{"id":10723,"date":"2007-08-26T00:00:00","date_gmt":"2007-08-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:36","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:36","slug":"globalizacao-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/globalizacao-2\/","title":{"rendered":"Globaliza\u00e7\u00e3o (2)"},"content":{"rendered":"<p>Assim que voltamos \u00e0 sala de aula, o inconfund\u00edvel tomou a palavra.<\/p>\n<p>\u201cSenhores, por favor, aten\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\n]\nVamos entender definitivamente o que \u00e9 globaliza\u00e7\u00e3o e como atua sobre os povos do mundo todo.\u201d<\/p>\n<p>Era o pr\u00f3prio Marceleza num de seus melhores momentos.<\/p>\n<p>\u201cA hist\u00f3ria \u00e9 simples&#8230;<\/p>\n<p>Um desses circos mambembes, que percorrem o Pa\u00eds alegrando a plebe ignara em troca de uns trocos, chegou a uma cidade qualquer deste Brazilz\u00e3o, com o alarde costumeiro. Desfile das atra\u00e7\u00f5es pelas ruas empoeiradas e um distorcido alto-falante a propagandear o \u201cmemor\u00e1vel espet\u00e1culo\u201d.<\/p>\n<p>Por motivos \u00f3bvios \u2013 entre os quais, a absoluta falta do que fazer \u2013 todos os moradores acorreram ao chamado e postaram nas cal\u00e7adas para ver a caravana que mais lembrava o incr\u00edvel ex\u00e9rcito de Brancaleone. Mas, para aqueles cafund\u00f3s, que sequer aparecia nos mapas, era algo in\u00e9dito e literalmente extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Palha\u00e7os, malabares, equilibristas e outros que tais, eles at\u00e9 conheciam de eventuais incurs\u00f5es a cidades pr\u00f3ximas. Mas, o circo em quest\u00e3o trazia algo mais que deixou a todos de olhos estatelados: um le\u00e3o enjaulado que, diziam, seria dominado em cena por uma corajoso domador. Apenas com o estalar de chicotes&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00e1 certo que na pequena jaula fedorenta em que circulou pela cidade o bicho dormia a sono solto&#8230; Talvez fosse parte da prepara\u00e7\u00e3o para entrar em cena com todas as for\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto o circo era montado num terreno baldio, nos arredores da pra\u00e7a central, a not\u00edcia se espalhou como praga. Tanto que \u00e0 noite as arquibancadas e camarotes do circo foram poucos para tanta gente. Entre os espectadores, estava o jovem Jo\u00e3ozinho, rechonchudo filho mais novo do prefeito que, no esplendor dos 18 anos, ca\u00edra do cavalo e quebrara a bacia. Ele apareceu amparado numa maca para ver o imperd\u00edvel espet\u00e1culo. Por isso, a menos de cinco minutos de come\u00e7ar o show, o alcaide ainda n\u00e3o havia liberado o documento que liberava o funcionamento do circo.<\/p>\n<p>Ou improvisavam um camarote adequado ao lindinho ou nada&#8230;<\/p>\n<p>Rapidamente improvisou-se junto ao palco, na primeira fila, uma trapitonga que inclinava a maca e permitisse Jo\u00e3ozinho assistir o espet\u00e1culo. Est\u00e1 certo que ele ficaria preso a uma esp\u00e9cie de cinto de seguran\u00e7a, mas nada t\u00e3o desconfort\u00e1vel assim.<\/p>\n<p>Depois dos espet\u00e1culo, funcion\u00e1rios da Municipalidade o livrariam da jabirosca e providenciariam o retorno tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p>Todos vaiaram a entrada de Jo\u00e3ozinho e do prefeito Jo\u00e3oz\u00e3o quando chegaram. Mas isso seria assunto para os jornais do dia seguinte. Os apupos at\u00e9 divertiu a gentarada e foi uma esp\u00e9cie de aquecimento para o que viria&#8230;<\/p>\n<p>Um a uma, vieram os palha\u00e7os, os malabares, o homem que andava sobre o fio, a mulher barbada, os m\u00e1gicos, os palha\u00e7os de novo, o futebol de cachorrinhos, as bailarinas (fiu-fiu!), os trapezistas e&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; as luzes se apagaram.<\/p>\n<p>E o dono do circo anunciou em portunhol, enquanto o pessoal do circo transformava o picadeiro num grande jaula:<\/p>\n<p>\u201cPreparem sus coracions. \u00c9s la hora de que tantos de ostedes esperam. La exibicion de o Leon Arquimedes, o terrible, e su domador Aiquemed\u00f4&#8230;<\/p>\n<p>Ouviu-se um grande \u201coh\u201d na plat\u00e9ia. Todos seguraram a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando as luzes se acenderam, l\u00e1 estava ele. Aiquemed\u00f4, com uma cadeira na ao esquerda e um chicote na direita, a fazer rever\u00eancia para o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 justo, mas nada compar\u00e1vel \u00e0 roupinha do tal domador.<\/p>\n<p>Alguns levantaram suspeitas. <\/p>\n<p>Mas, foram s\u00f3 coment\u00e1rios. Sabem como \u00e9 esse pessoal de cidade pequena. Fala mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Todo o burburinho cessou quando Arquimedes, o le\u00e3o, entrou em cena. <\/p>\n<p>Diga-se entrou decidido. Ouviu-se o primeiro e \u00fanico estalar do chicote do domador. Num golpe infeliz, Aiquemed\u00f4 deixou a tira do chicote enroscar na pata da fera que, num movimento brusco, lhe arrancou o dito cujo das m\u00e3os. Depois, com outro golpe, o desarmou da cadeira e fera e domador ficaram frente a frente&#8230;<\/p>\n<p>Esperto, Aiquemed\u00f4 saiu por onde Arquimedes entrou&#8230;<\/p>\n<p>O le\u00e3o se atirou sobre as grades. Derrubou uma&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; \u00d3hhhhh!!!<\/p>\n<p>&#8230; outra<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3hhhhh!!!<\/p>\n<p>&#8230; e outra.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3hhhhh!!!<\/p>\n<p>O bicho solto, todos correram. <\/p>\n<p>O circo virou um pandem\u00f4nio&#8230;<\/p>\n<p>O le\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cUahuahuahuahuahuah!\u201d<\/p>\n<p>O pov\u00e3o, no alto das arquibancadas:<\/p>\n<p>&#8212; \u00d3hhhhh!!!<\/p>\n<p>At\u00e9 que algu\u00e9m se lembrou e lembrou ao le\u00e3o do Jo\u00e3ozinho, preso ali, na primeira fila, sem poder correr.<\/p>\n<p>&#8211; Coitado do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Tadinho do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus, o Jo\u00e3ozinho! <\/p>\n<p>Arquimedes parece que se acalmou. Lentamente, como caminham os le\u00f5es que sabem o que querem para o jantar, o bicho de encaminhou em dire\u00e7\u00e3o ao Jo\u00e3ozinho. O prefeito Jo\u00e3oz\u00e3o, ao antever a cena, desmaiou. E o povo, \u00e0 dist\u00e2ncia, continuou: <\/p>\n<p>&#8211; Coitado do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Tadinho do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus, o Jo\u00e3ozinho! <\/p>\n<p>O le\u00e3o parou a uns cinco metros do rapaz. Olhava-o fixamente. J\u00e1 n\u00e3o urrava. E a turma:<\/p>\n<p>&#8211; Coitado do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Tadinho do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus, o Jo\u00e3ozinho! <\/p>\n<p>Foi quando ouviu-se a voz desesperada de Jo\u00e3ozinho, pondo ordem na casa.<\/p>\n<p>&#8211; Gente, por favor, vamos deixar o le\u00e3o escolher por conta pr\u00f3pria&#8230;<\/p>\n<p>Pois, ent\u00e3o, rapaziada, entenderam? Globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 isso&#8230;\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim que voltamos \u00e0 sala de aula, o inconfund\u00edvel tomou a palavra.<\/p>\n<p>\u201cSenhores, por favor, aten\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\n]<br \/>\nVamos entender definitivamente o que \u00e9 globaliza\u00e7\u00e3o e como atua sobre os povos do mundo todo.\u201d<\/p>\n<p>Era o pr\u00f3prio Marceleza num de seus melhores momentos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10723","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10723","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10723"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10723\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17178,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10723\/revisions\/17178"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10723"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10723"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10723"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}