{"id":10779,"date":"2007-10-21T00:00:00","date_gmt":"2007-10-21T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:49","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:49","slug":"a-camisa-do-faustao-final","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-camisa-do-faustao-final\/","title":{"rendered":"A camisa do Faust\u00e3o (final)"},"content":{"rendered":"<p>Senhores, l\u00e1 vem o maestro super animado:<\/p>\n<p>&#8212; Agora vamos falar com o jornalista&#8230;<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o ouvia mais nada. Na minha cabe\u00e7a, passava um filminho daqueles em que \u00e9 inevit\u00e1vel uma hecatombe. \u201cTubar\u00e3o\u201d, \u201cInc\u00eandio Na Torre\u201d, manjam? Minha reputa\u00e7\u00e3o rolaria ladeira abaixo. Vai que a borboleta azul escapasse de alguma daquelas gaiolas e pousasse sobre minha cabe\u00e7a bem na hora do meu depoimento. Ipiranga, Cambuci e adjac\u00eancias ririam da minha cara e a boatoria comeria solta. <\/p>\n<p>&#8212; Quem diria, hein, o cara da Gazeta&#8230; Ai, ai, ai&#8230;<\/p>\n<p>Quando me convencia que n\u00e3o havia borboleta nenhuma por ali, lembrava do Salsicha. Cad\u00ea o Salsicha? E esse outro cachorr\u00e3o? O est\u00e1 querendo que n\u00e3o p\u00e1ra de me olhar como se eu fosse uma grande pe\u00e7a de carne?<\/p>\n<p>Alheio aos meus horrores, o maestro insistiu, uma vez:<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, jornalista, como vai o nosso Ipiranga?<\/p>\n<p>(E eu em pane!)<\/p>\n<p>Duas vezes:<\/p>\n<p>&#8212; E a nossa Gazetinha?<\/p>\n<p>(E eu calado, sorriso sem gra\u00e7a, sem gra\u00e7a)<\/p>\n<p>Tr\u00eas vezes, quase perdendo a paci\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8212; Quer dizer, amigo, que o jornal completa 35 anos. Que beleza!<\/p>\n<p>Entreguei pra Deus. <\/p>\n<p>Levantei-me, peguei o microfone que estava \u00e0 mesa, e comecei a falar. <\/p>\n<p>&#8212; A Gazeta \u00e9 isso. O Ipiranga \u00e9 aquilo. Estamos honrados em estar aqui etc etc etc. Que, mod\u00e9stia a parte, sou bom nesse  lero-lero.<\/p>\n<p>S\u00f3 voltei a mim \u2013 e ao estarrecedor mundo dos animais \u2013 quando ouvi aplausos generalizados, refor\u00e7ados pelo artif\u00edcio de uma grava\u00e7\u00e3o de palmas que os t\u00e9cnicos colocaram oportunamente, mas que eu achei bem merecidos. Mod\u00e9stia \u00e0 parte, sou bom nesse lero-lero.<\/p>\n<p>O que eu disse?<\/p>\n<p>Sinceramente, n\u00e3o guardei. S\u00f3 sei que, no dia seguinte em que o programa foi ao ar, muitos vieram me parabenizar pelas belas palavras. No entanto, um n\u00famero bem maior de pessoas me parabenizou por eu ser um home de f\u00e9 e t\u00e3o religioso.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim?, perguntei.<\/p>\n<p>&#8212; A cada frase que voc\u00ea dizia, completava com o louvor&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o entendi bem. E um gaiato imitou a minha fala:<\/p>\n<p>&#8212; A Gazeta \u00e9 isso (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque). O Ipiranga \u00e9 aquilo (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque). Estamos honrados em estar aqui (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque) etc (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque) etc (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque) etc (S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque, S\u00e3o Roque)&#8230;<\/p>\n<p>Nota do Autor: <\/p>\n<p>\u00c9 das antigas. Do tempo em que era garoto. Mas, os mais velhos ensinavam a gente a toda vez que estiv\u00e9ssemos com medo de algum cachorro, chamar por S\u00e3o Roque. Diziam que o santo tem o dom de amansar os animais, especialmente c\u00e3es bravios, enxeridos ou rosnadores como aqueles dois. Eu, \u00e9 que n\u00e3o precisava exagerar. Mas, n\u00e3o ficou de todo mal, n\u00e3o. Mod\u00e9stia \u00e0 parte, sou bom nesse lero-lero.<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Senhores, l\u00e1 vem o maestro super animado:<\/p>\n<p>&#8212; Agora vamos falar com o jornalista&#8230;<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o ouvia mais nada. 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