{"id":10760,"date":"2007-09-27T00:00:00","date_gmt":"2007-09-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:51","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:51","slug":"roberto-dias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/roberto-dias\/","title":{"rendered":"Roberto Dias"},"content":{"rendered":"<p>Aqui na Terra v\u00e3o jogando futebol&#8230;<\/p>\n<p>Mas, a Sele\u00e7\u00e3o de Todos os Tempos sofreu ontem outro s\u00e9rio desfalque.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se voc\u00eas sabem. Todos os que amam o futebol tem uma Sele\u00e7\u00e3o de Todos os Tempos &#8212; popularmente conhecida como sele\u00e7\u00e3o dos sonhos. \u00c9 imposs\u00edvel gostar do esporte sem cair em devaneios e proje\u00e7\u00f5es do time perfeito a reunir atletas de todos os estilos, de todas as eras. <\/p>\n<p>Tais devaneios come\u00e7am logo cedo. <\/p>\n<p>Assim que o menino d\u00e1 o primeiro chute em uma bola e se imagina o centro do mundo, o rei dos est\u00e1dios. Em outras palavras, o pr\u00f3prio boleiro em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aos da minha gera\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8212; Quem a\u00ed nunca se imaginou um Pel\u00e9, um Garrincha, um Gilmar?<\/p>\n<p>Chico Buarque, ainda hoje quando joga futebol com os amigos, diz ser Pag\u00e3o, centro-avante do Santos nos anos 50 e in\u00edcio dos 60.<\/p>\n<p>Mas, isto \u00e9 outra hist\u00f3ria. Um dia, eu conto&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 f\u00e1cil supor que leg\u00edtima \u201cSele\u00e7\u00e3o dos Sonhos\u201d vem l\u00e1 dos cafund\u00f3s livres da inf\u00e2ncia \u2013 e por isso mesmo \u00e9 absolutamente pessoal. Fundamental: obedece a um \u00fanico crit\u00e9rio, o encantamento.  <\/p>\n<p>No meu caso, o escrete \u00e9 formado por craques que convenceram o menino do Cambuci a fazer do futebol raz\u00e3o e vida.  Andei pra l\u00e1, andei pra c\u00e1. Mas, querem saber: desconfio que seja assim at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>\u00c0quelas priscas eras, n\u00e3o media sacrif\u00edcios ou tempo ruim para v\u00ea-los em a\u00e7\u00e3o. No Pacaembu (quase sempre), Parque Ant\u00e1rtica, Canind\u00e9, rua Javari e at\u00e9 mesmo campos de v\u00e1rzea&#8230; <\/p>\n<p>Via os jogos com a lente do sonhar.<\/p>\n<p>III. <\/p>\n<p>N\u00e3o importava qual o time jogaria. Ia ver os deuses da bola. Aprender a magia do drible, a sutileza da antecipa\u00e7\u00e3o, o desconcerto do chute a gol, o del\u00edrio espont\u00e2neo da massa desorganizada, onde os torcedores se confraternizavam, mesmo de times dioferentes. <\/p>\n<p>Eu ficava, ali, junto ao alambrado, est\u00e1tico diante da surpresa do minuto seguinte. <\/p>\n<p>A TV n\u00e3o era ainda c\u00famplice \u2013 e algoz \u2013 do chamado \u2018esporte-rei\u2019. Um ou outro jogo do campeonato paulista era transmitido nas tardes de domingo. Mesmo com o advento do v\u00eddeo-tape, o espa\u00e7o do futebol na TV era ming\u00fcado.<\/p>\n<p>Ou seja, o futebol era jogado, assistido in loco e reinventado em nosso delicioso delirar.<\/p>\n<p>Da\u00ed o encantamento ser imprescind\u00edvel&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Um dia talvez descreva aqui, em detalhes e porqu\u00eas, os titulares e reservas do meu dream-team. Hoje, por\u00e9m, quero reverenciar a mem\u00f3ria de Roberto Dias que morreu ontem, em S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p>Dias tinha 64 anos e foi, ao lado do goleiro argentino Jos\u00e9 Poy, o grande nome do S\u00e3o Paulo Futebol Clube nas d\u00e9cadas de 60 e 70. <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Como voc\u00eas sabem, sou palmeirense. Mas, era extraordin\u00e1rio ver Roberto Dias jogar. Toque refinado, bom cobrador de falta, um jogador inteligente. Come\u00e7ou como m\u00e9dio-volante \u2013 formou o meio de campo da sele\u00e7\u00e3o ol\u00edmpica ao lado de Gerson, em 1960. Depois passou a atuar como quarto-zagueiro, esbanjando um talento raro para os jogadores da posi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Pel\u00e9 o considerou seu melhor marcador.<\/p>\n<p>Precisa dizer mais?<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Rigorosamente leal. N\u00e3o dava pontap\u00e9s. Antecipava-se com precis\u00e3o, pois conhecia os tais misteriosos e imprecisos atalhos do campo. Mesmo de pouca estatura e f\u00edsico franzino, sabia se impor na zaga pelo fino trato que dava \u00e0 redonda.<\/p>\n<p>O menino do Cambuci queria jogar igual a ele. <\/p>\n<p>Ser o anjo da guarda da defesa&#8230;<\/p>\n<p>(Mas, o garoto adorava dar &#8216;carrinhos&#8217; e chut\u00f5es, trangress\u00f5es que n\u00e3o cabiam a divindades como Roberto Dias.) <\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Um epis\u00f3dio foi determinante, creio, na carreira \u2013 e talvez na pr\u00f3pria vida do craque. Quem me contou foi um velho jornalista que o encontrou na casa da noiva em S\u00e3o Paulo, onde o atleta se refugiou logo ap\u00f3s o corte da sele\u00e7\u00e3o brasileira de 1966, \u00e0s v\u00e9speras da Copa da Inglaterra.<\/p>\n<p>&#8212; Ele estava muito triste, arrasado. N\u00e3o sei se conseguiu se recuperar da frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o jogar uma Copa. <\/p>\n<p>Dias formava dupla de \u00e1rea no S\u00e3o Paulo com Jurandir, e vivia seu melhor momento. Como se dizia \u00e0 \u00e9poca, \u201ccarregava o time nas costas\u201d. <\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia qualquer d\u00favida: era o melhor do Brasil.<\/p>\n<p>O Brasil era bicampe\u00e3o do mundo. A euforia do tri era descomonunal.  A ent\u00e3o CBD transformou em um grande festival a prepara\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o brasileira. Foram convocados 44 jogadores \u2013 4 para cada posi\u00e7\u00e3o \u2013 para um per\u00edodo de treinos no circuito das \u00e1guas em Minas, em Serra Negra (interior de S\u00e3o Paulo) e finalmente no Rio de Janeiro. <\/p>\n<p>Durante esses coletivos, iriam acontecendo os cortes.  <\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>O Brasil perdeu a Copa de 66. Foram erros demais&#8230;<\/p>\n<p>Um deles o corte de Roberto Dias, logo entre as primeiras levas de atletas. <\/p>\n<p>O menino do Cambuci, que nada sabia de vilanias, continuou sem entender como algum time do Planeta Bola poderia dispensar o talento de um jogador daqueles. Titular absoluto da definitiva e fant\u00e1stica da minha imbat\u00edvel Sele\u00e7\u00e3o de Todos os Tempos ao lado de Castilho, Djalma Santos, Djalma Dias, Altair (o melhor marcador de Garrincha), Ademir da Guia, Didi, Garrincha (Julinho), Mazzola, Pel\u00e9 e Canhoteiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aqui na Terra v\u00e3o jogando futebol&#8230;<\/p>\n<p>Mas, a Sele\u00e7\u00e3o de Todos os Tempos sofreu ontem outro s\u00e9rio desfalque.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se voc\u00eas sabem. 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