{"id":10747,"date":"2007-09-14T00:00:00","date_gmt":"2007-09-14T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:33","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:33","slug":"leia-esta-cancao-11","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/leia-esta-cancao-11\/","title":{"rendered":"Leia esta can\u00e7\u00e3o 11"},"content":{"rendered":"<p>Gosto de um samba do Paulinho da Viola \u2013 de um, n\u00e3o; gosto de v\u00e1rios, mas em especial me emociono com este Coisas do Mundo Minha Nega:<\/p>\n<p>\u201cHoje eu vim minha nega<br \/>\nComo venho quando posso<br \/>\nNa boca as mesmas palavras<br \/>\nNo peito o mesmo remorso<br \/>\nNas m\u00e3os a mesma viola<br \/>\nonde gravei o teu nome  <\/p>\n<p>Venho do samba h\u00e1 tempo, nega<br \/>\nVenho parando por ai<br \/>\nPrimeiro achei Z\u00e9 Fuleiro<br \/>\nque me falou de doen\u00e7a<br \/>\nQue a sorte nunca lhe chega<br \/>\nQue est\u00e1 sem amor e sem dinheiro<br \/>\nPerguntou se n\u00e3o dispunha<br \/>\nde algum que pudesse dar<br \/>\nPuxei ent\u00e3o da viola<br \/>\nCantei um samba para ele<br \/>\nFoi um samba sincopado<br \/>\nQue zombou de seu azar <\/p>\n<p>Hoje eu vim, minha nega<br \/>\nAndar contigo no espa\u00e7o<br \/>\ntentar fazer em teus bra\u00e7os<br \/>\num samba puro de amor<br \/>\nSem melodia ou palavra<br \/>\npara n\u00e3o perder o valor  <\/p>\n<p>Depois encontrei seu Bento, nega<br \/>\nQue bebeu a noite inteira<br \/>\nEstirou-se na cal\u00e7ada<br \/>\nSem ter vontade qualquer<br \/>\nEsqueceu do compromisso<br \/>\nque assumiu com a mulher<br \/>\nN\u00e3o chegar de madrugada<br \/>\ne n\u00e3o beber mais cacha\u00e7a<br \/>\nEla fez at\u00e9 promessa<br \/>\nPagou e se arrependeu<br \/>\nCantei um samba para ele<br \/>\nque sorriu e adormeceu <\/p>\n<p>Hoje eu vim, minha nega<br \/>\nQuerendo aquele sorriso<br \/>\nQue tu entregas para o c\u00e9u<br \/>\nQuando eu te aperto em meus bra\u00e7os<br \/>\nGuarda bem minha viola,<br \/>\nmeu amor e meu cansa\u00e7o <\/p>\n<p>Por fim achei um corpo, nega<br \/>\nIluminado ao redor<br \/>\nDisseram que foi bobagem<br \/>\nUm queria ser melhor<br \/>\nN\u00e3o foi amor nem dinheiro<br \/>\na causa da discuss\u00e3o<br \/>\nFoi apenas um pandeiro<br \/>\nQue depois ficou no ch\u00e3o<br \/>\nN\u00e3o tirei minha viola<br \/>\nParei, olhei, fui-me embora<br \/>\nNingu\u00e9m compreenderia<br \/>\num samba naquela hora <\/p>\n<p>Hoje eu vim, minha nega<br \/>\nSem saber nada da vida<br \/>\nQuerendo aprender contigo<br \/>\na forma de se viver<br \/>\nAs coisas est\u00e3o no mundo<br \/>\ns\u00f3 que eu preciso aprender\u201d. <\/p>\n<p>O samba tem requintes de lirismo ao falar de um tempo que n\u00e3o mais existe. Uma cr\u00f4nica, com lampejos de not\u00edcias de jornal, com personagens raros \u2013 o Z\u00e9 Fuleiro, o seu Bento, o sambista morto e a pr\u00f3pria musa a espera do poeta para lhe guardar a viola, o amor e o cansa\u00e7o. <\/p>\n<p>A lindeza e a precis\u00e3o dos versos credenciam este samba como uma das obras primas do nosso cancioneiro popular. Curioso, \u00e9 que Paulinho tinha pouco mais de 20 anos quando o comp\u00f4s. Estava no come\u00e7o da carreira \u2013 e o inscreveu num daqueles festivais que movimentaram a MPB na segunda metade dos anos 60. N\u00e3o lembro se o samba ficou entre os cinco primeiros. Lembro que Jair Rodrigues foi o int\u00e9rprete. Como a can\u00e7\u00e3o n\u00e3o exibia aquele final apote\u00f3tico t\u00edpico de tais competi\u00e7\u00f5es, passou desapercebido aos ouvidos da plat\u00e9ia (que se especializava em vaiar a tudo e a todos) e dos jurados (provavelmente impressionados pela responsabilidade de julgar as primeiras can\u00e7\u00f5es da Tropic\u00e1lia \u2013 Domingo no Parque e Alegria Alegria).<\/p>\n<p>Lembro que no mesmo festival, o de 67, outra obra-prima ficou de fora: a lind\u00edssima Eu e a Brisa, de Johnny Alf. A m\u00fasica vencedora foi Ponteio, de Edu Lobo e Capinam.<\/p>\n<p>Mas voltemos \u00e0 m\u00fasica de Paulinho. <\/p>\n<p>Acho lindo o primeiro verso. Trata-se mesmo de um bom malandro que s\u00f3 vem quando pode e quer. Mas, ponderemos, traz o nome da mulher amada gravado no bojo da viola \u2013 e isto, sim, legitima a bel\u00edssima prova de amor. Ali\u00e1s, \u00e9 mesmo um homem apaixonado, reparem. Logo ap\u00f3s descrever, um a um, os epis\u00f3dios que viveu, n\u00e3o esquece de lhe declarar imensur\u00e1vel amor. Assim, rev\u00ea \u201co sorriso que ela entrega para o c\u00e9u\u201d quando ele a aperta em seus bra\u00e7os. Assim, quer aprender, com ela, \u201ca forma de se viver\u201d. Assim \u2013 e por ela \u2013 faz \u201cum samba puro de amor\u201d. <\/p>\n<p>Coisas do Mundo, Minha Nega encerra o dom de nos fazer caminhar lado a lado com o sambista. Faz tamb\u00e9m com que sejamos c\u00famplices do jeito encantado com que ele segue vida afora. Por fim, nos convence plenamente da verdade latente no verso final.<\/p>\n<p>\u201cAs coisas est\u00e3o no mundo<br \/>\nS\u00f3 que eu preciso aprender\u201d.<\/p>\n<p>O tempo fez justi\u00e7a ao samba. Continua lind\u00edssimo, 40 anos depois \u2013 ali\u00e1s, como s\u00f3 acontece \u00e0s verdadeiras obras de arte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gosto de um samba do Paulinho da Viola \u2013 de um, n\u00e3o; gosto de v\u00e1rios, mas em especial me emociono com este Coisas do Mundo Minha Nega:<\/p>\n<p>\u201cHoje eu vim minha nega<br \/>\nComo venho quando posso<br \/>\nNa boca as mesmas palavras<br \/>\nNo peito o mesmo remorso<br \/>\nNas m\u00e3os a mesma viola<br \/>\nonde gravei o teu nome  <\/p>\n<p>Venho do samba h\u00e1 tempo,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10747","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10747","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10747"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10747\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17158,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10747\/revisions\/17158"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10747"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10747"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10747"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}