{"id":10796,"date":"2007-11-06T00:00:00","date_gmt":"2007-11-06T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:47","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:47","slug":"jair-rodrigues-e-milton-nascimento","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/jair-rodrigues-e-milton-nascimento\/","title":{"rendered":"Jair Rodrigues e M\u00edlton Nascimento"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 havia escutado a hist\u00f3ria da voz do pr\u00f3prio Milton Nascimento, mineiro de Tr\u00eas Pontas. Depois de alguns anos, a ouvi de novo. Desta feita, quem me contou foi o paulista de Igarapava, Jair Rodrigues \u2013 e esta segunda vers\u00e3o que passo a voc\u00eas. <\/p>\n<p>Foi l\u00e1 nas quebradas de 1965. Jair ainda cantava na noite para defender uns trocados, mas j\u00e1 tinha um certo nome na pra\u00e7a, disco gravado, convites para shows, essas coisas de in\u00edcio de carreira. Certa manh\u00e3, o amigo Nino, que dividia com ele o palco da famos\u00edssima boate Djalma, lhe telefonou para fazer um pedido. Coisa de irm\u00e3o mesmo.<\/p>\n<p>&#8212; Olha, Jair, tem um rapaz que divide a pens\u00e3o comigo l\u00e1 na Marques de Itu. Ele \u00e9 bom pra caramba. Canta, comp\u00f5e, veio de Minas e est\u00e1 \u00e0 procura de uma chance. Tenho ajudado no que posso. S\u00f3 que meu quarto j\u00e1 \u00e9 pequeno. E n\u00e3o est\u00e1 dando para segurar o cara l\u00e1. Mas, ele tem m\u00fasicas maravilhosas. Voc\u00ea n\u00e3o poderia ouvi-lo e hosped\u00e1-lo por uns tempos. <\/p>\n<p>Jair sabia bem as dificuldades de vir do Interior para come\u00e7ar a vida numa cidade como S\u00e3o Paulo. Por isso, n\u00e3o titubeou. Sempre ouviu dizer que uma m\u00e3o lava a outra. Com ele, tamb\u00e9m foi muito parecido. Era hora de retribuir.<\/p>\n<p>&#8212; Traz a fera aqui.<\/p>\n<p>Foi assim que ele conheceu o Bituca, um certo Milton Nascimento. Logo, no primeiro encontro, Milton mostrou todas as m\u00fasicas, inclusive a tocante Morro Velho que depois, bem depois, Elis gravou. Por uns tempos, o novato morou com num quarto na casa do cantor. Mo\u00e7o de h\u00e1bitos simples, era de uma timidez de assustar para quem sonhava ser artista de palco e TV. <\/p>\n<p>Para Jair, a vida seguia uma trilha natural de sucesso. No r\u00e1dio e come\u00e7ava aparecer tamb\u00e9m na TV. <\/p>\n<p>&#8212; Quase n\u00e3o o via porque eu j\u00e1 tinha uma vida atribulada. Fazia shows, cantava na noite. Mas, sempre que o encontrava, ele estava com o viol\u00e3o e um caderno em que rabiscava as letras de suas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, Jair era muito amigo de outro grande cantor negro, Agostinho dos Santos. Toda quarta-feira eles se encontravam para jogar futebol. Jair era lateral-esquerdo. Agostinho, um bom zagueiro central. Diziam que repetia no campo o estilo elegante que o consagrou como um cantor pr\u00e9-bossa nova.  <\/p>\n<p>Jair n\u00e3o lembra se numa dessas idas \u00e0 sua casa para o futebol Agostinho conheceu Milton. \u00c9 prov\u00e1vel, mas n\u00e3o tem certeza. Certo mesmo \u00e9 que Agostinho encantou-se com as m\u00fasicas do Bituca. Tanto que por conta e risco as inscreveu no Festival Internacional da Can\u00e7\u00e3o, que a Globo realizou no Rio de Janeiro. O t\u00edmido Bituca jamais cometeria tal ousadia. Resultado: a bel\u00edssima \u201cTravessia\u201d ecoou soberana no Maracan\u00e3zinho. Versos concisos, melodia que a todos envolveu. N\u00e3o venceu. Ficou em terceiro lugar, mas Milton foi escolhido como melhor int\u00e9rprete. A partir da\u00ed, \u00e9 a hist\u00f3ria que todos conhecemos.<\/p>\n<p>Fala Jair:<\/p>\n<p>&#8212; Quando era solteiro vivia mudando de casa. N\u00e3o par\u00e1vamos. N\u00e3o t\u00ednhamos aquela coisa de guardar coisas. \u00cdamos deixando tudo pelo caminho. Muda daqui, muda dali. Num desses vaiv\u00e9m, lembro que, certa dia, achei o caderno do Milton com os rascunhos da letra de Travessia. Que beleza. Tamb\u00e9m encontrei umas partituras do Ivan Lins que fez, l\u00e1 em casa, o arranjo de n\u00e3o sei que m\u00fasica. Guardei por uns tempos. Mas, outras mudan\u00e7as vieram e sei l\u00e1 onde foi parar. Se eu os tivesse guardado, hein? Seria uma rel\u00edquia inestim\u00e1vel daqueles tempos. Mas, tudo bem, valeu a lembran\u00e7a de conviver com esse pessoal, de um talento extraordin\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 havia escutado a hist\u00f3ria da voz do pr\u00f3prio Milton Nascimento, mineiro de Tr\u00eas Pontas. Depois de alguns anos, a ouvi de novo. 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