{"id":10792,"date":"2007-11-03T00:00:00","date_gmt":"2007-11-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:47","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:47","slug":"lucilanda-e-berto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/lucilanda-e-berto\/","title":{"rendered":"Lucilanda e Berto"},"content":{"rendered":"<p>Lucilanda, o nome. <\/p>\n<p>Forte, sonoro, retumbante. <\/p>\n<p>Quase um t\u00edtulo de nobreza para quem nasceu, como ela, sob o escaldante sol do nordeste brasileiro. Ali\u00e1s, o nome lhe faz inteira justi\u00e7a. \u00c9 literalmente uma Lucilanda e se outros nomes e sobrenomes possui, certamente, de nada lhe valem. Lucilanda, s\u00f3 e basta. Todos se encantam assim onde quer que chegue.<\/p>\n<p>Sorriso largo a expressar uma cativante simpatia. Mais para cheinha, de irresist\u00edveis formas arredondadas. Morenice arrebatadora.<\/p>\n<p>Pois esta \u00e9 a Lucilanda, de vestidinho branco, \u00f3culos escuros e sensualidade a toda prova, que sai do interior abafado do Fusca 69, que p\u00e1ra como Deus quer, no port\u00e3o principal do \u201cGera Park\u201d, onde Felisberto trabalha l\u00e1 se v\u00e3o uma penca de anos.<\/p>\n<p>Depois dessa apari\u00e7\u00e3o, a vida do gerente geral, como se auto-anuncia Felisberto, nunca mais ser\u00e1 a mesma. Diante daquele mulher\u00e3o com jeito de menina, ele de descontrola, fica tenso e teso.<\/p>\n<p>Antes de falarmos do turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es e sentimentos que invade su\u2019alma, vale conhecer o pacato cidad\u00e3o que atende pelo carinhoso apelido de Berto, o implac\u00e1vel. <\/p>\n<p>Est\u00e1 pr\u00f3ximo dos 40, n\u00e3o \u00e9 letrado, nem tem grandes ambi\u00e7\u00f5es. Sempre trabalhou duro para sobreviver. Quando veio dos confins do Vale do Para\u00edba, da hist\u00f3rica cidade de Bananal &#8211; onde pousou o Imperador antes de seguir viagem para S\u00e3o Paulo e proclamar a Independ\u00eancia -, perdeu de vista os irm\u00e3os e com a m\u00e3e s\u00f3 fala mesmo por telefone nessas datas formais. Natal, Ano Novo, o dia da pr\u00f3pria, principalmente o dia da pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>O \u201cGera Park\u201d da avenida D. Pedro \u00e9 sua vida. L\u00e1 ele mora num improvisado c\u00f4modo e cozinha e trabalha diuturnamente. L\u00e1 os amigos se re\u00fanem para por a conversa em dia, discutir futebol, pol\u00edtica e at\u00e9 religi\u00e3o. Berto s\u00f3 n\u00e3o fala de mulher. <\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o \u201cfechada\u201d. Uma vez ou duas por m\u00eas (dependendo do montante das \u201ccaixinhas\u201d e do desejo), Berto visita um \u201cinferninho\u201d na rua Domingos de Moraes, resolve o que tem que resolver, preferencialmente com Cidinha, que jeitinho especial e calado de tratar das coisas. \u00c9 vapt-vupt. Volta depois para a rotina do estacionamento, sem altos nem sobressaltos, a bem da verdade como lhe conv\u00e9m e gosta. <\/p>\n<p>Apaixonou-se uma vez. \u201cSolamente una vez\u201d, como diz a can\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cy nada mas\u201d. Tinha 25 anos e se enrabichou por Silmara, oito anos mais nova que ele. Foi coisa de meses \u2013 tr\u00eas ou quatro. Mas, o suficiente para lhe trincar a alma e a vida. Imaginava-se correspondido, pensava em casar, filhos, esses badulaques todos do mundo e da vida. <\/p>\n<p>Estava entusiasmado quando soube da pr\u00f3pria sogra que Silmara, a meiga e angelical Sil, e o padrasto haviam fugido sem deixar vest\u00edgios, paradeiro e esperan\u00e7as. <\/p>\n<p>A coroa ainda tentou uma aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Eles l\u00e1 e n\u00f3s aqui. Podemos tentar nos consolar, o que acha?<\/p>\n<p>Berto balangou a cabe\u00e7a. Fez que n\u00e3o entendeu \u2013 ou n\u00e3o entendeu mesmo. Mas, em quest\u00e3o de dias, assimilou o golpe. Resignou-se ao imaginar o desespero da ex-sogra que perdeu a filha e o marido. <\/p>\n<p>&#8212; Essa coisa de amor n\u00e3o \u00e9 para mim. N\u00e3o sei lidar com isso. Se cuidar da minha vida do meu jeito.<\/p>\n<p>Sem correr riscos de qualquer outra desilus\u00e3o amorosa seguiu em frente. Os anos se passaram, ele nem percebeu. Ganhou alguns quilos, perdeu o topete a la Elvis. Mas n\u00e3o tinha do qu\u00ea e porqu\u00ea se queixar.<\/p>\n<p>Isto at\u00e9 Lucilanda aparecer.<\/p>\n<p>(* Trecho do livro que escrevi, mas perdi os arquivos originais. Ontem, encontrei em papel o trecho acima e resolvi publicar. Leia tamb\u00e9m O Ator, postado em 15 de mar\u00e7o deste ano, e enteder\u00e3o melhor.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucilanda, o nome. <\/p>\n<p>Forte, sonoro, retumbante. <\/p>\n<p>Quase um t\u00edtulo de nobreza para quem nasceu, como ela, sob o escaldante sol do nordeste brasileiro. 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