{"id":10755,"date":"2007-09-22T00:00:00","date_gmt":"2007-09-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2020-09-21T18:18:59","modified_gmt":"2020-09-21T18:18:59","slug":"todas-as-cartas-de-amor-sao-ridiculas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/todas-as-cartas-de-amor-sao-ridiculas\/","title":{"rendered":"Todas as cartas de amor s\u00e3o rid\u00edculas"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0 defini\u00e7\u00e3o do poeta Fernando Pessoa,<br \/>\noutras hoje se interp\u00f5em:<\/p>\n<p>Todos os recados de amor s\u00e3o rid\u00edculos.<br \/>\nTodos os emails.<br \/>\nTodos os torpedos, via celular.<br \/>\nTodos os scraps no orkut.<\/p>\n<p>Todas as mensagens de amor s\u00e3o assim,<br \/>\nportanto, rid\u00edculas<\/p>\n<p>Por isso, naquele momento,<br \/>\nele tamb\u00e9m se sentiu assim.<br \/>\nRid\u00edculo.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, rid\u00edculo e meio&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Fora muito al\u00e9m dos seus planos.<br \/>\nPerdera o controle. O senso.<br \/>\nO ju\u00edzo.<\/p>\n<p>Perdera a vergonha de se envergonhar.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o faria por ela?<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>A pergunta ficou sem resposta.<\/p>\n<p>Como outras tantas ficaram ao longo<br \/>\ndaquele ano e meio, de idas e vindas.<br \/>\nSim e n\u00e3o.<br \/>\nCerto e errado.<br \/>\nAlegrias e tristezas.<\/p>\n<p>Quase ia pensando \u201crisos e l\u00e1grimas\u201d,<br \/>\nmas corrigiu em tempo.<\/p>\n<p>Achou, com raz\u00e3o, soaria dram\u00e1tico.<\/p>\n<p>Se ela estivesse por perto,<br \/>\nna certa ralharia bem a seu modo:<\/p>\n<p>&#8212; Nossa, voc\u00ea faz drama pra tudo.<\/p>\n<p>Sorriu um breve sorriso.<br \/>\nMas teve de concordar com a observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Lembrou-se daquela noite&#8230;<br \/>\nN\u00e3o lhe reconheceu a voz ao telefone.<br \/>\nArrastada, densa.<br \/>\nDe algu\u00e9m transtornada.<\/p>\n<p>&#8212; O que voc\u00ea quer?<\/p>\n<p>Estranhou.<br \/>\nPerguntou se era ela mesma.<br \/>\nPorque ele era ele &#8211;<br \/>\ne n\u00e3o entendeu nada.<\/p>\n<p>&#8212; Amanh\u00e3 a gente conversa.<\/p>\n<p>Ela despachou.<br \/>\nEle insistiu.<\/p>\n<p>Perguntou o que estava acontecendo.<\/p>\n<p>&#8212; Nada. Me deixe em paz.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Depois do desenlace, obrigou-se a dormir.<br \/>\nN\u00e3o quis ficar zumbizando<br \/>\npelo apartamento como sempre<br \/>\nlhe acontecia nessas toscas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>Tentou em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o era meia-noite e<br \/>\no toque do celular lhe animou.<br \/>\nPor segundos.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendeu o bizarro daquela<br \/>\nmusica ritmada que escolhera<br \/>\npara lhe alertar das chamadas.<\/p>\n<p>Foi \u00e0 \u00e9poca em que a conheceu e<br \/>\nimaginou ter encontrado a mulher<br \/>\nda sua vida. Andava nas nuvens.<\/p>\n<p>Agora definia-se como rid\u00edculo<br \/>\nao lembrar todo aquele sentimentalismo.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, sobram-lhe motivos para<br \/>\nachar que exagerou nas escolhas,<br \/>\ndo toque e da dita-cuja.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Naquela noite, o cora\u00e7\u00e3o descontrolou-se<br \/>\nporque era assim que ela sempre fazia.<\/p>\n<p>Minutos depois de discutirem \u2013 e<br \/>\ncomo discutiam! \u2013 telefonava e<br \/>\npedia desculpas. De uma forma ou<br \/>\nde outra sempre se entendiam.<\/p>\n<p>E assim prosseguiam&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Estranho pressentimento.<br \/>\nLevou o aparelho ao ouvido<br \/>\ncom a exata sensa\u00e7\u00e3o do fim.<\/p>\n<p>Dissesse o que dissesse<br \/>\nnunca mais seriam os mesmos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, deixou-se estar deste<br \/>\nlado da linha sem nada dizer.<br \/>\nOuviu apenas.<\/p>\n<p>Curvo, d\u00e9bil, sem for\u00e7a ou<br \/>\nvontade para enfrentar<br \/>\no ef\u00eamero de mais esta<br \/>\nrid\u00edcula hist\u00f3ria de amor.<\/p>\n<p>Triste, triste&#8230;<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>&#8220;Todas as cartas de amor s\u00e3o rid\u00edculas.<\/p>\n<p>N\u00e3o seriam cartas de amor<br \/>\nse n\u00e3o fossem rid\u00edculas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m escrevi em meu tempo cartas<br \/>\nde amor. Como as outras, rid\u00edculas.<\/p>\n<p>As cartas de amor, se h\u00e1 amor,<br \/>\nT\u00eam de ser rid\u00edculas.<\/p>\n<p>Mas, afinal, s\u00f3 as criaturas que<br \/>\nnunca escreveram cartas de amor<br \/>\n\u00e9 que s\u00e3o rid\u00edculas.<\/p>\n<p>Quem me dera no tempo em que escrevia<br \/>\nSem dar por isso cartas de amor rid\u00edculas.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que hoje as minhas mem\u00f3rias<br \/>\ndessas cartas de amor \u00e9 que s\u00e3o rid\u00edculas.<\/p>\n<p>(Todas as palavras esdr\u00faxulas,<br \/>\nComo os sentimentos esdr\u00faxulos,<br \/>\nS\u00e3o naturalmente rid\u00edculas.)&#8221;<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Tanto tempo depois,<br \/>\nao ler o soneto de Fernando Pessoa<br \/>\n(assinado pelo heter\u00f4nimo \u00c1lvaro Campos),<br \/>\nsurpreendeu-lhe a lembran\u00e7a<br \/>\ndaquela noite que se perdeu no tempo<br \/>\nsem volta do passado. N\u00e3o lhe reacendeu<br \/>\na paix\u00e3o ou mesmo frugais esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>N\u00e3o se fez nost\u00e1lgico ou<br \/>\nmelanc\u00f3lico. Apenas triste, triste&#8230;<\/p>\n<p>De uma tristeza definitiva, irrevog\u00e1vel.<br \/>\nRid\u00edcula como as cartas de amor<br \/>\nque nunca soube escrever&#8230;<\/p>\n<p>* Em tempo:<br \/>\nTodos os posts de amor s\u00e3o rid\u00edculos<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0 defini\u00e7\u00e3o do poeta Fernando Pessoa,<br \/>\noutras hoje se interp\u00f5em:<\/p>\n<p>Todos os recados de amor s\u00e3o rid\u00edculos.<br \/>\nTodos os emails.<br \/>\nTodos os torpedos, via celular.<br \/>\nTodos os scraps no orkut.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10755","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10755"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10755\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24273,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10755\/revisions\/24273"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}