{"id":10736,"date":"2007-09-04T00:00:00","date_gmt":"2007-09-04T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:34","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:34","slug":"manha-de-sabado-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/manha-de-sabado-2\/","title":{"rendered":"Manh\u00e3 de s\u00e1bado 2"},"content":{"rendered":"<p>Conto como foi. Mas, n\u00e3o garanto&#8230;<\/p>\n<p>Ele entrou naquele bar na esquina das ruas Grenfeeld com Bom Pastor. Cumprimentou os conhecidos com um aceno vago, levantou o polegar no sinal de positivo para o balconista. De pronto, dois copos surgiram \u00e0 sua frente. Um para a cerveja; outro, menor, para a branquinha, o quebra-gelo. <\/p>\n<p>Virou numa golada s\u00f3 a segunda. No instante seguinte, enfrentou o primeiro copo de cerveja com a mesma voracidade. Deu um suspiro e percebeu que as m\u00e3os pararam de tremer, os olhos clarearam. <\/p>\n<p>Sentiu-se vivo, mas vazio, vazio.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m foi falar com ele. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o queria falar com ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Era manh\u00e3 de s\u00e1bado. Mas, poderia ser outro dia qualquer. N\u00e3o faria diferen\u00e7a. Ali\u00e1s, de um tempo pra c\u00e1, as coisas pareciam n\u00e3o fazer sentido. N\u00e3o, para ele. Talvez outros pudessem sonhar, encontrar caminhos. Vislumbrar uma brecha. <\/p>\n<p>Algo que valesse a pena.<\/p>\n<p>Repetiu o ritual. Virou a cacha\u00e7a, sorveu a cerveja. Mastigou o contraste dos sabores e o desconcerto de come\u00e7ar a embebedar-se \u00e0quela hora do dia. Pensou nos anos todos que dedicou ao banco. Imaginava-se importante. Riu dos contratempos, dos prazos, daquele dia-a-dia estressante. As gravatas. O rel\u00f3gio de ouro quando completou 30 anos de trabalho. A aposentadoria \u2013 e os trocados que lhe garantiam a vida med\u00edocre, mas livres dos hor\u00e1rios e dos ritos.<\/p>\n<p>Teve a sincera impress\u00e3o que desperdi\u00e7ara o melhor da vida. Mas, nada poderia fazer. Nada. <\/p>\n<p>A n\u00e3o ser, beber.<\/p>\n<p>&#8212; Bebamos, pois&#8230; Sa\u00fade, gente!!!<\/p>\n<p>Alguns sorriram c\u00famplices. Outros at\u00e9 levantaram seus copos. Muitos ficaram indiferentes. Ningu\u00e9m se achegou \u2013 o que ele achou bom. Desta vez, ele pr\u00f3prio espantou-se com a rapidez com que fez o vira-vira.<\/p>\n<p>Apoiou o cotovelo no balc\u00e3o e a cabe\u00e7a na palma da m\u00e3o esquerda. Deixou-se estar por instantes. N\u00e3o era essa a vida que um dia ele pensou levar. Ser\u00e1 que s\u00f3 fez andar em c\u00edrculos at\u00e9 chegar ali \u2013 c\u00edrculos vagos, por nada e para nada.<\/p>\n<p>Filhos crescidos \u2013 dois; respeit\u00e1veis cidad\u00e3os. Netos bonitos, ainda com a vida pela frente. Todos saud\u00e1veis. A mulher a cuidar da casa. Tudo certo. Aparentemente certo. Nos conformes, como dizia um amigo. S\u00f3 aquele n\u00f3 na garganta. Inexplic\u00e1vel n\u00f3 a lhe roubar o ar, a lhe tirar o ch\u00e3o. De onde veio essa ang\u00fastia. E para onde o levaria&#8230;<\/p>\n<p>Ouviu o ronco conhecido do bus\u00e3o, o  F\u00e1brica\/Pinheiros,  que se aproximava da fat\u00eddica esquina. Ali, onde o Sacom\u00e3 entorta o rabo e o coletivo faz a curva aos trancos e aos sustos. <\/p>\n<p>\u00c9 um salve-se quem puder. Passageiros s\u00e3o jogados para a esquerda \u2013 e a\u00ed de quem n\u00e3o se segurar. Quem est\u00e1 no meio da rua  corre para escapar do mostrengo que bufa e se entorta todo. At\u00e9 os que est\u00e3o na cal\u00e7ada fazem figa para que tudo termine bem \u2013 e o bich\u00e3o n\u00e3o se descontrole cal\u00e7adas e pr\u00e9dios adentro.<\/p>\n<p>Tudo volta \u00e0 aparente normalidade no ponto de parada a 50 metros dali. <\/p>\n<p>Foi exatamente para l\u00e1 que o homem correu, sem sequer pagar a conta. <\/p>\n<p>&#8212; Vige, o que deu nele? Saiu sem pagar&#8230;<\/p>\n<p>Quem quis ver viu Orlando se esbaforir na tentativa de alcan\u00e7ar o \u00f4nibus.<\/p>\n<p>&#8212; O que deu no homem? \u2013 perguntaram-se.<\/p>\n<p>Uns disseram que era coisa de mulher. <\/p>\n<p>&#8212; Desde que a amante o deixou, deu de beber.<\/p>\n<p>Outros, que estava com doen\u00e7a ruim. <\/p>\n<p>&#8212; Me disseram que est\u00e1 fazendo uns exames e&#8230; Sabe, n\u00e9, como \u00e9 a vida.<\/p>\n<p>Houve quem conclu\u00edsse sabiamente:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 s\u00f3 um cachaceiro correndo do calote que deu.<\/p>\n<p>Indiferente a tudo, Orlando viu o \u00f4nibus parar no ponto, como a lhe esperar. N\u00e3o sabia exatamente o porqu\u00ea fazia tudo aquilo. Para onde iria e mesmo se iria. Queria estar dentro coletivo e a\u00ed ganhar o mundo.  A porta aberta era a certeza de que chegaria a tempo. N\u00e3o sentia o cansa\u00e7o da tresloucada corrida, nem o cora\u00e7\u00e3o acelerar. S\u00f3 tinha olhos para a porta. Assim que entrasse agradeceria a gentileza do motorista que o esperou&#8230; <\/p>\n<p>Menos de cinco metros. Alguns passos e a liberdade lhe sorria. Teria coragem?<\/p>\n<p>Saltou o meio fio e&#8230; <\/p>\n<p>S\u00f3 se escutou o estrondo do baque, depois a gritaria de quem viu a cena. <\/p>\n<p>Uma exclama\u00e7\u00e3o calou fundo no pessoal do boteco:<\/p>\n<p>&#8212; Meu Deus, a moto atropelou o v\u00e9io&#8230;<\/p>\n<p>Acordou na cama do hospital. Gesso por todo o corpo. Bra\u00e7o esquerdo estendido para a frente, perna esquerda suspensa por um fio, cabe\u00e7a enfaixada. Estava imobilizado. Procurou com os olhos fazer o reconhecimento do local. Mas, s\u00f3 conseguiu mesmo ver o teto bege amarelecido pelo tempo. <\/p>\n<p>Ouviu vozes conhecidas. A mulher, um dos filhos e talvez um m\u00e9dico estavam por ali. Ningu\u00e9m chorava. N\u00e3o havia desespero.  Mas, sentiu o clima de expectativa.<\/p>\n<p>&#8212; Nasceu de novo \u2013 disse o desconhecido.<\/p>\n<p>&#8212; Dez dias de coma, doutor. Ser\u00e1 que n\u00e3o vai ficar seq\u00fcela? <\/p>\n<p>Era o filho mais velho com voz de preocupa\u00e7\u00e3o. O solu\u00e7o que imaginou ser da esposa se antecipou \u00e0 resposta.<\/p>\n<p>&#8212; Fiquem tranq\u00fcilo&#8230;<\/p>\n<p>Agradeceu a Deus pelo diagn\u00f3stico. N\u00e3o estava t\u00e3o ruim assim. De imediato, refez a cena e n\u00e3o atinou com os fatos. Como n\u00e3o chegou ao \u00f4nibus? O que teria acontecido? Desistiu por hora, pois se lembrou do pior. A morena Bartira, a crian\u00e7a dormindo, o para\u00edso da Ilha do Maraj\u00f3 \u2013 era tudo fic\u00e7\u00e3o. Sonho de um ser inconsciente \u2013 e inconseq\u00fcente. <\/p>\n<p>Parecia t\u00e3o real.<\/p>\n<p>&#8212; Vem pra rede mais eu. Vem&#8230;<\/p>\n<p>Suspirou. Quis voltar o tempo, refazer a manh\u00e3 de s\u00e1bado. Conformou-se com a certeza do agora:<\/p>\n<p>Estar vivo \u00e9 o melhor da vida.<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conto como foi. Mas, n\u00e3o garanto&#8230;<\/p>\n<p>Ele entrou naquele bar na esquina das ruas Grenfeeld com Bom Pastor. 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