali\u00e1s &#8211;, um caminh\u00e3o de mudan\u00e7a parou ao lado da minha casa na rua Muniz de Souza. Estava indiferente \u00e0quela movimenta\u00e7\u00e3o, quando algu\u00e9m disse:<\/p>\n<p>&#8212; O Pitchinim vai ganhar uma namorada.<\/p>\n<p>Pitchinim era eu \u2013 e entre os novos vizinhos estava uma garotinha de cabelos claros, da minha idade. <\/p>\n<p>Cidinha.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendi a gra\u00e7a da observa\u00e7\u00e3o. Nem porque todos riram. <\/p>\n<p>Ali\u00e1s, n\u00e3o entendi nada \u2013 desculpem a digress\u00e3o; mas, como ainda hoje muitas vezes acontece em situa\u00e7\u00f5es parelhas. Nada entendo.<\/p>\n<p>Sei que, a partir desse dia, todo fim de tarde eu e ela nos encontr\u00e1vamos. Era costume as m\u00e3es esperarem os maridos no port\u00e3o das respectivas casas. Eu e ela fic\u00e1vamos por ali com nossos brinquedos ou simplesmente a correr juntos pela cal\u00e7ada. Faz\u00edamos de conta que procur\u00e1vamos algo \u2013 que, da minha parte, digo: nunca achei. Mas, continuo procurando&#8230;<\/p>\n<p>Sempre que algum conhecido passava, fazia a observa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Olha os namoradinhos.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Por que ser\u00e1 que estou a lembrar essa hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>O tema do post-cr\u00f4nica era outro \u2013 e volto agora ao tal, prometo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o&#8230; <\/p>\n<p>Quando foi chegando o fim de ano, n\u00e3o sei precisar dia e m\u00eas, o pai lembrou que logo logo ir\u00edamos ao alfaiate para tirar novas medidas para um novo costume. A\u00ed, meu deu o estalo.<\/p>\n<p>Era um garoto espigado, como j\u00e1 os informei. Ou ser\u00e1 que lembrei do rosto bonito de Cidinha?<\/p>\n<p>Sei que criei coragem e disse com todas as letras.<\/p>\n<p>&#8212; Pai, cansei de usar cal\u00e7as curtas. Isto \u00e9 coisa de crian\u00e7a. Quero um terno de cal\u00e7as cumpridas e azul marinho&#8230;<\/p>\n<p>O pai riu debochado \u2013 mania que os adultos t\u00eam de n\u00e3o compreender, de primeira, nossas necessidades mais urgentes.<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante, todos os dias, repetia a mesma hist\u00f3ria para minha m\u00e3e, para minhas irm\u00e3s, para o meu tio Neno, para a v\u00f3 Ign\u00eas e at\u00e9 os meus amigos Bet\u00e3o e Zeola n\u00e3o suportavam ouvir a minha reivindica\u00e7\u00e3o.   <\/p>\n<p>&#8212; Cansei de usar cal\u00e7as curtas&#8230;<\/p>\n<p>Ou seja dei in\u00edcio a manifesta\u00e7\u00e3o &quot;Cansei&#8230; de Usar Cal\u00e7as Curtas&quot;.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Claro que poupei a Cidinha dessas aporrinha\u00e7\u00f5es. N\u00e3o pegaria bem. Mas, quando todos me viam chegar de mansinho, j\u00e1 sabiam o que eu iria falar.<\/p>\n<p>&#8212; Cansei&#8230;<\/p>\n<p>Para o meu pai, n\u00e3o disse mais nada. Todos reclamavam que o Ald\u00e3o era pavio curto. O v\u00f4 Carlito, tamb\u00e9m. Todo dia ele perguntava se eu j\u00e1 havia beijado a \u201cminha namorada\u201d, o que me deixava sem gra\u00e7a, sem gra\u00e7a. E sem resposta.<\/p>\n<p>Deixa pra l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Enfim, parece que a minha campanha \u201cCansei\u201d deu certo \u2013 ou quase&#8230; <\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>No hist\u00f3rico dia 4 de dezembro de 1956, me sentia elegant\u00edssimo num terno marinho de casimira, de cal\u00e7as cumpridas com barra italiana e vincos.<\/p>\n<p>Est\u00e1 certo que a minha irm\u00e3 Rosa falou que eu estava parecendo um \u201can\u00e3ozinho\u201d.<\/p>\n<p>Mas, isso n\u00e3o foi o pior&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem o que aconteceu. Ouvi dizer que foi dinheiro. Mas, uns dias antes do anivers\u00e1rio o mesmo caminh\u00e3o parou no mesmo lugar. E os novos vizinhos se foram assim como chegaram. Do nada, para o nada. Levaram Cidinha, claro. E nunca mais soube da menina de cabelos claros e rosto bonito&#8230;<\/p>\n<p>Acho que se ela me visse naquele dia, eu teria o qu\u00ea responder ao v\u00f4 Carlito. <\/p>\n<p>Acho, n\u00e9&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 para contar vantagem, n\u00e3o. <\/p>\n<p>Os leitores sabem que n\u00e3o sou desses trelel\u00eas.<\/p>\n<p>Sou mesmo um an\u00f4nimo escriba, com a alma-sem-alma de rep\u00f3rter \u2018vira-lata\u2019. 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