{"id":10735,"date":"2007-09-03T00:00:00","date_gmt":"2007-09-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:35","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:35","slug":"manha-de-sabado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/manha-de-sabado\/","title":{"rendered":"Manh\u00e3 de s\u00e1bado"},"content":{"rendered":"<p>Conto como acho que foi&#8230;<\/p>\n<p>Ele entrou naquele bar na esquina das ruas Grenfeeld com Bom Pastor. Cumprimentou os conhecidos com um aceno vago, levantou o polegar no sinal de positivo para o balconista. De pronto, dois copos surgiram \u00e0 sua frente. Um para a cerveja; outro, menor, para a branquinha, o quebra-gelo. <\/p>\n<p>Virou numa golada s\u00f3 a segunda. No instante seguinte, enfrentou o primeiro copo de cerveja com a mesma voracidade. Deu um suspiro e percebeu que as m\u00e3os pararam de tremer, os olhos clarearam. <\/p>\n<p>Sentiu-se vivo, mas vazio, vazio.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m foi falar com ele. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o queria falar com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Era manh\u00e3 de s\u00e1bado. Mas, poderia ser outro dia qualquer. N\u00e3o faria diferen\u00e7a. Ali\u00e1s, de um tempo pra c\u00e1, as coisas pareciam n\u00e3o fazer sentido. N\u00e3o, para ele. Talvez outros pudessem sonhar, encontrar caminhos. Vislumbrar uma brecha. <\/p>\n<p>Algo que valesse a pena.<\/p>\n<p>Repetiu o ritual. Virou a cacha\u00e7a, sorveu a cerveja. Mastigou o contraste dos sabores e o desconcerto de come\u00e7ar a embebedar-se \u00e0quela hora do dia. Pensou nos anos todos que dedicou ao banco. Imaginava-se importante. Riu dos contratempos, dos prazos, daquele dia-a-dia estressante. As gravatas. O rel\u00f3gio de ouro quando completou 30 anos de trabalho. A aposentadoria \u2013 e os trocados que lhe garantiam a vida med\u00edocre, mas livres dos hor\u00e1rios e dos ritos.<\/p>\n<p>Teve a sincera impress\u00e3o que desperdi\u00e7ara o melhor da vida. Mas, nada poderia fazer. Nada. <\/p>\n<p>A n\u00e3o ser, beber.<\/p>\n<p>&#8212; Bebamos, pois&#8230; Sa\u00fade, gente!!!<\/p>\n<p>Alguns sorriram c\u00famplices. Outros at\u00e9 levantaram seus copos. Muitos ficaram indiferentes. Ningu\u00e9m se achegou \u2013 o que ele achou bom. Desta vez, ele pr\u00f3prio espantou-se com a rapidez com que fez o vira-vira.<\/p>\n<p>Apoiou o cotovelo no balc\u00e3o e a cabe\u00e7a na palma da m\u00e3o esquerda. Deixou-se estar por instantes. N\u00e3o era essa a vida que um dia ele pensou levar. Ser\u00e1 que s\u00f3 fez andar em c\u00edrculos at\u00e9 chegar ali \u2013 c\u00edruculos vagos, por nada e para nada.<\/p>\n<p>Filhos crescidos \u2013 dois; respeit\u00e1veis cidad\u00e3os. Netos bonitos, ainda com a vida pela frente. Todos saud\u00e1veis. A mulher a cuidar da casa. Tudo certo. Aparentemente certo. Nos conformes, como dizia um amigo. S\u00f3 aquele n\u00f3 na garganta. Inexplic\u00e1vel n\u00f3 a lhe roubar o ar, a lhe tirar o ch\u00e3o. De onde veio essa ang\u00fastia. E para onde o levaria&#8230;<\/p>\n<p>Resolveu tirar essa d\u00favida a limpo. <\/p>\n<p>Viram quando deixou uns trocados sobre o balc\u00e3o. Nem se importou quando o balconista lhe disse:<\/p>\n<p>&#8212; Mo\u00e7o, tem troco.<\/p>\n<p>Subiu no primeiro \u00f4nibus que parou no ponto, logo em frente. Era o F\u00e1brica\/Pinheiros, velho de guerra. Ningu\u00e9m nunca mais ouviu falar de Orlando, este era o nome do homem. Uns dizem que era coisa de mulher. Outros que estava com doen\u00e7a ruim. Houve quem dissesse que ele estava bebendo demais. <\/p>\n<p>Os familiares choraram nos primeiros dias \u2013 mas, ningu\u00e9m desesperou. Entenderam logo que a vida tem seus des\u00edgnios. Todos sa\u00edram ganhando. Depois a mulher sozinha poderia morar num apartamento menor e a avarandada casa de c\u00f4modos \u2013 o xod\u00f3 do pai \u2013 ficaria para a fam\u00edlia do filho mais velho. Afinal, os garotos estavam crescendo, precisavam de espa\u00e7o para brincar. Ah! tamb\u00e9m queriam ter um cachorro de estima\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ta relampiando, cad\u00ea nen\u00e9m?<\/p>\n<p>Acordou de suas lembran\u00e7as, com a pergunta de Bartira. Sorriu como sorri os que tem a alma lavada. Apontou a rede no pequeno quarto, onde dormia, a sono solto, o garoto de ano e meio, filho dos dois. Recebeu um beijo agradecido na face e um convite.<\/p>\n<p>Irrecus\u00e1vel convite:<\/p>\n<p>&#8212; Vamu aproveit\u00e1. Vem pra rede mais eu. Vem&#8230;<\/p>\n<p>Os primeiros pingos da tarde come\u00e7aram a cair, enviesados e grossos naqueles cafund\u00f3s da Ilha do Maraj\u00f3. N\u00e3o esperou a chuva encorpar, menos ainda um segundo chamado. Era um homem sem passado. Entrou feliz, pleno como se nunca vivera aquela distante manh\u00e3 de s\u00e1bado. <\/p>\n<p>Enfim, Orlando tinha o melhor da vida&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conto como acho que foi&#8230;<\/p>\n<p>Ele entrou naquele bar na esquina das ruas Grenfeeld com Bom Pastor. 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