{"id":10746,"date":"2007-09-13T00:00:00","date_gmt":"2007-09-13T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:34","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:34","slug":"o-tio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-tio\/","title":{"rendered":"O tio"},"content":{"rendered":"<p>O apelido do menino era Pitchnim. Virou apenas Tchnim, com o passar dos anos. Vem do italiano, pisccino, que se diz pitchino e quer dizer pequeno. Era o ca\u00e7ula da fam\u00edlia, como se dizia \u00e0 \u00e9poca. Por isso, n\u00e3o poucas vezes, ouviu que era mimado. Pelas duas irm\u00e3s mais velhas, pela m\u00e3e, a av\u00f3 nem tanto. O pai, \u00f3bvio que sim \u2013 pois, ele, o garoto sardento, era o \u00fanico herdeiro do \u201cc\u00e9lebre\u201d sobrenome autenticamente calabr\u00eas. Quanto orgulho. O av\u00f4 Carlito gostava de ficar com Tchnin \u00e0 janela a ver passar os bondes e as mo\u00e7as \u2013 as belas tecel\u00e3s das f\u00e1bricas de pano que havia pelos arredores da avenida Lavap\u00e9s. &quot;A\u00ed, Maria. Maria de Jundia\u00ed. Com todos voc\u00ea vai. S\u00f3 comigo n\u00e3o quer ir&quot;, cantava o av\u00f4 e o menino ria, sob os olhares complascentes das &quot;marias&quot; que passavam. <\/p>\n<p>Havia ainda os tios e as tias. N\u00e3o saberia hoje lembrar o nome de cor de todos eles \u2013 mas, tr\u00eas deles o encatam e encantavam-se com ele: o Toninho que era s\u00e3opaulino (que horror!), mas vivia a cantar as m\u00fasicas de N\u00e9lson Gon\u00e7alves (que bonito!), o Ninin (que tinha um Chevrolet bonito toda vida) e o Neno, um tio solteir\u00e3o e triste. Diziam que ele queria ser padre. Vai saber? Tchnim nunca entendeu aquela tristeza \u2013 tanta, tanta que passariam dezenas de anos, o s\u00e9culo viraria, o menino se transformaria em homem feito, mas querem saber? Ele nunca esqueceu a frase que ouviu numa tarde em que caminhava ao lado do tio: \u201cSabe, Tchnim, o tempo passa muito depressa. Aproveite para ser feliz o tempo que couber ser feliz. Quando voc\u00ea percebe, l\u00e1 se foram os melhores anos da sua vida\u201d.<\/p>\n<p>O menino \u2013 imagino \u2013 n\u00e3o deu l\u00e1 grande import\u00e2ncia \u00e0s palavras do homem elegante, de bigode aparado, cabelos retintos e ternos bem cortados, comprados em uma das lojas de A Exposi\u00e7\u00e3o\/Clipper. Mas, creio, entendeu tudo o que Neno quis dizer quando, inexplicavelmente, sentiu uma vontade de chorar. Coisa estranha \u2013 e olhem que Tchnim era um hominho, pois sequer usava cal\u00e7as curtas. Homem n\u00e3o chora. N\u00e3o foi assim que lhe ensinaram. Ent\u00e3o? Que fraqueza era aquela? De onde brotou essa est\u00fapida sensa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u00c9 certo que o tio n\u00e3o tinha l\u00e1 uma turma de amigos como o pai. Tamb\u00e9m n\u00e3o sabia cantar as can\u00e7\u00f5es do r\u00e1dio, como o tio Toninho. Mas, caramba! Ele gostava de ir ao cinema \u2013 e ia duas ou tr\u00eas vezes por semana, sempre sozinho. Aos domingos pela manh\u00e3, assistia aos jogos de futebol na v\u00e1rzea do Glic\u00e9rio \u2013 p\u00f4, l\u00e1 havia cada time bom: o Mocidade, o Huracan, o Estrela do IAPI, o Estudantes, o Internacional, o Bangu. N\u00e3o dava para entender. Talvez fosse o carr\u00e3o do tio Ninin. Mas, pensem com o menino: quase ningu\u00e9m tinha autom\u00f3vel \u00e0quela \u00e9poca. Depois, n\u00e3o dava para comparar a cole\u00e7\u00e3o de ternos do Neno com a do outro tio. A do Neno era muito mais garbosa. O garoto gostava de fu\u00e7ar no guarda-roupa do tio. Olhava maravilhado os ternos enfileirados, em cabides de madeira, um atr\u00e1s do outro. Todos em cores s\u00f3brias. \u201cComprei um terno de olho-de-perdiz\u201d, o Neno lhe falou um dia. O garoto franziu a testa a imaginar o que ele quis dizer. O tio, ent\u00e3o, desembrulhou o imenso pacote e mostrou aquele palet\u00f3 acinzentado, repleto de pequenos pontinhos brancos e pretos e pretos e brancos.<\/p>\n<p>&#8212; Puxa, tio, que bonito.<\/p>\n<p>Acho que foi a \u00fanica vez que viu o tio sorrir, de dar gosto.<\/p>\n<p>&#8212; O senhor podia me dar um igualzinho de presente, n\u00e9?<\/p>\n<p>Era mesmo um menino mimado. Mas, foi a primeira \u2013 e acho que \u00fanica \u2013 vez que Tchnim viu um homem sorrir e chorar ao mesmo tempo. Aquele tio se fez mesmo inesquec\u00edvel e, por esses dias, completaria 77 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O apelido do menino era Pitchnim. Virou apenas Tchnim, com o passar dos anos. Vem do italiano, pisccino, que se diz pitchino e quer dizer pequeno. 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