{"id":10719,"date":"2007-08-21T00:00:00","date_gmt":"2007-08-21T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T19:57:53","modified_gmt":"2018-03-29T19:57:53","slug":"moca-na-praia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/moca-na-praia\/","title":{"rendered":"Mo\u00e7a na praia"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Joel Silveira<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foi num ver\u00e3o escaldante, de sol absoluto \u2013 h\u00e1 quanto tempo, meu Deus! Ela jamais iria esquecer aquele ver\u00e3o. Antes de tudo porque ela n\u00e3o voltou no ver\u00e3o seguinte \u2013 n\u00e3o voltaria nunca mais.<\/p>\n<p>Era do interior, vinha \u00e0 cidade grande pela primeira vez, e queria ver o mar, que s\u00f3 conhecia de cinema, de revistas, e de cart\u00f5es postais. Levou-a ao trecho mais distante da praia, onde as ondas rebentavam de encontro \u00e0s pedras. Ela olhou na dist\u00e2ncia l\u00edquida, disse:<\/p>\n<p>&#8211; Veja s\u00f3. O mar \u00e9 rouco. E n\u00e3o \u00e9 azul.<\/p>\n<p>Olhou mais, disse depois:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 azul, \u00e9 verde.<\/p>\n<p>Perguntou se podiam ficar ali por mais algum tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Claro. O tempo que quiser.<\/p>\n<p>Sentaram na areia, a \u00e1gua fingia vir at\u00e9 eles, indecisa e pregui\u00e7osa, e acabava recuando (era mar\u00e9 vazante), deixando na areia uma esgar\u00e7ada f\u00edmbria de espuma amarelada. O sol infiltrava-se atrav\u00e9s da blusa, revelando o suti\u00e3 que guardava os seios fortes e jovens. Contou que a m\u00e3e lhe dizia ser o mar \u2013 que conhecera por alguns momentos, na inf\u00e2ncia \u2013 plano e azul. E mudo. Mudo com um lago azul.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9. Agora eu seu. \u00c9 verde e rouco.<\/p>\n<p>Estava comovida \u2013 ou decepcionada? Ia chorar, disse.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Bobagem. Sou assim mesmo. Choro \u00e0 toa. Principalmente quando vejo uma coisa que nunca vi. Me d\u00e1 logo vontade de chorar.<\/p>\n<p>O sol riscou dois pequenos rios de prata por onde as l\u00e1grimas desceram, e era infantil o seu gesto de limpar os olhos \u00famidos com as costas da m\u00e3o. Tinha os cabelos negros, compridos, soltos sobre os ombros, e as m\u00e3os magras (de veias azuis que se revelaram sob transpar\u00eancia da pele) neles se perdiam quando ela procurava refazer o penteado sum\u00e1rio que o vento havia desfeito.<\/p>\n<p>Quando o sol foi morrendo e a \u00e1gua verde se fez cinza, viu que os olhos dela se enchiam de uma tristeza mansa, quase fluida. Talvez fosse chorar novamente, porque agora o mar n\u00e3o estava mais verde, mas cinza e feio.<\/p>\n<p>Sa\u00edram caminhando pela praia; ela tirou as sand\u00e1lias, e, ao pisar na areia molhada, come\u00e7ou a rir e perguntou se podia correr, correr, at\u00e9 cansar.<\/p>\n<p>&#8211; Corra. A praia \u00e9 toda sua.<\/p>\n<p>De longe, viu quando ela se estirou na areia, os bra\u00e7os estendidos ao longo do corpo. E quando deitou-se ao lado sentiu o corpo dela tremer e escapar de sua boca entreaberta como que um marulhar, como se ela estivesse tentando imitar o embalo das ondas. O suor havia posto pequenas escamas prateadas na testa larga, e al\u00e9m dos seios ofegantes ele divisava, no fim da praia, a massa escura das rochas; e l\u00e1 na frente, no meio do mar, a torre branca do farol.<\/p>\n<p>Ela voltou-se mais uma vez para o mar, mas l\u00e1 adiante era agora apenas a escurid\u00e3o, que se ia chocar de encontro ao sangue velho do sol agonizante. Perguntou se o mar era sempre assim, verde ou cinza; ele respondeu que podia ser tamb\u00e9m azul, quase sempre era azul; e tamb\u00e9m amarelo, e vermelho, podia ser de todas as cores. Ela disse que s\u00f3 gostaria de v\u00ea-lo azul, calado e azul, como um lago azul \u2013 o mar de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 que amanh\u00e3 ele est\u00e1 azul?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 poss\u00edvel. Melhor, quase certo. Estamos no ver\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E eu posso voltar para ver ele assim, todo azul?<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Mas tem que ser amanh\u00e3, porque depois de amanh\u00e3 bem cedo eu volto para a casa.<\/p>\n<p>Ele prometeu que o amanh\u00e3 o mar estaria azul e que ela o veria assim, todo azul, e calado, apenas ofegante, \u201cpois, voc\u00ea sabe, o mar tamb\u00e9m respira\u201d.<\/p>\n<p>Ela levantou-se, limpou a areia da saia, segurou a sua m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos? Amanh\u00e3 a gente volta.<\/p>\n<p>Ele voltaria mil vezes. Ela, nunca mais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>* (Transcrito do livro &#8220;N\u00e3o foi o que voc\u00ea pediu?&#8221;, Editora Jos\u00e9 Olympio em 1991)<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Joel Silveira<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foi num ver\u00e3o escaldante, de sol absoluto \u2013 h\u00e1 quanto tempo, meu Deus! Ela jamais iria esquecer aquele ver\u00e3o. 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