{"id":10787,"date":"2007-10-28T00:00:00","date_gmt":"2007-10-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:48","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:48","slug":"o-ultimo-romantico-das-noites-de-domingo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-ultimo-romantico-das-noites-de-domingo\/","title":{"rendered":"O \u00faltimo rom\u00e2ntico das noites de domingo"},"content":{"rendered":"<p>Havia logo ali, naquele peda\u00e7o de c\u00e9u atr\u00e1s daquele pr\u00e9dio, uma redonda e debochada Lua cheia. Da janela do carro, a caminho de casa, deu pra v\u00ea-la e corteja-la. Afinal, \u00e9 mesmo um sortil\u00e9gio quando um espet\u00e1culo desses se apresenta aos nossos olhos entre os monstros de cimento da grande cidade.<\/p>\n<p>Era uma Lua simp\u00e1tica, em tom s\u00e9pia, a dar uma colora\u00e7\u00e3o alegre ao c\u00e9u que se repartia em camadas de azul, claras e escuras. N\u00f3s, os pregui\u00e7osos, sabemos bem o quanto de amargor nos traz uma noite de domingo. Temos, portanto, raz\u00f5es de sobra para aplaudir tal apari\u00e7\u00e3o. Por ela &#8211; e s\u00f3 por ela &#8211; deu para esquecer o aproximar sombrio da segunda-feira e o arrastar de compromissos e afazeres da semana que ora se inicia.<\/p>\n<p>Eu vinha distra\u00eddo, confesso; algo desalentado \u2013 ali\u00e1s, como me tem sido h\u00e1bito \u2013, a ruminar alguma id\u00e9ia para o post de hoje. Mas, nada me convencia plenamente. Cheguei inclusive a pensar em dar um repeteco no texto que escrevi em 28 de outubro do ano passado (O Segredo do Dia 28), que fala da f\u00e9 de um grande amigo em S\u00e3o Judas Tadeu, pois nesta data reverenciamos o Santo dos Desesperados.<\/p>\n<p>N\u00e3o chego a tanto. Mas, cogitei a possibilidade de escrever sobre a imagem que vi em uma igreja em Roma, pr\u00f3xima \u00e0 Fontana de Tr\u00e9vise \u2013 esta mesma que andou com \u00e1guas vermelhas dias desses. Foi em janeiro deste ano e at\u00e9 estranhei, pois S\u00e3o Judas Tadeu aparece sem barba e com um visual, digamos, mais jovial e atl\u00e9tico. Custei a crer que era o pr\u00f3prio. Mas, pelo pouco que pude entender da ora\u00e7\u00e3o em italiano aos seus p\u00e9s, vi que era ele mesmo \u2013 aquele que se bate por n\u00f3s nas horas mais agudas dos desatinos.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia ficou assim solta por um fio. N\u00e3o conseguia lembrar o teor da ora\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o gostaria de tornar p\u00fablico o que eu e o Padroeiro acertamos naquele s\u00fabito encontro. A gra\u00e7a ainda n\u00e3o aconteceu \u2013 mas, sei bem est\u00e1 a caminho. Quest\u00e3o de tempo. Os prezad\u00edssimos leitores que me perdoem. Mas, o papo foi mesmo confidencial.<\/p>\n<p>Acho at\u00e9 que estiquei um pouco demais a conversa naquela tarde. N\u00e3o que for\u00e7asse a barra para convenc\u00ea-lo ou n\u00e3o acreditasse nos poderes de S\u00e3o Judas Tadeu. Na verdade, estava bem cansado naquele fim de tarde e descansar um tantinho mais ali, antes de continuar a caminhada, me fez um bem danado.<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o. Estava nessa d\u00favida. Escrevo ou n\u00e3o escrevo sobre aquele encontro? N\u00e3o gostaria de deixar os leitores curiosos \u2013 e sei bem que gostam de um bom mist\u00e9rio. Por isso, assim que vi aquela Lua resplandecente, n\u00e3o titubeei: <\/p>\n<p>\u201cEis o meu assunto de hoje\u201d, pensei em voz alta para me convencer do acerto.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, faria melhor. Do 19o. andar onde moro, a vis\u00e3o seria ainda mais bela. Bastaria que simplesmente eu descrevesse a Lua, a silhueta dos pr\u00e9dios na linha do horizonte, os tons de azul em contraste no c\u00e9u, as luzes da cidade, as ruas e avenidas quase sem movimento&#8230;<\/p>\n<p>Se desse sorte, ainda poderia ver um caminhante solit\u00e1rio com passo cambaleante e intuir que ali estava um homem apaixonado e s\u00f3. O \u00faltimo rom\u00e2ntico das noites de domingo.<\/p>\n<p>Entrei a mil no pr\u00e9dio. Deixei o carro ainda com motor ligado para que o porteiro quebrasse o galho e estacionasse para mim. No elevador, fui montando o texto na cabe\u00e7a. Come\u00e7aria dizendo que aquela Lua \u00e9 minha. Ou melhor, a Lua \u00e9 nossa.<\/p>\n<p>Peguei caneta e papel e fui para a sacada \u00e0 flor da pele.<\/p>\n<p>S\u00f3 que a Lua j\u00e1 n\u00e3o era mais minha. N\u00e3o era mais nossa. Simplesmente n\u00e3o estava mais l\u00e1. Uma grossa camada de nuvens a encobria \u2013 e n\u00e3o era dif\u00edcil prever: t\u00e3o cedo n\u00e3o sairia dali. Quando sa\u00edsse, a bela j\u00e1 estaria em outro ponto mais distante do firmamento.<\/p>\n<p>Confesso que fiquei desapontado, mas resolvi escrever o texto mesmo assim&#8230;<\/p>\n<p>Afinal, os sortil\u00e9gios duram apenas o tempo que duram, o tempo exato de quem sabe aprecia-los e\/ou viv\u00ea-los intensamente&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 da vida e dos amores<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211;  Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia logo ali, naquele peda\u00e7o de c\u00e9u atr\u00e1s daquele pr\u00e9dio, uma redonda e debochada Lua cheia. Da janela do carro, a caminho de casa, deu pra v\u00ea-la e corteja-la. Afinal, \u00e9 mesmo um sortil\u00e9gio quando um espet\u00e1culo desses se apresenta aos nossos olhos entre os monstros de cimento da grande cidade.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10787","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10787"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10787\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17120,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10787\/revisions\/17120"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}