{"id":10769,"date":"2007-10-06T00:00:00","date_gmt":"2007-10-06T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:50","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:50","slug":"phono-73","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/phono-73\/","title":{"rendered":"Phono 73"},"content":{"rendered":"<p>&#8212; Vamos ao que se pode&#8230;<\/p>\n<p>A express\u00e3o do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda ecoou pelo Pal\u00e1cio das Conven\u00e7\u00f5es do Anhembi, durante uma iniciativa da ent\u00e3o gravadora Phonogran de reeditar os gloriosos tempos dos festivais. O evento chamou-se Phono 73 e, por iniciativa do superintendente-executivo, o mago Andr\u00e9 Midani, reuniu todo o milion\u00e1rio elenco da gravadora \u2013 al\u00e9m de Chico, Caetano, Gil, Elis, Vinicius, Nara Le\u00e3o, Beth\u00e2nia, Gal, Jair Rodrigues, Raul Seixas entre outros. Os artistas se apresentaram em duplas \u2013 por vezes, exc\u00eantricas como Caetano Veloso e Odair Jos\u00e9, outras por afinidade como Ivan Lins e MPB-4, mas todas, todas mesmo com a proposta de surpreender a plat\u00e9ia.<\/p>\n<p>A ent\u00e3o MPB j\u00e1 n\u00e3o contava com a cumplicidade da televis\u00e3o para catapultar os grandes nomes \u00e0 popularidade que alcan\u00e7aram nos fe\u00e9ricos anos 60. Por isso, Midani quis reviver ainda que, num breve fim de semana, os tempos idos e febris. Reviver o que se fez na Record e na Globo era uma forma desgastada. Por isso, tentou inovar e criou a hist\u00f3ria das duplas inusitadas, impens\u00e1veis. <\/p>\n<p>A partir dessa proposta, coube a Chico Buarque cantar a in\u00e9dita \u201cC\u00e1lice\u201d com seu suposto \u2018desafeto\u2019 Gilberto Gil numa apresenta\u00e7\u00e3o mais do que esperada. Por dois motivos. Primeiro porque havia aquela hist\u00f3ria do Festival da Record de 68. Gil estaria na plat\u00e9ia do Teatro Record a comandar o coro de vaias a Chico e MPB-4 que interpretavam a bem-comportada \u2018Bem-Vinda\u2019. Gil e Caetano participaram com a can\u00e7\u00e3o \u201c\u00c9 Proibido Proibir\u201d, defendida pela explosiva Gal Costa. No livro \u201cVerdade Tropical\u201d, Caetano Veloso desfez esse equ\u00edvoco. Mas, \u00e0quela \u00e9poca, a vers\u00e3o era de que Chico e os tropicalistas n\u00e3o se topavam. O segundo motivo era a apresenta\u00e7\u00e3o de \u201cC\u00e1lice\u201d, m\u00fasica que, segundo coment\u00e1rios, havia escapado, sabe-se l\u00e1 como, pela sanha dos censores federais. Havia o frisson de testemunhar a mais esse ato de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Chico cantou \u201cBaioque\u201d e, logo a seguir, chamou Gil ao palco. A plat\u00e9ia prendeu a respira\u00e7\u00e3o. Com ar de tranq\u00fcilidade, os m\u00fasicos trocaram algumas palavras entre si \u2013 o que deu a entender era uma prepara\u00e7\u00e3o especial para a can\u00e7\u00e3o da noite. De repente, antes do primeiro acorde, o teatro ficou \u00e0s escuras e os artistas sem som no microfone. <\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o dos censores se fez presente a revelar o momento de obscurantismo em que viv\u00edamos. Um s\u00fabito corte da rede el\u00e9trica deixou a plat\u00e9ia em p\u00e2nico. E agora o que viria?<\/p>\n<p>Diante da indigna\u00e7\u00e3o dos m\u00fasicos e para evitar o pior, Chico preferiu contemporizar. A voz do int\u00e9rprete se faz ouvir, mesmo sem a amplitude das caixas de som.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos ao que se pode. Ao que se pode&#8230;<\/p>\n<p>Luzes acesas. Microfones ligados. <\/p>\n<p>E ele cantou a rom\u00e2ntica \u201cNoites dos Mascarados\u201d.<\/p>\n<p>&#8212; Quem \u00e9 voc\u00ea&#8230; Adivinha se gosta de mim&#8230;<\/p>\n<p>O leitor mais atento j\u00e1 deve ter percebido que este n\u00e3o \u00e9 um pref\u00e1cio convencional. Perdoe-me a ousadia, pois, caro leitor. Mas, assim que recebi o honroso convite para prefaciar esse livro-reportagem, se fez imposs\u00edvel para mim n\u00e3o tocar esse enfileirar de letrinhas sem falar diretamente com Ariane, Renata, Lory, Andr\u00e9, Pedro e Rafael, os autores e diletos alunos. Lembrar a hist\u00f3ria da Phono-73 foi o passo seguinte. Tentei, mas n\u00e3o houve como escapar \u00e0 saga de registra-la aqui. Os motivos me s\u00e3o claros, e caros.<\/p>\n<p>01. Como eles, tinha \u00e0quela \u00e9poca pouco mais de 20 anos \u2013 22 para ser exato &#8211;, cursava uma faculdade de jornalismo e trazia, assim como eles hoje, meu alforje repleto de sonhos e vontades. Mas, tamb\u00e9m havia espa\u00e7o para d\u00favidas e incertezas. Ang\u00fastias. Sentimentos pr\u00f3prios a quem encerra um ciclo e prepara-se para enfrentar uma realidade que n\u00e3o conhece e lhe \u00e9 imprevis\u00edvel. Creio que, mesmo neste ponto, n\u00e3o devo ter sido t\u00e3o diferente do que vivem agora.<\/p>\n<p>02. Quero dar boas-vindas \u00e0 rapaziada. Por que? Ora, ora. Vou explicar: estar ali no Anhembi me deu a dimens\u00e3o do que seguiria vida afora. Ser jornalista era a seta. Trabalhar com m\u00fasica \u2013 e com m\u00fasica brasileira \u2013, o alvo. Agora, vejo-me a passar o bast\u00e3o (e o projeto) a eles. Sinto-me feliz e despreocupado. Mas, adianto: trope\u00e7os e derrapadas s\u00e3o naturais a esse \u00e1rido caminho chamado jornalismo cultural, onde eles, se me permitem a revela\u00e7\u00e3o, j\u00e1 se enredaram ao escolher o tema deste Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso. De qualquer forma, vou tranq\u00fciliza-los. N\u00e3o se ganha muito, \u00e9 certo. Mas, vale o sacrif\u00edcio. A cada nova can\u00e7\u00e3o de um Chico Buarque, faz-se a esperan\u00e7a. Nossa moeda \u00e9 a utopia, o sonho. <\/p>\n<p>03. Escolher os personagens de Chico Buarque como inspira\u00e7\u00e3o, encontra-los pelas ruas e becos, dar-lhes cores e sentimentos \u00e9 tarefa para raros e sens\u00edveis. E eles souberam como transformar em realidade os versos sinuosos do compositor. Deram forma, nome e recontaram a Hist\u00f3ria. Transformaram personagens em cidad\u00e3os. Dores e amores em li\u00e7\u00e3o de vida. Vida, sim. Vida e arte no cotidiano da nossa gente mais humilde, os desvalidos, os her\u00f3is marginais de um Pa\u00eds chamado Brasil \u2013 objetivo maior das can\u00e7\u00f5es e de nossas humildes palavras.<\/p>\n<p>*(Outubro de 2004)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8212; Vamos ao que se pode&#8230;<\/p>\n<p>A express\u00e3o do cantor e compositor Chico Buarque de Holanda ecoou pelo Pal\u00e1cio das Conven\u00e7\u00f5es do Anhembi, durante uma iniciativa da ent\u00e3o gravadora Phonogran de reeditar os gloriosos tempos dos festivais.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10769","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10769","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10769"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10769\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17136,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10769\/revisions\/17136"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10769"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10769"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10769"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}