{"id":10721,"date":"2007-08-24T00:00:00","date_gmt":"2007-08-24T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:36","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:36","slug":"do-verbo-azeitonar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/do-verbo-azeitonar\/","title":{"rendered":"Do verbo azeitonar"},"content":{"rendered":"<p>E por falar em Marceleza&#8230;<\/p>\n<p>Ele nada tem a ver com a hist\u00f3ria que vou contar. Mas, n\u00e3o sei o porqu\u00ea, lembrei do ocorrido no embalo do telefonema que ontem virou post.<\/p>\n<p>Foi o seguinte \u2013 dois pontos.<\/p>\n<p>Um dos nossos, Palito, chegou apagado, apagado ao \u201csujinho\u201d da rua Grenfeeld. N\u00e3o dizia coisa com coisa. S\u00f3 entend\u00edamos a frase final das impreca\u00e7\u00f5es que sa\u00edam da sua boca:<\/p>\n<p>&#8212; Azeitonaram a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Alguns se preocuparam. <\/p>\n<p>Aconchegaram-se aos copos e garrafas mais pr\u00f3ximos. Sabiamos que, a partir dali, Palito viraria esponja, sorveria tudo o que aparecesse na frente.<\/p>\n<p>Dois ou tr\u00eas \u2013 e me incluo entre esses porque Palito detesta Coca Light \u2013 quiseram saber mesmo a causa do desespero. Em v\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Azeitonaram a mo\u00e7a, balbuciava.<\/p>\n<p>Pelo espanto em seu rosto, projetamos o pior. Manoelito, por exemplo, falador que s\u00f3, soltou uma das suas.<\/p>\n<p>&#8212; G\u00edria antiga. Quer dizer deram uns tecos. Apagaram. \u00c9 tiro, gente. Alguma dona foi baleada, assassinada.<\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio sepulcral naquele boteco onde o Sacoman torce o rabo e os \u00f4nibus F\u00e1brica\/Pinheiros bufam que bufam na curva. <\/p>\n<p>Sa\u00edmos devagar. <\/p>\n<p>Fomos para a cal\u00e7ada. Olhamos daqui, olhamos dali \u2013 nenhum movimento estranho. <\/p>\n<p>Sacudimos a cabe\u00e7a um para outro. Era o sinal para voltarmos \u00e0s mesas.<\/p>\n<p>Palito nos esperava de copo na m\u00e3o e olho grande em uma garrafa de cerveja. <\/p>\n<p>Insistia, por\u00e9m, no refr\u00e3o. Desolado.<\/p>\n<p>&#8212; Azeitonaram a mo\u00e7a. A mo\u00e7a, azeitonaram&#8230;<\/p>\n<p>Triste, triste. Pegou a cerveja carregou para o seu canto.<\/p>\n<p>&#8212; Azeitonaram a mo\u00e7a. Azeitonaram, meu&#8230;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m reclamou. Mas, uma parte do bando tratou de cuidar das cervejas que sobraram. Decidiu largar o amigo \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Manoelito, o falador, foi buscar o Nasci, o mestre dos mestres, que estava dando uns perdidos pela regi\u00e3o. Deveria estar percorrendo outros bares para repartir seus saberes com mais turbas de malajambrados.<\/p>\n<p>Assim que ele chegou, encostou no balc\u00e3o, o inef\u00e1vel posto de observa\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m se antecipou, ansioso:<\/p>\n<p>&#8212; Nasci, azeitonaram a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; Que novidade! Jura? E da\u00ed. N\u00e3o foi a primeira, nem ser\u00e1 a \u00faltima.<\/p>\n<p>Era de se esperar uma resposta assim.<\/p>\n<p>T\u00edpica do Nasci. <\/p>\n<p>Nem desfez o mist\u00e9rio, menos ainda explicou a compuls\u00e3o de Palito. Que ali\u00e1s acabara de levantar para se abastecer de outra e mais outra estupidamente gelada por nossa conta. <\/p>\n<p>Agora, por\u00e9m, mais breaco, ele soletrava a raz\u00e3o do drama.<\/p>\n<p>&#8212; A-zei-to-na-ram-a-mo-\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Houve quem enxergasse l\u00e1grimas nos olhos do amigo. Outros disseram que eram os primeiros sinais do porre. Inevit\u00e1vel porre&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; A-zei-to-na-ram-a-mo-\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Olhamos para o Nasci. Como resposta, um balan\u00e7ar de ombros e outro enigma:<\/p>\n<p>&#8212; A vida \u00e9 assim, considerados. A malandragem anda solta. Bobeou&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro quem, mas algu\u00e9m logo ensaiou um discurso contra a viol\u00eancia das cidades grandes. S\u00e3o Paulo, especificamente. Est\u00e1 um horror. Pobre amigo, Palito devia conhecer a mo\u00e7a ou mesmo ser da fam\u00edlia. Mesmo que fosse uma prima distante, era uma perda.<\/p>\n<p>Para nosso espanto, Nasci fez outra pondera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Vai ver, ela at\u00e9 gostou&#8230;<\/p>\n<p>Que crueldade. Um homem inteligente como o Nasci, guru e guia, falar desse jeito. Algu\u00e9m pode gostar de levar um tiro? Sabe-se l\u00e1 se foi assalto, crime passional ou um mero descuido.<\/p>\n<p>&#8212; Descuido? N\u00e3o sei, n\u00e3o. \u00c0s vezes, elas fazem de prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Do que o Nasci estava falando? Ele foi longe demais. O que sabia da hist\u00f3ria que deixou o Palito de cabe\u00e7a queimada, murcho, murcho, apagado, apagado.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo, meus considerados, sei tudo&#8230;<\/p>\n<p>Suplicamos para que explicasse, ent\u00e3o. Quer\u00edamos ajudar no que fosse poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8212; S\u00f3 se voc\u00eas quiserem escolher o nome.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim? \u2013 estranhamos.<\/p>\n<p>&#8212; Azeitonaram a mo\u00e7a. Do verbo azeitonar. Derrubar a madame, emprenhar a dona, botar barriga, fazer nen\u00e9m, embuchar, engravidar&#8230; Azeitonaram a balconista da loja de ferragens aqui do lado. O Palito morre de amores por ela que nunca quis nada com ele&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E por falar em Marceleza&#8230;<\/p>\n<p>Ele nada tem a ver com a hist\u00f3ria que vou contar. Mas, n\u00e3o sei o porqu\u00ea, lembrei do ocorrido no embalo do telefonema que ontem virou post.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10721","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10721","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10721"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10721\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17180,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10721\/revisions\/17180"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10721"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10721"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10721"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}