{"id":10765,"date":"2007-10-02T00:00:00","date_gmt":"2007-10-02T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:50","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:50","slug":"boemia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/boemia\/","title":{"rendered":"Boemia"},"content":{"rendered":"<p>Um grupo de estudantes de jornalismo vem desenvolvendo um livro-reportagem sobre o Bixiga, tradicional bairro paulistano em que passado, presente e futuro (assim, assim) se misturam a refletir a S\u00e3o Paulo de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Trata-se de um TCC. Isto \u00e9: Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso. Sou o (des)orientador da turma \u2013 na verdade, tr\u00eas garotas e um rapaz.<\/p>\n<p>T\u00eam sido divertidas nossas reuni\u00f5es. Ao menos para mim, especialmente pelas hist\u00f3rias que eles me trazem e contam. Desde o in\u00edcio, ficou claro que h\u00e1 coisas que podem acontecer em qualquer lugar desta desvairada paulic\u00e9ia. Mas, est\u00e1 comprovado: no Bixiga, seguramente acontecem todas elas \u2013 e mais algumas.<\/p>\n<p>Das andan\u00e7as que os quatro fizeram por ali, saltam personagens surpreendentes. Mas, este \u00e9 assunto para o livro dos meninos \u2013 e n\u00e3o para o post. Sen\u00e3o v\u00e3o me cobrar pr\u00e9vios e leg\u00edtimos direitos autorais.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Hoje cedo chamou minha aten\u00e7\u00e3o \u2013 e motivou este coment\u00e1rio, que espero breve \u2013 um dos emails que recebi dos alunos, com a abertura de um cap\u00edtulo. Adivinhem quais os versos que apareciam como ep\u00edgrafe?  A \u00edntegra da letra de \u201cBoemia\u201d, de Adelino Moreira, magnificamente interpretada, em \u00e1ureos tempos, por N\u00e9lson Gon\u00e7alves. Ali\u00e1s, foi a obra-prima da dupla.<\/p>\n<p>\u201cVai embora<br \/>\nS\u00f3 me resta o consolo e a alegria&#8230;<br \/>\nDe saber que depois da boemia<br \/>\n\u00c9 de mim que voc\u00ea&#8230;<br \/>\nGosta mais\u201d<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Fiquemos por aqui na poesia e vamos ao tema do post de hoje&#8230;<\/p>\n<p>Bo\u00eamios e boemia.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que ainda existem os tais, como nos velhos e idos tempos?<\/p>\n<p>Talvez no Bixiga&#8230;<\/p>\n<p>Ou nem l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Acho mesmo que nem os da minha gera\u00e7\u00e3o exercitaram a boemia, como manda o figurino da eterna can\u00e7\u00e3o. Isso foi coisa para a rapaziada de priscos tempos. Anos 40, 50. 60, talvez. <\/p>\n<p>O Brasil vivia o esplendor da Era do R\u00e1dio. A capital ainda era o Rio de Janeiro. Dali ressoavam brasis afora. Cassinos, ternos bem cortados. O cigarro no canto da boca. A gravata em desalinho. O \u00faltimo bonde. A decisiva influ\u00eancia do cinema americano. Todos eram um pouco Humphrey Bogart, em Casa Blanca.<\/p>\n<p>Era comum ouvir-se o coment\u00e1rio:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 um bom rapaz. Mas, adora uma farra.<\/p>\n<p>Ou seja, um \u201cmal partido\u201d para as mocinhas de fam\u00edlia, casadoiras.<\/p>\n<p>Num post recente, lembrei deles a caminhar em sentido contrario \u00e0 prociss\u00e3o da alta madrugada do domingo de P\u00e1scoa. Voltavam do baile do S\u00e1bado de Aleluia, onde rasgavam a fantasia e descontavam os pudores reservados \u00e0 Quaresma.<\/p>\n<p>O post \u00e9 o Me Fale de Voc\u00ea (2), de 28 de setembro.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Mas, voltemos \u00e0 boemia&#8230;<\/p>\n<p>Cabe explicar que em nada tem a ver com essa moda bisonha do happy hour ou mesmo com generaliza\u00e7\u00f5es, tipo \u201csair de balada\u201d. <\/p>\n<p>Entenda-se.<\/p>\n<p>Boemia era coisa para homens que varavam a madrugada em bares a procurar algo ou algu\u00e9m. Uma felicidade et\u00e9rea que sequer os pr\u00f3prios ousavam explicar. Havia uma \u00e1urea rom\u00e2ntica.  Bebiam, cantavam, compunham, faziam versos. Falavam de amores imposs\u00edveis. Encontravam as mulheres da noite que n\u00e3o eram exatamente boemias. <\/p>\n<p>N\u00e3o hora para acabar. <\/p>\n<p>Apenas, n\u00e3o resistiam a luz do dia&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Desnecess\u00e1rio dizer que, tal a musa da can\u00e7\u00e3o acima, a mulher por quem eram apaixonados ficava em casa. Inimagin\u00e1vel ela sequer esbarrar naquela vida de perdi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, a m\u00e3e dos futuros filhos daqueles incautos senhores&#8230;<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, quem beirasse os trinta j\u00e1 era tratado de senhor \u2013 e, curioso, gostava de receber o tratamento cerimonioso.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Havia, claro, aqueles que perdiam o controle. De repente, se viam perdidamente apaixonados pelas &quot;mariposas&quot; que freq\u00fcentavam os inferninhos (boates, bares e que tais). Mas, este era o tema preferido de outro compositor, igualmente fant\u00e1stico: Lupisc\u00ednio Rodrigues&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 versos definitivos sobre o assunto na pungente \u201cQuem H\u00e1 de Dizer\u201d:<\/p>\n<p>\u201cEla nasceu<br \/>\nCom o destino da Lua<br \/>\nPra todos<br \/>\nQue andam na rua<br \/>\nN\u00e3o vai viver<br \/>\nS\u00f3 pra mim\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um grupo de estudantes de jornalismo vem desenvolvendo um livro-reportagem sobre o Bixiga, tradicional bairro paulistano em que passado, presente e futuro (assim, assim) se misturam a refletir a S\u00e3o Paulo de todos n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10765","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10765","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10765"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10765\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17140,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10765\/revisions\/17140"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10765"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10765"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10765"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}