{"id":10708,"date":"2007-08-14T00:00:00","date_gmt":"2007-08-14T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:37","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:37","slug":"o-coiso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-coiso\/","title":{"rendered":"O coiso"},"content":{"rendered":"<p>Demorou um pouco a entender o que se passava na pequena cidade. Ausentou-se por anos a fio para cumprir o trajeto natural daqueles que sonham ser alguma coisa na vida. Estudou, trabalhou, enfrentou as durezas da metr\u00f3pole, os desafios de viver em outro Pa\u00eds \u2013 e agora retornava.<\/p>\n<p>Era como se nunca tivesse partido.<\/p>\n<p>A pra\u00e7a, a igrejinha com ares coloniais, os jardins, os bancos que eram de cimentos voltaram a ser de madeira, como nos tempos do av\u00f4 que o criou.<\/p>\n<p>O coreto. Ah! o coreto&#8230;<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que ainda existe aquela a banda municipal, de uniforme de cetim lustroso, branco e vermelho e as habituais desafina\u00e7\u00f5es dos metais. N\u00e3o soube dizer porque aquele som lhe era t\u00e3o \u00edntimo, t\u00e3o seu. <\/p>\n<p>Maluquice, talvez.<\/p>\n<p>A corpora\u00e7\u00e3o era famosa em toda a regi\u00e3o. Fora fundada por um maestro chamado Laudismar, que desapareceu um certo dia sem deixar rastros.<\/p>\n<p>Nunca entendeu a hist\u00f3ria. As pessoas silenciavam toda vez que ele, curioso, se aproximava a fim de saber que fim levou o maestro.. Parece que n\u00e3o era assunto de crian\u00e7a. <\/p>\n<p>Havia inclusive um retrato do maestro na sala do prefeito.<\/p>\n<p>&#8212; Acho que o homem foi importante mesmo.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Esfregou as m\u00e3os no rosto para avivar outras recorda\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Lembrou o quanto era importante tocar na banda. Os garotos concorriam entre si. Os mais talentosos ficavam com os instrumentos de sopro, os mais leves. Os animados, com a percuss\u00e3o. Todos fugiam da tuba. At\u00e9 que apareceu um grandalh\u00e3o desengon\u00e7ado chamado Agenor. Resultado: ganhou um lugar na \u00faltima fila e o apelido de Tub\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Ouviu dizer assim que chegou que Tub\u00e3o, agora, era o prefeito reeleito.<\/p>\n<p>Talvez fosse oportuno marcar uma conversa com o amigo de inf\u00e2ncia. Andavam juntos, mas n\u00e3o eram propriamente amigos, amigos. Jogavam futebol, nadavam no ribeir\u00e3o, pescavam na represa. Mas, sempre em bando. Nunca houve uma maior proximidade entre os dois. Parece que o amigo tinha receio de se achegar, como se soubesse de algo que n\u00e3o pudesse dizer. Um segredo.<\/p>\n<p>Mas, que bobagem, coisa da crian\u00e7a impressionada que sempre foi. Tamb\u00e9m crescera sem pai. Mas, soube dar a volta por cima. <\/p>\n<p>De onde ele tirou essa lembran\u00e7a?<\/p>\n<p>Nada a ver.<\/p>\n<p>III. <\/p>\n<p>Agora ele pr\u00f3prio era um cara bem resolvido. Executivo de uma multinacional, fam\u00edlia constitu\u00edda e coisa e tal. Poderia de alguma forma ajudar no que fosse preciso. H\u00e1 30 anos quando partiu, era natural que uma cidade interiorana fosse pacata, silenciosa. Mas, agora em pleno s\u00e9culo XXI, o cen\u00e1rio que tinha diante dos olhos era o de uma cidade-fantasma, dessas de filme de faroeste.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que algu\u00e9m anunciou que o bando de Billy The Kid vem a\u00ed?<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Riu, do pr\u00f3prio pensamento. Mas, concluiu: falta iniciativa, mesmo. Algu\u00e9m como ele com uma vis\u00e3o corporativa, de larga experi\u00eancia at\u00e9 internacional. N\u00e3o era fraco, n\u00e3o. Ano passado, participou de um congresso, como aluno assistente, em Barcelona. Divertiu-se a valer. Bebeu todas. Mas, caramba, recebeu certificado de presen\u00e7a que mandou enquadrar e p\u00f4s no escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Aposto que bastava citar essa larga viv\u00eancia em plagas espanholas, ol\u00e9, e o prefeito Tub\u00e3o o chamaria de excel\u00eancia. Ali\u00e1s, a mod\u00e9stia n\u00e3o permitiu que conclu\u00edsse o pensamento, mas ele mesmo achava que o t\u00edtulo lhe cairia muito bem.<\/p>\n<p>\u201cA esse meu jeito humilde de ser\u201d, confabulou para si mesmo. <\/p>\n<p>N\u00e3o deveria ser assim.<\/p>\n<p>&#8212; Lutei tanto para chegar onde cheguei.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Certamente, Tub\u00e3o j\u00e1 tinha a informa\u00e7\u00e3o de que ele, filho ilustre, voltara \u00e0 terra natal. Poderia esperar que mais cedo ou mais tarde haveria o inevit\u00e1vel encontro. Cidade pequena \u00e9 assim. Todos sabem de tudo. Se Tub\u00e3o fosse algu\u00e9m de viv\u00eancia internacional como ele, n\u00e3o perderia essa chance. Cham\u00e1-lo-ia (adorava mes\u00f3clises, mas s\u00f3 as usava em pensamento, como medo de delatar a idade) para uma conversa.<\/p>\n<p>E ele teria muito o que dizer. Muito o que ensinar \u00e0quele matuto.<\/p>\n<p>Seria melhor aguardar.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Pensou melhor e decidiu encarar o desafio de frente.<\/p>\n<p>Foi direto para a Prefeitura, um velho casar\u00e3o assobradado, de muitos c\u00f4modos e pouco conforto. Ouvia o assoalho ranger a cada passo. Fez-se anunciar pela secret\u00e1ria, uma mo\u00e7a de cabelos encaracolados, prov\u00e1vel neta de algum conhecido que fez pouco caso do cart\u00e3o de visita que ele lhe p\u00f4s sob os olhos.<\/p>\n<p>&#8212; Seu Genor Tub\u00e3o, tem um coiso aqui querendo falar com o senhor.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>O coiso era ele. N\u00e3o gostou. Mas, foi em frente.<\/p>\n<p>&#8212; Bem-vindo, amigo, o que lhe traz de volta \u00e0 nossa modesta cidade.<\/p>\n<p>Explicou sem explicar, rapidamente. Queria mesmo ir direto e reto ao assunto. <\/p>\n<p>&#8212; Precisamos reinventar nossa cidade. Est\u00e1 tudo parado no tempo e no espa\u00e7o. N\u00e3o sei como voc\u00eas sobrevivem.<\/p>\n<p>&#8212; Do jeito que d\u00e1, amigo. Sem pressa, nem leseira. Mas, com a certeza de que um dia vem depois do outro.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Resolveu n\u00e3o desistir. <\/p>\n<p>&#8212; Precisamos tra\u00e7ar metas, planejar investimentos p\u00fablicos, gerenciar crises, pensar numa grife para divulgar o nome da cidade no estado, no pa\u00eds, no mundo. Marketing. Voc\u00ea sabe o que \u00e9 marketing? <\/p>\n<p>&#8212; Olha, amigo, saber como o senhor imagina que as pessoas precisam saber eu n\u00e3o sei n\u00e3o. Tenho uma vaga ideia. \u00c9 assim como faz a galinha que faz cocoric\u00f3 depois de botar o ovo. N\u00e3o \u00e9 n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8212; Que exemplo?<\/p>\n<p>&#8212; Pois \u00e9. O tal de \u2018marquetingue\u2019 \u00e9 o cocoric\u00f3. Mas, a gente aqui est\u00e1 mais \u00e9 preocupado com o ovo mesmo.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Balan\u00e7ou a cabe\u00e7a e partiu para a ofensiva.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, veja, sa\u00ed daqui h\u00e1 30 anos, a cidade era exatamente igual. Tinha pouco mais de 2 mil habitantes. Quantas pessoas moram hoje aqui?<\/p>\n<p>&#8212; Dois mil, dois mil e cem. N\u00e3o passa disso.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 vendo? Parou no tempo e no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 bem assim, n\u00e3o. \u00c9 da natureza caboclada.<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Que conversa. Entendeu que o matuto Tub\u00e3o estava sem resposta. Insistiu.<\/p>\n<p>&#8212; Precisamos apostar no desenvolvimento.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 da natureza da caboclada, j\u00e1 disse&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Que natureza, Tub\u00e3o?Que natureza?<\/p>\n<p>&#8212; Agenor Tub\u00e3o, por favor, que agora sou prefeito.<\/p>\n<p>XI.<\/p>\n<p>Meio sem jeito, Tub\u00e3o, ou melhor Agenor Tub\u00e3o, continuou.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, doutor, o senhor sabe muito bem&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei n\u00e3o. Diga.<\/p>\n<p>&#8212; Melhor deixar pra l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 sem resposta. Diga.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, t\u00e1. Vou dizer. S\u00e3o esses danados desses caboclos. Para cada mulher que engravida, \u00e9 um marmanjo que bota o p\u00e9 na estrada e some. Igualzim a seu pai. <\/p>\n<p>XII.<\/p>\n<p>Tub\u00e3o fez cara de quem disse o que n\u00e3o deveria dizer. O visitante perdeu a pose e as refer\u00eancias. <\/p>\n<p>&quot;Que hist\u00f3ria? Do que ele est\u00e1 falando?&quot;, pensou.<\/p>\n<p>S\u00f3 voltou a si quando passou em frente ao velho retrato do maestro Laudismar. <\/p>\n<p>Olhou fixamente para a fotografia esmaecida pelo tempo e n\u00e3o se controlou:<\/p>\n<p>&#8212; Papai, papai!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Demorou um pouco a entender o que se passava na pequena cidade. Ausentou-se por anos a fio para cumprir o trajeto natural daqueles que sonham ser alguma coisa na vida. 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