{"id":10771,"date":"2007-10-08T00:00:00","date_gmt":"2007-10-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T20:36:23","modified_gmt":"2017-09-13T20:36:23","slug":"marcao-e-ze-jofre","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/marcao-e-ze-jofre\/","title":{"rendered":"Marc\u00e3o e Z\u00e9 Jofre*"},"content":{"rendered":"<p>Para Jo\u00e3o Paulo, Carol, Mariana e Magr\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Permitam-me um texto\/homenagem.<\/p>\n<p>Eu explico: a imprensa comunit\u00e1ria deve muito a dois quixotes. Seus nomes: Jos\u00e9 Jofre Soares e Ant\u00f4nio de Oliveira Marques, dois jornalistas com os quais tive o privil\u00e9gio de conviver em meados dos anos 70. Digamos que est\u00e3o entre os not\u00e1veis precursores da implanta\u00e7\u00e3o dos jornais de bairro na Capital e tamb\u00e9m no ABC. Eram principalmente dois sonhadores em busca da utopia de uma sociedade mais justa e solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Autodidatas, trabalharam em jornais di\u00e1rios paulistanos na d\u00e9cada de 40\/50. No in\u00edcio dos anos 60, por\u00e9m, fundaram ent\u00e3o alguns jornais de bairro na periferia de S\u00e3o Paulo e um em S\u00e3o Bernardo \u2013 a Gazeta de S\u00e3o Bernardo. A proposta era organizar a sociedade e dar \u201cvoz e vez\u201d, como gostava de dizer o Z\u00e9 Jofre, aos moradores dos n\u00facleos urbanos que come\u00e7avam a pipocar nos arredores da Grande S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Era o in\u00edcio do que, posteriormente, veio a se chamar de periferia. Uma proposta que se refor\u00e7ou ainda mais ap\u00f3s o Golpe Militar de 64 que arrasou a sociedade, dizimou partidos pol\u00edticos, sindicatos, associa\u00e7\u00f5es de estudantes e todo e qualquer n\u00facleo onde pudesse dar vaz\u00e3o aos reclamos sociais.<\/p>\n<p>Marc\u00e3o queria que as pessoas voltassem a se juntar e a entender que tinham um ideal comum. Que a luta era primeiramente por melhor qualidade de vida. Achava que o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o favorecia a uni\u00e3o de todos em torno de uma causa, visto que o perfil do habitante dessas regi\u00f5es era muito pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Aqui, cabe abrir par\u00eanteses: a conviv\u00eancia de ambos n\u00e3o era simples. O cearense Z\u00e9 Jofre, originariamente gr\u00e1fico, era adepto de caudalosos artigos doutrinadores, repletos de cita\u00e7\u00f5es. Artigos sistematicamente vetados por Marqu\u00eas sob a implac\u00e1vel alega\u00e7\u00e3o: \u201cUma lauda todo mundo l\u00ea. Duas, s\u00f3 os mais interessados. Tr\u00eas, nem a m\u00e3e da gente ag\u00fcenta, Z\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Jofre era useiro e vezeiro em cita\u00e7\u00f5es. Defendia-se: \u201cO povo s\u00f3 ser\u00e1 livre quando se autoconhecer. Mas, para tanto, vai precisar fazer uma auto-avalia\u00e7\u00e3o e reconhecer as verdadeiras condi\u00e7\u00f5es em que vive\u201d. Marc\u00e3o concordava em tese, mas discordava na pr\u00e1tica. Defendia uma organiza\u00e7\u00e3o social sem que houvesse qualquer tipo de tutela ou manipula\u00e7\u00e3o da imprensa, fosse ela qual fosse. \u201cPor isso, os jornais regionais s\u00e3o fundamentais. Entendem melhor a reivindica\u00e7\u00e3o, est\u00e3o mais pr\u00f3ximo das pessoas. S\u00e3o leg\u00edtimos instrumentos da luta que nasce nas entidades e associa\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Marques exercia uma ascend\u00eancia natural. Queria textos curtos, objetivos, na forma direta, sem qualquer adjetiva\u00e7\u00e3o. O fundamental \u00e9 que trouxessem a denuncia de uma quest\u00e3o real: um bra\u00e7o de rua, a falta de cal\u00e7amento, ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, de creches, escolas. Enfim, algo que colocasse o Poder P\u00fablico em xeque \u2013 e que, amanh\u00e3 ou depois, quando conquistado \u2013 revelasse concretamente a vit\u00f3ria de toda a comunidade.<\/p>\n<p>Conheci Marc\u00e3o e Jofre em meados de 74\/75 na reda\u00e7\u00e3o de Gazeta do Ipiranga. Marc\u00e3o era uma esp\u00e9cie de consultor geral e Jofre era respons\u00e1vel pela distribui\u00e7\u00e3o do jornal. Diria que eram nossos professores ou numa vers\u00e3o mais atualizada o ombudsman da reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marc\u00e3o morreu em 78, quando Gazeta do Ipiranga (onde ele e seus colaboradores concentraram todas as for\u00e7as) circulava com 24 p\u00e1ginas e tinha uma tiragem semanal de 43 mil exemplares.<\/p>\n<p>Um m\u00eas antes de seu falecimento, o pessoal foi visit\u00e1-lo em sua casa. Andava preocupado com a sa\u00fade e o futuro do comunitarismo. \u201cOs l\u00edderes n\u00e3o podem deixar que os pol\u00edticos profissionais invadam nossas entidade. A\u00ed, passa a valer o interesse pessoal sobre o coletivo\u201d.<\/p>\n<p>Antes de nos despedir, fez quest\u00e3o de nos mostrar uma folha amarelecida pelo tempo. Tinha a forma de uma primeira p\u00e1gina de jornal. Com olhar de crian\u00e7a, contou a mais encantadora peraltice de sua vida. Quando Get\u00falio Vargas morreu, houve grandes passeatas. Ele e os seus, ent\u00e3o, montaram aquela edi\u00e7\u00e3o-extra de uma \u00fanica p\u00e1gina, subiram nos pr\u00e9dios e a espalharam por toda a cidade. A manchete tamb\u00e9m era \u00fanica: \u201cQue o povo saia \u00e0s ruas e tome para si os rumos da Na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Jofre s\u00f3 ficou mais alguns meses no jornal ap\u00f3s a morte do amigo. Tempo suficiente para preparar a papelada da aposentadoria. Mudou-se para Bonito, no pantanal mato-grossense, onde um sobrinho lhe daria casa e comida. Z\u00e9 sempre foi um homem s\u00f3. Considerava que \u201ca luta n\u00e3o permitia certos luxos. Casar, por exemplo\u201d.<\/p>\n<p>Antes de partir, por\u00e9m, avisou o pessoal \u201cpara dar sumi\u00e7o nuns trens\u201d que n\u00e3o tinha como levar para a nova casa. L\u00e1 encontramos, em meio a uma dezena de litros vazios do vinho portugu\u00eas Gat\u00e3ozinho, livros, muitos livros e uma pasta repleta de anota\u00e7\u00f5es sobre a t\u00e3o sonhada \u201csociedade justa e solid\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Sonho este que esses jovens jornalistas acabam de herdar ao colocar nas ruas o primeiro n\u00famero desse promissor S\u00e3o Caetano Agora.<\/p>\n<p>* (Cr\u00f4nica publicada no primeiro n\u00famero do jornal<br \/>\n\u201cS\u00e3o Caetano Agora\u201d, lan\u00e7ado em julho de 2003.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Jo\u00e3o Paulo, Carol, Mariana e Magr\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Permitam-me um texto\/homenagem.<\/p>\n<p>Eu explico: a imprensa comunit\u00e1ria deve muito a dois quixotes. 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