{"id":10724,"date":"2007-08-27T00:00:00","date_gmt":"2007-08-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:06:29","modified_gmt":"2017-09-14T04:06:29","slug":"globalizacao-e-isso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/globalizacao-e-isso\/","title":{"rendered":"Globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 isso&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Eu e o Marceleza, o pr\u00f3prio, inigual\u00e1vel, inconfund\u00edvel, bolamos um curso de jornalismo regional para estudantes da \u00e1rea, profissionais e afins. A id\u00e9ia era dar ao curso um car\u00e1ter de extens\u00e3o e complementa\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Assim quem quisesse desenvolver um projeto pessoal poderia ter no\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de como funciona um \u00f3rg\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o regional, dificuldades, tr\u00e2mites legais para montar um pequena empresa de comunica\u00e7\u00e3o, quest\u00f5es \u00e9ticas, postura cr\u00edtica etc etc etc.<\/p>\n<p>Em tempos de banana engolindo macaco, reda\u00e7\u00f5es dos jornal\u00f5es cada vez menores, patr\u00f5es que s\u00f3 v\u00eaem o business, editores \u00e0 beira de um ataque de nervos e pouco dim-dim na pra\u00e7a, eu e o inigual\u00e1vel achamos interessante abrir essa porta para a rapaziada \u2013 e outros que apareceram n\u00e3o t\u00e3o rapazes assim em idade \u2013 e juntar nossa experi\u00eancia. Eu, que trabalhei vinte e tantos anos em jornal de bairro. Ele, que saltou de galho em galho, pelas reda\u00e7\u00f5es, de Ubatuba a Taubat\u00e9 sem tirar o p\u00e9 do Rio de Janeiro, onde o seu Flu \u00e9 raz\u00e3o e vida e outro tanto de desilus\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Fala a\u00ed, meu querido&#8230;<\/p>\n<p>Foi assim que ele me apresentou \u00e0 pequena turma \u2013 uns 30 alunos, se tanto \u2013 numa sala fria, num pr\u00e9dio ali na Santa Cec\u00edlia, onde ministramos a primeira aula do curso, sob os ausp\u00edcios \u2013 e palavra bonita! \u2013 do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S\u00e3o Paulo. Seriam quatro ou cinco manh\u00e3s de s\u00e1bado em que dividir\u00edamos nossos saberes com um pessoal que, para nossa surpresa, vinha de v\u00e1rias cidades paulistas.<\/p>\n<p>&#8212; Plat\u00e9ia heterog\u00eanea, merm\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Diferente, sim. Os alunos, pela pr\u00f3pria viv\u00eancia em regi\u00f5es distintas, tinham n\u00edveis diferentes, forma\u00e7\u00e3o diversifica e interesses os mais contrastantes, entre eles. Um queria montar um jornal em Birigui ou algo assim. Outro queria ser vereador na sua pequena Palmital. Um terceiro estudava ali perto, no Mackenzie, n\u00e3o tinha nada para fazer na manh\u00e3 de s\u00e1bado e se inscreveu no curso.<\/p>\n<p>Eram assim \u2013 e tantos mais havia. Mas, todos demonstravam aten\u00e7\u00e3o e seriedade n proposta de aprender \u2013 o que deu as aulas uma din\u00e2mica bem legal. At\u00e9 que chegou o dia de discutirmos os conceitos de regionalidade e globaliza\u00e7\u00e3o. Como essa disputa se antep\u00f5e numa empresa jornal\u00edstica, como n\u00e3o podemos fechar os olhos para ela e t\u00e1ticas de sobreviv\u00eancia do local sobre o mundial&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Para ser universal, basta falar da sua aldeia \u2013 soltei com algum sucesso, mas pouca compreens\u00e3o no in\u00edcio da minha explica\u00e7\u00e3o. Repetia na verdade uma frase de Dostoyeviski que ouvi um dia, l\u00e1 nos anos 70, quando entrevistei o jornalista Mino Carta.<\/p>\n<p>Marceleza fez cara de aprova\u00e7\u00e3o. E passou a falar sobre globaliza\u00e7\u00e3o e universaliza\u00e7\u00e3o, diferen\u00e7as, perdas e ganhos para o mundo moderno.<\/p>\n<p>Em um dado momento, percebemos que nossas palavras ecoavam vazias na sala. Os alunos se transformaram em badejos em exposi\u00e7\u00e3o nas geladeiras dos supermercados, com aquele olhar vidrado de quem j\u00e1 foi dessa para melhor. <\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e3o entendendo nada, disse baixinho para o amigo. Que resolveu r\u00e1pido:<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, senhores, vamos dar uma paradinha de uns 15, 20 minutos para o caf\u00e9. Na volta, vou lhes contar uma hist\u00f3ria de como se d\u00e1 o fen\u00f4meno da globaliza\u00e7\u00e3o na cabe\u00e7a das pessoas.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Assim que voltamos \u00e0 sala de aula, o inconfund\u00edvel tomou a palavra.<\/p>\n<p>\u201cSenhores, por favor, aten\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Vamos entender definitivamente o que \u00e9 globaliza\u00e7\u00e3o e como atua sobre os povos do mundo todo.\u201d<\/p>\n<p>Era o pr\u00f3prio Marceleza num de seus melhores momentos.<\/p>\n<p>\u201cA hist\u00f3ria \u00e9 simples&#8230;<\/p>\n<p>Um desses circos mambembes, que percorrem o Pa\u00eds alegrando a plebe ignara em troca de uns trocos, chegou a uma cidade qualquer deste Brazilz\u00e3o, com o alarde costumeiro. Desfile das atra\u00e7\u00f5es pelas ruas empoeiradas e um distorcido alto-falante a propagandear o \u201cmemor\u00e1vel espet\u00e1culo\u201d.<\/p>\n<p>Por motivos \u00f3bvios \u2013 entre os quais, a absoluta falta do que fazer \u2013 todos os moradores acorreram ao chamado e postaram nas cal\u00e7adas para ver a caravana que mais lembrava o incr\u00edvel ex\u00e9rcito de Brancaleone. Mas, para aqueles cafund\u00f3s, que sequer aparecia nos mapas, era algo in\u00e9dito e literalmente extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Palha\u00e7os, malabares, equilibristas e outros que tais, eles at\u00e9 conheciam de eventuais incurs\u00f5es a cidades pr\u00f3ximas. Mas, o circo em quest\u00e3o trazia algo mais que deixou a todos de olhos estatelados: um le\u00e3o enjaulado que, diziam, seria dominado em cena por uma corajoso domador. Apenas com o estalar de chicotes&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00e1 certo que na pequena jaula fedorenta em que circulou pela cidade o bicho dormia a sono solto&#8230; Talvez fosse parte da prepara\u00e7\u00e3o para entrar em cena com todas as for\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto o circo era montado num terreno baldio, nos arredores da pra\u00e7a central, a not\u00edcia se espalhou como praga. Tanto que \u00e0 noite as arquibancadas e camarotes do circo foram poucos para tanta gente. Entre os espectadores, estava o jovem Jo\u00e3ozinho, rechonchudo filho mais novo do prefeito que, no esplendor dos 18 anos, ca\u00edra do cavalo e quebrara a bacia. Ele apareceu amparado numa maca para ver o imperd\u00edvel espet\u00e1culo. Por isso, a menos de cinco minutos de come\u00e7ar o show, o alcaide ainda n\u00e3o havia liberado o documento que liberava o funcionamento do circo.<\/p>\n<p>Ou improvisavam um camarote adequado ao lindinho ou nada&#8230;<\/p>\n<p>Rapidamente improvisou-se junto ao palco, na primeira fila, uma trapitonga que inclinava a maca e permitisse Jo\u00e3ozinho assistir o espet\u00e1culo. Est\u00e1 certo que ele ficaria preso a uma esp\u00e9cie de cinto de seguran\u00e7a, mas nada t\u00e3o desconfort\u00e1vel assim.<\/p>\n<p>Depois dos espet\u00e1culo, funcion\u00e1rios da Municipalidade o livrariam da jabirosca e providenciariam o retorno tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p>Todos vaiaram a entrada de Jo\u00e3ozinho e do prefeito Jo\u00e3oz\u00e3o quando chegaram. Mas isso seria assunto para os jornais do dia seguinte. Os apupos at\u00e9 divertiu a gentarada e foi uma esp\u00e9cie de aquecimento para o que viria&#8230;<\/p>\n<p>Um a uma, vieram as atra\u00e7\u00f5es: os palha\u00e7os, os malabares, o homem que andava sobre o fio, a mulher barbada, os m\u00e1gicos, os palha\u00e7os de novo, o futebol de cachorrinhos, as bailarinas (fiu-fiu!), os trapezistas e&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; as luzes se apagaram.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>E o dono do circo anunciou em portunhol, enquanto o pessoal do circo transformava o picadeiro num grande jaula:<\/p>\n<p>\u201cPreparem sus coracions. \u00c9s la hora de que tantos de ostedes esperam. La exibicion de o Leon Arquimedes, o terrible, e su domador Aiquemed\u00f4&#8230;<\/p>\n<p>Ouviu-se um grande \u201coh\u201d na plat\u00e9ia. Todos seguraram a respira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando as luzes se acenderam, l\u00e1 estava ele. Aiquemed\u00f4, com uma cadeira na ao esquerda e um chicote na direita, a fazer rever\u00eancia para o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 justo, mas nada compar\u00e1vel \u00e0 roupinha do tal domador.<\/p>\n<p>Alguns levantaram suspeitas. <\/p>\n<p>Mas, foram s\u00f3 coment\u00e1rios. Sabem como \u00e9 esse pessoal de cidade pequena. Fala mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Todo o burburinho cessou quando Arquimedes, o le\u00e3o, entrou em cena. <\/p>\n<p>Diga-se entrou decidido. Ouviu-se o primeiro e \u00fanico estalar do chicote do domador. Num golpe infeliz, Aiquemed\u00f4 deixou a tira do chicote enroscar na pata da fera que, num movimento brusco, lhe arrancou o dito cujo das m\u00e3os. Depois, com outro golpe, o desarmou da cadeira e fera e domador ficaram frente a frente&#8230;<\/p>\n<p>Esperto, Aiquemed\u00f4 saiu por onde Arquimedes entrou&#8230;<\/p>\n<p>O le\u00e3o se atirou sobre as grades. Derrubou uma&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; \u00d3hhhhh!!!<\/p>\n<p>&#8230; outra<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3hhhhh!!!<\/p>\n<p>&#8230; e outra.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3hhhhh!!!<\/p>\n<p>O bicho solto, todos correram. <\/p>\n<p>O circo virou um pandem\u00f4nio&#8230;<\/p>\n<p>O le\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cUahuahuahuahuahuah!\u201d<\/p>\n<p>O pov\u00e3o, no alto das arquibancadas:<\/p>\n<p>&#8212; \u00d3hhhhh!!!<\/p>\n<p>At\u00e9 que algu\u00e9m se lembrou e lembrou ao le\u00e3o do Jo\u00e3ozinho, preso ali, na primeira fila, sem poder correr.<\/p>\n<p>&#8211; Coitado do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Tadinho do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus, o Jo\u00e3ozinho! <\/p>\n<p>Arquimedes parece que se acalmou. Lentamente, como caminham os le\u00f5es que sabem o que querem para o jantar, o bicho de encaminhou em dire\u00e7\u00e3o ao Jo\u00e3ozinho. O prefeito Jo\u00e3oz\u00e3o, ao antever a cena, desmaiou. E o povo, \u00e0 dist\u00e2ncia, continuou: <\/p>\n<p>&#8211; Coitado do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Tadinho do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus, o Jo\u00e3ozinho! <\/p>\n<p>O le\u00e3o parou a uns cinco metros do rapaz. Olhava-o fixamente. J\u00e1 n\u00e3o urrava. E a turma:<\/p>\n<p>&#8211; Coitado do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Tadinho do Jo\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus, o Jo\u00e3ozinho! <\/p>\n<p>Foi quando ouviu-se a voz desesperada de Jo\u00e3ozinho, pondo ordem na casa.<\/p>\n<p>&#8211; Gente, por favor, vamos deixar o le\u00e3o escolher por conta pr\u00f3pria&#8230;<\/p>\n<p>Pois, ent\u00e3o, rapaziada, entenderam? Globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 isso&#8230;\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu e o Marceleza, o pr\u00f3prio, inigual\u00e1vel, inconfund\u00edvel, bolamos um curso de jornalismo regional para estudantes da \u00e1rea, profissionais e afins. 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