{"id":10706,"date":"2007-08-12T00:00:00","date_gmt":"2007-08-12T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:38","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:38","slug":"meus-textos-preferidos-4","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/meus-textos-preferidos-4\/","title":{"rendered":"Meus textos preferidos 4"},"content":{"rendered":"<p>A gravata dele tamb\u00e9m era uma assinatura. At\u00e9 hoje, dez anos depois da sua morte, os sobreviventes do seu tempo, quando me encontram na rua ou numa reuni\u00e3o, falam daquela gravata. Muitos nem sabiam quem ele era, o que fazia, como se chamava. Mas guardavam dele a gravata que n\u00e3o era uma gravata qualquer, mas um emblema, um logotipo, uma op\u00e7\u00e3o de vida.<\/p>\n<p>Resumia-se num cumprido len\u00e7o de seda azul-marinho com bolinhas brancas, que ele passava por dentro do colarinho e arrematava com uma la\u00e7ada simples, dessas que se d\u00e3o nos cord\u00f5es dos sapatos. Pelo que me lembro, no tempo dele, apenas dois artistas populares, Nelson Cavaquinho e Jo\u00e3o da Baiana, usavam a mesma gravata. Chamava-se \u00e0 Lavalli\u00e8re, era larga e tinha o la\u00e7o bufante.<\/p>\n<p>O len\u00e7o no bolsinho superior do palet\u00f3 era do mesmo tecido e cor. Gravata e len\u00e7o que ele  nunca esquecia ou deixava de usar, estivesse ele com qualquer roupa, desde o terno riscadinho com que foi ao casamento dos filhos e a outras cerim\u00f4nias mais solenes, \u00e0 roupa esporte, quando vestia culotes e perneiras e ficava parecendo aquele velhinho do filme de Monicelli.<\/p>\n<p>Volta e meia, minha m\u00e3e ia ao Mundo das Sedas e trazia metros e metros daquela seda azul-marinho com bolinhas brancas. Eram f\u00e1ceis de fazer, tanto a gravata como o len\u00e7o. Quando o conjunto come\u00e7ava a desfiar, ele tinha a pilha sempre abastecida por minha m\u00e3e. Julgava-se bonito com aquilo.<\/p>\n<p>Recebia gravatas de presente, algumas caras, de amigos que iam a Paris ou Roma. Ele agradecia, guardava por uns tempos, depois embrulhava de novo e presenteava algu\u00e9m com elas. O secret\u00e1rio da Agricultura, Heitor Grilo, marido de Cec\u00edlia Meireles, deu-lhe num Natal uma bela gravata italiana, no ano seguinte, na confus\u00e3o dos presentes, o pai o presenteou com a mesma gravata.<\/p>\n<p>Ganhava tamb\u00e9m chap\u00e9us, foi dos \u00faltimos homens do Rio de Janeiro a usar chap\u00e9u, quando ficou muito velho e percebeu que ningu\u00e9m mais usava, passou a andar de boina pois sentia frio no alto da cabe\u00e7a que os ralos cabelos brancos j\u00e1 n\u00e3o protegiam.<\/p>\n<p>Apaixonou-se por uma boina basca que eu lhe trouxe, comprada na Corte Igl\u00e9s, de Madri, e toda vez que sabia de algu\u00e9m que ia a Madri ele encomendava uma boina igual mas s\u00f3 usava a minha.<\/p>\n<p>* TRECHO DO LIVRO&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; Quase Mem\u00f3ria, em que o jornalista<br \/>\ne escritor Carlos Heitor Cony<br \/>\nreverencia a lembran\u00e7a do pai,<br \/>\no jornalista Ernesto Cony Filho.<br \/>\nUm livro fascinante,<br \/>\nentre os melhores que eu li.<br \/>\nSe n\u00e3o for o melhor.<\/p>\n<p>* O SITE oficial&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; de Carlos Heitor Cony<br \/>\nest\u00e1 entre os indicados<br \/>\nem TOQUES E RETOQUES.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gravata dele tamb\u00e9m era uma assinatura. 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