{"id":10793,"date":"2007-11-01T00:00:00","date_gmt":"2007-11-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:05:23","modified_gmt":"2017-09-14T04:05:23","slug":"a-mulher-do-amigo-moraes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-mulher-do-amigo-moraes\/","title":{"rendered":"A mulher do amigo Moraes *"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se a ala feminina dos leitores vai gostar de saber. Provavelmente n\u00e3o. Mas, sou obrigado a contar. Ainda estranho \u2013 e muito \u2013 a presen\u00e7a maci\u00e7a das mulheres nos est\u00e1dios de futebol. Acho que n\u00e3o combina, sei l\u00e1. <\/p>\n<p>Para mim, \u00e9 sin\u00f4nimo de confus\u00e3o. <\/p>\n<p>Vou aos est\u00e1dios desde os nove anos \u2013 e me acostumei \u00e0 id\u00e9ia antiga de que \u201cfutebol \u00e9 para homem\u201d. Sei que este n\u00e3o \u00e9 um post politicamente correto, mas o que fazer? Tentei que tentei mudar, mas n\u00e3o consigo.<\/p>\n<p>Os tempos mudaram, me dizem amigos e inimigos.<\/p>\n<p>At\u00e9 concordo.<\/p>\n<p>Eu \u00e9 que n\u00e3o mudei&#8230;<\/p>\n<p>Mas, tenho l\u00e1 meus motivos.<\/p>\n<p>Ou melhor, um grande trauma. Que atendia pelo nome de&#8230; Bem, n\u00e3o lembro o nome. Mas, vamos trat\u00e1-la aqui de a Mulher do Meu Amigo Moraes, assim mesmo em mai\u00fasculas.<\/p>\n<p>Pois, \u00e9. <\/p>\n<p>Foi na disputa da Copa Libertadores de 1979 que a conheci \u2013 e de uma maneira quase tr\u00e1gica. \u00c0quele tempo, eu, o Moraes, o Bode, o Coelho, o Arrelia e mais alguns incautos amigos palmeirenses n\u00e3o perd\u00edamos um s\u00f3 jogo do time de Parque Ant\u00e1rtica. Era acima de tudo uma divers\u00e3o. Ambiente adequado para exorcizarmos todos os nossos dem\u00f4nios com palavr\u00f5es, xingamentos, improp\u00e9rios, palpites, previs\u00f5es e outros descalabros s\u00f3 poss\u00edveis num campo de futebol. Depois, era certo par\u00e1vamos numa Casa de Batidas que havia na rua Bom Pastor e o seo Martins, o propriet\u00e1rio, tinha que nos ag\u00fcentar a discutir o indiscut\u00edvel.<\/p>\n<p>Verdade verdadeira. <\/p>\n<p>Entre umas e outras, harmoniz\u00e1vamos nossos pontos de vistas. O Palestra n\u00e3o ia bem das pernas. Mas, sa\u00edamos de l\u00e1 breacos e felizes.<\/p>\n<p>Mas, voltemos \u00e0 Libertadores&#8230;<\/p>\n<p>Palmeiras e Guarani se enfrentariam na manh\u00e3 de domingo, no est\u00e1dio do Morumbi. Programa mais do que combinado. At\u00e9 porque havia dois motivos important\u00edssimos. A saber: o meia Pedro Rocha estrearia no Palmeiras e sonh\u00e1vamos devolver aos bugrinos a presepeda que nos aprontaram na final do Brasileir\u00e3o de 78, quando nos tomaram a ta\u00e7a com a ajuda desse cascateiro Arnaldo C\u00e9sar Coelho. Este mesmo que at\u00e9 hoje engana nos coment\u00e1rios de arbitragem (sic!) da Globo. O \u2018engodo\u2019 de \u00e1rbitro inventou um p\u00eanalti que s\u00f3 ele viu de Le\u00e3o em Careca. Ali\u00e1s, desde aqueles tempos que o homem gosta de aparecer&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 que, para o cotejo daquele domingo \u00e0s 11, surgiu outro pormenor. Que estranhamos, de primeira. O amigo Moraes estava de namorada nova \u2013 at\u00e9 ent\u00e3o, primeira e \u00fanica. N\u00e3o sab\u00edamos, mas passamos a saber naquele dia, a mo\u00e7a era mandona pacas.<\/p>\n<p>O Moraes s\u00f3 iria ao futebol se ela fosse.<\/p>\n<p>N\u00e3o a conhec\u00edamos. Mas, fomos un\u00e2nimes no veto.<\/p>\n<p>&#8212; Chiclet, amigo (um dos 58 apelidos do Moraes era esse), est\u00e1dio n\u00e3o \u00e9 lugar para mulher. Ainda mais para algu\u00e9m com quem o distinto est\u00e1 t\u00e3o cheio de boas inten\u00e7\u00f5es. Fala que \u00e0s duas da tarde voc\u00ea vai busc\u00e1-la para um cineminha b\u00e1sico. E pronto.<\/p>\n<p>O amigo Moraes (tamb\u00e9m conhecido como Cabe\u00e7\u00e3o) riu sem gra\u00e7a \u2013 e sem vontade de nos ouvir. Algu\u00e9m insistiu.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c0s duas, n\u00e3o, compadre. \u00c0s tr\u00eas. Porque ainda vamos parar no Martins para derrubar as de sempre e mais algumas.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve resposta. <\/p>\n<p>Quer dizer, houve. <\/p>\n<p>Mas, na manh\u00e3 de domingo, no lugar onde sempre nos encontr\u00e1vamos para dividir amigos e viaturas. L\u00e1, estavam o amigo Moraes (vulgo Le\u00e3o Marinho) e a beldade. Ele (LM, para os \u00edntimos), com a express\u00e3o apatetada de quem n\u00e3o ouviu nossos s\u00e1bios conselhos. Ela, \u201cdiscretamente\u201d trajada em verde e branco. <\/p>\n<p>Deus \u00e9 justo, amigos leitores. <\/p>\n<p>Mas, a cal\u00e7a branca da mulher do Moraes, n\u00e3o ficava atr\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>Farejei problemas. <\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o dei palpites e sequer imaginei, naquele instante, que seria comigo a encrenca toda. Se Moraes (o famoso Caro\u00e7o) permanecia calado, a mo\u00e7a deu de se mostrar uma torcedora das mais entusiasmada. <\/p>\n<p>&#8212; O Le\u00e3o \u00e9 um gato.<\/p>\n<p>&#8212; O Rosemiro \u00e9 lindo, \u00e9 o namorado da Rachel Welch<\/p>\n<p>&#8212; O Pedro Rocha vai acabar com o jogo.<\/p>\n<p>&#8212; O Beto Fusc\u00e3o \u00e9 melhor que o Luis Pereira.<\/p>\n<p>&#8212; O Guarani \u00e9 um timinho.<\/p>\n<p>&#8212; Timinho, timinho, timinho&#8230;<\/p>\n<p>Percebam o que fomos obrigados a ouvir em plena manh\u00e3 de domingo. Tudo por causa de um amigo Vacil\u00e3o. Resolvi esclarecer alguns pontos.<\/p>\n<p>01. O Le\u00e3o n\u00e3o era um gato, menos ainda o goleiro do Palmeiras. Jogava um garoto de nome Gilmar. <\/p>\n<p>02. O Rosemiro n\u00e3o namorava nenhuma atriz do cinema americano. Era uma das muitas brincadeiras do narrador Osmar Santos porque o paraense bom-de-bola era feio que s\u00f3. <\/p>\n<p>03. O Pedro Rocha era reserva \u2013 e estava em fim de carreira. <\/p>\n<p>04. O Beto Fusc\u00e3o, com todo o respeito \u00e0 dedica\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o, n\u00e3o podia ser comparado a Luiz Pereira. Fusc\u00e3o era lento e atrapalhado. <\/p>\n<p>05. E, por fim, quem entendia minimamente de futebol sabia que o Guarani era o \u00faltimo campe\u00e3o brasileiro. Al\u00e9m do que, jogaria com Renato e Careca exatamente em cima do nosso amigo Beto Fusc\u00e3o, uma esp\u00e9cie de \u201ccarteiro b\u00eabado\u201d, pois entregava tudo errado.<\/p>\n<p>O Testa, digo o Moraes, n\u00e3o disse um \u201ca\u201d. Mas, deixou claro que elazinha n\u00e3o gostou de ser contrariada. As minhas observa\u00e7\u00f5es, mesmo que acertadas, a deixaram visivelmente irritada. Dei de ombros para a observa\u00e7\u00e3o do amigo. O amor \u00e9 cego. E o mo\u00e7o estava entregue. <\/p>\n<p>N\u00e3o houve mais sen\u00e3o ou palavra at\u00e9 chegarmos ao est\u00e1dio. <\/p>\n<p>Assim que aportamos nos beirais do Morumba, \u00f3bvio, que os olhares famintos da galera vieram todos em nossa dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era comum mulher ir ao est\u00e1dio naquele tempo. Mais incomum ainda era ir vestida t\u00e3o \u201cdiscretamente\u201d. Ficou pior quando nos acomodamos nas arquibancadas. A mo\u00e7a resolveu torcer tresloucadamente.<\/p>\n<p>&#8212; Vai, vai, vai. <\/p>\n<p>&#8212; Chuta, chuta, chuta. <\/p>\n<p>&#8212; Agora, agora, agora&#8230;<\/p>\n<p>Quem estava ao nosso redor n\u00e3o sabia o que fazer. A qual espet\u00e1culo deveria assistir. Ao das assustadoras furadas do Beto Fusc\u00e3o. Ou \u00e0 performance da mulher do amigo Moraes, o Le\u00f4ncio?<\/p>\n<p>Quando o Palmeiras fez um a zero, foi uma festa. Torcedores conhecidos e desconhecidos fizeram fila para abra\u00e7ar a torcedora s\u00edmbolo.<\/p>\n<p>E o coral comeu solto.<\/p>\n<p>&#8212; Gostosa. Gostosa. Gostosa.<\/p>\n<p>Ela ria agradecida e, generosa, acenava. O Moraes (tido como Z\u00e9 para os familiares) ria para n\u00e3o chorar. Conivente e sem gra\u00e7a. Mas, no fundo, estava adorando.<\/p>\n<p>Nunca fui expert em gerenciamento de crises, mas constatei logo.Ter\u00edamos problemas. Por isso, tentei me manter \u00e0 uma dist\u00e2ncia segura. Foi em v\u00e3o. Ela me descobriu e come\u00e7ou a provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Fala agora! Fala agora! Fala que o Guarani \u00e9 melhor. Fala! Fala!<\/p>\n<p>A rapaziada j\u00e1 me olhou feio. Houve at\u00e9 um burburinho. Algu\u00e9m falou que eu era espi\u00e3o da Fiel, mas achei melhor ignorar. Ainda bem que viv\u00edamos outras eras. Hoje, tal cobran\u00e7a seria suficiente para eu ser linchado pelos brutamontes das organizadas.<\/p>\n<p>&#8212; Palmeeeeiraaasss!!<\/p>\n<p>&#8212; Palmeeeeiraaasss!!<\/p>\n<p>Ela j\u00e1 estava abra\u00e7ada a dois estranhos a pular e fazer festa. <\/p>\n<p>Abandonamos o barco. Ou melhor, abandonamos o Moraes Pebolim a pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p>Fomos cada um para um lado assistir ao resto da partida longe da turbul\u00eancia chamada Mulher do Amigo Moraes.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou e Beto Fusc\u00e3o fez o que sabia. Entregou uma, duas, tr\u00eas. Careca n\u00e3o perdoou. No finzinho, sem a participa\u00e7\u00e3o do nosso vigoroso carteiro, quer dizer zagueiro, o Guarani sacramentou a vit\u00f3ria. Implac\u00e1veis 4 a 1.<\/p>\n<p>Ao longe dava para ouvir o berreiro que a mo\u00e7a aprontou. Chorava que chorava. E o Moraes ali, dengoso que s\u00f3, a lhe acariciar os cabelos. <\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 s\u00f3 uma partida de futebol, benzinho. N\u00e3o chora&#8230;<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a partir deste dia, Dengoso entrou para a lista que faz\u00edamos dos apelidos do Moraes.<\/p>\n<p>No estacionamento do est\u00e1dio, foi inevit\u00e1vel o reencontro. Prometi a mim e a todos que n\u00e3o abriria a boca. <\/p>\n<p>Prometi em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim que me viu, a danada se p\u00f4s a chorar e a gritar.<\/p>\n<p>&#8212; Culpa sua. Culpa sua. Voc\u00ea que gorou nossa vit\u00f3ria. Perdemos por sua causa.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive como conter o riso e o deboche.<\/p>\n<p>&#8212; Culpa minha? Eu n\u00e3o entro em campo, \u00f4 cabecinha. A culpa foi do Beto Fusc\u00e3o que est\u00e1 procurando o Careca at\u00e9 agora. Ah! e do Moraes (at\u00e9 esqueci de cham\u00e1-lo por algum apelido, de t\u00e3o nervoso que estava). Que cismou de trazer uma sem-no\u00e7\u00e3o ao jogo&#8230;<\/p>\n<p>Entendem agora porque mulher em est\u00e1dio, para mim, \u00e9 confus\u00e3o?<\/p>\n<p>Vejam o saldo da brincadeira.<\/p>\n<p>01. Voltei de \u00f4nibus do est\u00e1dio. Tr\u00eas. Do Morumbi ao Cambuci n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o perto assim.<\/p>\n<p>02. N\u00e3o fomos ao Martins, por motivos claros. O Moraes \u201cJo\u00e3oTeimoso\u201d estaria l\u00e1 com a dign\u00edssima nos esperando.<\/p>\n<p>03. O Palmeiras tomou uma traulitada daquelas &#8212; e foi desclassificado.<\/p>\n<p>04. E perdemos o amigo&#8230;<\/p>\n<p>Quer dizer, perdemos at\u00e9 o dia em que o amigo perdeu a mulher para um integrante da Independente. Soube, tempos depois, que houve um racha na torcida uniformizada do S\u00e3o Paulo. N\u00e3o apurei, mas sou capaz de apostar que foi por culpa da ex-mulher do meu amigo Moraes, o Rei dos Apelidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se a ala feminina dos leitores vai gostar de saber. Provavelmente n\u00e3o. Mas, sou obrigado a contar. 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