{"id":10772,"date":"2007-10-09T00:00:00","date_gmt":"2007-10-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:50","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:50","slug":"o-menino-e-os-milagres","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-menino-e-os-milagres\/","title":{"rendered":"O menino e os milagres"},"content":{"rendered":"<p>Menino ainda, olhava desconfiado para os Irm\u00e3os Maristas sempre que, nas aulas religi\u00e3o, carregavam as tintas na descri\u00e7\u00e3o de um ou outro milagre. Acreditar, acreditar n\u00e3o acreditava, n\u00e3o. Mas, fazia de conta que sim. Afinal, al\u00e9m de ser bom de bola, s\u00f3 jogava na sele\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio Nossa Senhora da Gl\u00f3ria quem assistisse \u00e0s missas dominicais, impreterivelmente \u00e0s 8 horas. <\/p>\n<p>\u00c0s 9h30, dever cumprido, as duas equipes do Col\u00e9gio entravam em campo para mais uma dura porfia contra esquadras inimigas. N\u00e3o preciso dizer o fasc\u00ednio em azul e branco \u2013 as cores do Gl\u00f3ria \u2013 das manh\u00e3s de domingo. As inumer\u00e1veis partidas invictas eram provas cabais. Os jogos contra outros col\u00e9gios maristas \u2013 Arquidiocesano, Carmo ou Santista \u2013 se transformavam em verdadeiros acontecimentos.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Por isso, em nenhum momento, imaginou colocar em risco os dogmas eclesi\u00e1sticos.<\/p>\n<p>Rezava o ter\u00e7o, lia o missal, fazia as jaculat\u00f3rias, obedecia aos rituais e aos jejuns da Quaresma, confessava, comungava etc etc. O que pegava mesmo era, digamos assim, toda a dramaturgia dos milagres, sempre cantados em prosa e versos pelos irm\u00e3os e professores.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Vivia nesse impasse, mas n\u00e3o chegava se angustiar&#8230;<\/p>\n<p>Ang\u00fastia mesmo os boleiros do Gl\u00f3ria come\u00e7aram a vivenciar quando alguns craques do time completaram 14 anos e estouraram a idade de jogar na categoria infantil. No meio da temporada \u2013 e olha que ainda n\u00e3o havia essa brecha para o mercado europeu \u2013 era preciso refazer o time, pois logo viriam os tradicionais encontros entre as institui\u00e7\u00f5es maristas e ainda em setembro haveria dos Jogos Estudantis da Primavera. Um desafio para os irm\u00e3os Dem\u00e9trius e Fid\u00e9lis que cuidavam das equipes A (at\u00e9 14 anos) e B (at\u00e9 12 anos).<\/p>\n<p>Jogos entre classes durante os intervalos (as equipes eram identificadas por uma faixa transversal que o aluno-atleta colocava sobre o uniforme escolar). Treinos \u00e0s sextas ap\u00f3s as aulas para os que se destacavam; aos s\u00e1bados \u00e0 tarde quando esses enfrentavam os titulares. <\/p>\n<p>Enfim, um tour de force para \u2018fechar\u2019 os escolhidos para a tropa de elite do Col\u00e9gio.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>O Paschoal era um amigo querid\u00edssimo. Estavam na mesma s\u00e9rie. Gostavam das m\u00fasicas dos Beatles. Eram palmeirenses e tinham l\u00e1 outras afinidades. Mas, de bola, \u00e9 preciso reconhecer o Paschoal nunca foi. Era meio troncudo, desajeitado, corria meio penso para a direita. <\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Mas, como dizer para o amigo n\u00e3o participar da seletiva. Imposs\u00edvel, deu at\u00e9 uma for\u00e7a. Desejou sorte, inclusive quando o dito lhe disse que era centro-avante. <\/p>\n<p>No \u00edntimo, por\u00e9m, preparou-se para confortar o amigo ap\u00f3s o treino de sexta. Ele n\u00e3o era do ramo, mas n\u00e3o seria ele a lhe dizer. <\/p>\n<p>Que a vida cumprisse, pois, seus des\u00edgnios.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>E a vida tem l\u00e1 seus mist\u00e9rios&#8230;<\/p>\n<p>Neste dia, diga-se, os tais foram amplamente favor\u00e1veis ao Paschoal. Jogar um bol\u00e3o, ele n\u00e3o jogou. N\u00e3o d\u00e1 para dizer isso. Errou passes de tr\u00eas metros. Perdeu a bola ao tentar os dribles. Mas, nos tr\u00eas rebotes que lhe ca\u00edram \u00e0 frente dentro da \u00e1rea, o amigo enfiou o p\u00e9 e marcou tr\u00eas indiscut\u00edveis gols.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, j\u00e1 treinou entre os titulares. No peito e na ra\u00e7a, levou a defesa reserva ao desespero. Parecia um tanque de guerra. Habilidade zero. Pontaria: dez com louvor. Outros tr\u00eas gols. Com a ressalva, dois de cabe\u00e7a e outro com um inexplic\u00e1vel sem-pulo que s\u00f3 muito tempo depois o Bebeto, aquele do Flamengo e da sele\u00e7\u00e3o, consagrou como sua marca registrada&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso dizer que na missa de domingo t\u00ednhamos outro amigo presente. Mais tarde, nos vesti\u00e1rios, ningu\u00e9m se surpreendeu quando a camisa 9 voou das m\u00e3os do irm\u00e3o Fid\u00e9lis para as m\u00e3os do Paschoal.<\/p>\n<p>Mais do que merecido&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se \u00e9 absolutamente correto dizer que, a partir de ent\u00e3o, o menino passou a acreditar em milagres. Nada muito transcendental, mas acontecem assim at\u00e9 divertidamente e n\u00e3o se explicam \u00e0 luz da l\u00f3gica.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Lembrei da hist\u00f3ria quando a sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol se apresentou hoje para a primeira partida das Eliminat\u00f3rias. A grande atra\u00e7\u00e3o entre os boleiros era o desconhecido centro-avante Afonso. Sua convoca\u00e7\u00e3o sempre foi criticada, e continua sendo. S\u00f3 que no s\u00e1bado, jogando na Holanda, o cara marcou sete gols em uma partida do campeonato local. E d\u00e1-lhe Afonso chegando com a maior moral na Granja Comary. Que Kak\u00e1, que Ronaldinho, as luzes todas para o goleador Afonso&#8230;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m vai duvidar se a 9 da sele\u00e7\u00e3o canarinho voar das m\u00e3os de Dunga para o craque que veio do frio \u2013 ele jogou dois anos na Su\u00e9cia e n\u00e3o ia perder a chance de usar essa imagem&#8230;<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Milagre?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei. At\u00e9 acho que o Paschoal era melhor que ele&#8230;<\/p>\n<p>Mas, \u00e9 ineg\u00e1vel: a vida tem seus mist\u00e9rios&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Menino ainda, olhava desconfiado para os Irm\u00e3os Maristas sempre que, nas aulas religi\u00e3o, carregavam as tintas na descri\u00e7\u00e3o de um ou outro milagre. Acreditar, acreditar n\u00e3o acreditava, n\u00e3o. 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