{"id":10741,"date":"2007-09-08T00:00:00","date_gmt":"2007-09-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:34","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:34","slug":"as-tres-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/as-tres-mulheres\/","title":{"rendered":"As tr\u00eas mulheres"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o houve como deixar de prestar aten\u00e7\u00e3o ao que diziam as tr\u00eas mulheres. Riam de dar gosto, provavelmente de alguma estripulia que acabavam de fazer na cantina de um desses moviementados auto-postos de estrada. Falavam sem receio de serem ouvidas as jovens senhoras \u2013 mais senhoras que jovens, mas nada nelas denunciava alguma inten\u00e7\u00e3o \u00e0 velhice.<\/p>\n<p>Diria que estavam a\u00ed pela casa dos 50 \u2013 pouco mais, pouco menos e, como disse, divertiam-se a valer com a presepada que aprontaram. Ou muito me engano, eram irm\u00e3s ou primas, aparentadas certamente. Viajavam sem os respectivos maridos ou ser que o valha. Era vis\u00edvel a liberdade que desfrutavam, como se fossem outros os tempos e n\u00e3o houvesse, em algum canto, filhos, netos e conven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Estavam \u00e0 vontade, enfim.<\/p>\n<p>E era o que realmente valia naquele exato momento. <\/p>\n<p>\u00c0s favas, pois, as conven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A cena me conduziu a outra, tamb\u00e9m recente.<\/p>\n<p>Atendia a um grupo de estudantes durante a aula, enquanto outro, composto s\u00f3 de meninas entre os 20 e 23 anos, aguardava a vez para a consultoria de texto. Eu rabiscava o que lia \u00e0 minha frente e os autores assistiam as corre\u00e7\u00f5es em sil\u00eancio. Pude ouvir, ent\u00e3o, um trecho da conversa das mo\u00e7as. Por algum motivo, que preferi n\u00e3o saber, elas estratificavam os professores de Jornalismo em faixas et\u00e1rias.<\/p>\n<p>&#8212; Imagine Fulano tem a mesma idade que Siclano, mas s\u00e3o t\u00e3o diferentes, disse uma.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o pode ser, discordou outra.<\/p>\n<p>&#8212; S\u00e3o t\u00e3o diferentes. Acho que \u00e9 a roupa, tentou consertar uma terceira.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, quantos anos tem Beltrano? \u2013 arg\u00fciu a que me pareceu mais interessada na discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Precisei interromper a escuta para fazer algumas observa\u00e7\u00f5es sobre o qu\u00ea acabara ler. Mas, assim que as chamei para o pr\u00f3ximo atendimento, n\u00e3o escapei \u00e0 curiosidade das mo\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8212; Professor, posso fazer uma pergunta?<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 fez.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso. A gente quer saber quantos anos voc\u00ea tem.<\/p>\n<p>Disse e n\u00e3o sei se ficaram satisfeitas com a resposta. <\/p>\n<p>Talvez imaginassem mais. <\/p>\n<p>Por mim, digo e dou f\u00e9: a idade que tenho est\u00e1 de bom tamanho e uso. N\u00e3o saberia ter outra&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Essas duas hist\u00f3rias me remetem a uma cr\u00f4nica do escritor M\u00e1rio Prata. Ele a escreveu ao se dar conta de que estava prestes a completar 60 anos \u2013 e continuava na ativa, com sonhos, alegrias e uma baita perspectiva de vida. Prata \u00e9 contempor\u00e2neo de Caetano, Gil, Chico, entre outros. Uma gera\u00e7\u00e3o que &#8212; aqui e acol\u00e1 &#8212; mudou a hist\u00f3ria da humanidade, e hoje est\u00e1 pelos arredores dos 64\/65 anos. Antes dessa turma, quem transpunha a faixa dos 40 sentia o peso da aposentadoria e j\u00e1 pensava seriamente em sair de cena para, como se dizia \u00e0 \u00e9poca, criar galinhas. Ar circunspecto, roupas sisudas, a felicidade permitida era o cuidar dos netos e o jogo de domin\u00f3, com outros iguais&#8230; E olhe l\u00e1. <\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 outros fatores que influenciaram nessa conquista. O avan\u00e7o da medicina, por exemplo \u2013 e  da ci\u00eancia, de um modo geral. O mais importante, creio, \u00e9 a predisposi\u00e7\u00e3o para reinventar o sonho que esse pessoal nos legou.  <\/p>\n<p>\u00c0s favas, pois, as conven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Uma vez perguntaram ao cantor e compositor Paulinho da Viola, outro sessent\u00e3o impec\u00e1vel, sobre as not\u00edcias do seu tempo \u2013 e ele respondeu:<\/p>\n<p>&#8212; Meu tempo? Meu tempo  \u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m duvida?<br \/>\nDe minha parte, s\u00f3 tenho a agradecer a esses desbravadores &#8211; e vida que segue.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o houve como deixar de prestar aten\u00e7\u00e3o ao que diziam as tr\u00eas mulheres. 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