{"id":10753,"date":"2007-09-20T00:00:00","date_gmt":"2007-09-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:56:33","modified_gmt":"2017-09-15T19:56:33","slug":"incidente-em-thomar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/incidente-em-thomar\/","title":{"rendered":"Incidente em Thomar"},"content":{"rendered":"<p>Decididamente, n\u00e3o esper\u00e1vamos viver em Thomar o mais divertido dos incidentes provocados pelo idioma portugu\u00eas que praticamos e aquele que falam nossos patr\u00edcios de Al\u00e9m-Mar. Ora pois pois&#8230;<\/p>\n<p>Tomar \u00e9 uma pequena cidade da regi\u00e3o central de Portugal. \u00c0 primeira vista, n\u00e3o tem l\u00e1 grandes atra\u00e7\u00f5es, al\u00e9m do Castelo dos Templ\u00e1rios e de um hist\u00f3rico aqueduto. Como manda a boa tradi\u00e7\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m um rio que corta a aldeia e d\u00e1 um charme especial ao lugar. Foram, no entanto, as suntuosas acomoda\u00e7\u00f5es de um hotel cinco estrelas que nos convenceram a ali permanecer por mais alguns dias. As acomoda\u00e7\u00f5es e o pre\u00e7o das di\u00e1rias \u2013 consideravelmente abaixo do que enfrent\u00e1vamos naquela temporada.<\/p>\n<p>L\u00e1 se v\u00e3o quase 10 anos desse passeio. Mas, n\u00e3o esqueci <\/p>\n<p>Andamos por Lisboa, \u00c9vora, F\u00e1tima, Coimbra, Porto, Braga, e arredores. Mas, eu particularmente gostei demais da cidade dos Templ\u00e1rios &#8211; e n\u00e3o me perguntem o porqu\u00ea, pois n\u00e3o saberei responder.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Bem, mas o motivo deste post n\u00e3o \u00e9 exatamente o que eu acho ou deixo de achar desta ou daquela cidade. \u00c9, sim, uma bela atrapalhada que nos proporcionou o idioma p\u00e1trio.  <\/p>\n<p>Vou contar.<\/p>\n<p>Assim que chegamos em Thomar, procuramos um restaurante. Est\u00e1vamos esfomeados. Os gar\u00e7ons em mangas de camisa preparavam-se para encerrar o expediente da tarde. Que, diga-se, \u00e9 h\u00e1bito l\u00e1 deles fechar a casa logo ap\u00f3s o almo\u00e7o e s\u00f3 reabrir l\u00e1 pelas 19 horas ou 19h30. Fa\u00e7o a refer\u00eancia para que imaginem a express\u00e3o dos gajos quando viram aboletar-se restaurante adentro um grupo de barulhentos brasileiros.<\/p>\n<p>Mesmo assim, educadamente, dois deles recolocaram os jalecos e vieram em nossa dire\u00e7\u00e3o. Claro que demoramos na escolha dos pratos. Olha o card\u00e1pio daqui, olha dali. Confere o prato na coluna da esquerda \u2013 bom, muito bom. Analisa a coluna da direita, a dos pre\u00e7os \u2013 ah!, n\u00e3o, salgado demais. Vira e mexe. P\u00f5e e tira. Chega-se a conclus\u00e3o natural dessas horas incertas. <\/p>\n<p>Escolher\u00edamos um prato para dividir entre duas pessoas. <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que veio a pergunta inevit\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8212; \u00d4 amigo, o prato \u00e9 bem servido?<\/p>\n<p>Vimos a bochecha do gar\u00e7om avermelhar, a testa franzir. Mas, s\u00f3 percebemos a bobagem que lhe dissemos quando ouvimos a resposta atravessada:<\/p>\n<p>&#8212; Senhores, estou nesta casa h\u00e1 mais de 30 anos e n\u00e3o vou tolerar suspeitas ao meu trabalho. Quem sabe do servir aqui sou eu. Posso lhes garantir \u2013 e invoco o testemunho dos meus iguais \u2013 que nunca houve qualquer reclama\u00e7\u00e3o \u00e0s minhas boas maneiras de fazer a casa.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Foi um sufoco para que compreendesse: s\u00f3 quer\u00edamos saber se o prato dava para duas pessoas.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, o que os senhores est\u00e3o a dizer? Como assim? O prato n\u00e3o oferece, nem d\u00e1 nada a ningu\u00e9m. \u00c9 apenas um prato, uma lou\u00e7a, um objeto&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 que quer\u00edamos dividir, repartir a comida&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ora, cada um se alimenta do jeito que lhe convier. N\u00e3o vamos impor aos nossos fregueses que comam de uma vez s\u00f3 ou em partes. N\u00e3o estou a entender.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pensou em arriscar a comunica\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas \u2013 o idioma universal. Outro se disp\u00f4s a fazer m\u00edmica. Desconfiei que o cara estava de goza\u00e7\u00e3o. Mas, deu para perceber que ele pr\u00f3prio n\u00e3o se via confort\u00e1vel na situa\u00e7\u00e3o. S\u00f3 n\u00e3o esper\u00e1vamos que a confus\u00e3o aumentasse \u2013 e para pior.<\/p>\n<p>Uma senhora dotada de \u201csuculentas carnes\u201d saiu da cozinha e veio em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s mesas. Carregava uma bandeja recheada de doces de ovos \u2013 ou \u201cd\u00f3vos\u201d, como dizem por l\u00e1. Lindos, avantajados, tentadores, os doces. <\/p>\n<p>Ao passar, um dos nossos levantou-se e arregalou os olhos naquela fartura toda Provavelmente atarantado pela fome, n\u00e3o mediu as palavras ao indagar sobre o destino daquelas preciosidades.<\/p>\n<p>&#8212; Aonde vai essa coisa gostosa?<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o obteve resposta. <\/p>\n<p>Claro que reinou um sil\u00eancio absoluto na casa. <\/p>\n<p>Claro que deu confus\u00e3o &#8212; e da grossa.<\/p>\n<p>A senhora era c\u00f4njuge do nosso obtuso gar\u00e7om. Que mais uma vez fez a leitura que quis do epis\u00f3dio. <\/p>\n<p>&#8212; Olha que eu te parto as fu\u00e7as, seu abusado.<\/p>\n<p>Por sorte, tamb\u00e9m em Portugal existe a turma do &quot;deixa pra l\u00e1&quot;. Foram os tais que seguraram a fera ferida. Por mais que invoc\u00e1vamos inoc\u00eancia e que o brasileiro referia-se aos doces, o portuga urrava:<\/p>\n<p>&#8212; Chamar de gostosa, v\u00e1 l\u00e1. At\u00e9 fa\u00e7o gosto, pois gostosa o \u00e9 de fato e, ali\u00e1s, farto-me bem dessas gostosuras. Mas, n\u00e3o vou permitir. Ah!, nunca permitirei que coisifiquem nada do que \u00e9 meu. Defini-la como coisa? Isto n\u00e3o admito&#8230; <\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, ainda hoje n\u00e3o sabemos se o lusitano despirocou de ci\u00fames da senhora ou do que estava sobre a bandeja. De qualquer forma, naquele dia, preferimos trocar o almo\u00e7o por um caf\u00e9 em uma leiteria \u2013 mas isto \u00e9 uma outra hist\u00f3ria que fica para uma pr\u00f3xima vez.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Decididamente, n\u00e3o esper\u00e1vamos viver em Thomar o mais divertido dos incidentes provocados pelo idioma portugu\u00eas que praticamos e aquele que falam nossos patr\u00edcios de Al\u00e9m-Mar. 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