{"id":10797,"date":"2007-11-07T00:00:00","date_gmt":"2007-11-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:47","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:47","slug":"jair-rodrigues-e-o-rappper","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/jair-rodrigues-e-o-rappper\/","title":{"rendered":"Jair Rodrigues e o rappper"},"content":{"rendered":"<p>Uma ensolarada ter\u00e7a-feira de agosto de 2000. <\/p>\n<p>Eu e o rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico An\u00edsio Assun\u00e7\u00e3o estamos diante de um grande port\u00e3o de madeira numa estreita estrada em Cotia, munic\u00edpio da Grande S\u00e3o Paulo. <\/p>\n<p>Pontualmente, nove horas. <\/p>\n<p>Des\u00e7o do carro e me identifico para o interfone:<\/p>\n<p>&#8212; Estou fazendo uma mat\u00e9ria para o Jornal da Tarde e tenho uma entrevista marcada com o Jair Rodrigues. <\/p>\n<p>Do outro lado, a voz avisa que devo esperar.<\/p>\n<p>Minutos depois, o port\u00e3o se abre e podemos entrar. Um amplo terreno se apresenta diante de n\u00f3s at\u00e9 chegarmos \u00e0 resid\u00eancia. Somos recebidos por uma esp\u00e9cie de governanta:<\/p>\n<p>&#8212; O seo Jair j\u00e1 j\u00e1 vem atender voc\u00eas.<\/p>\n<p>Um r\u00e1pido olhar pelo interior da casa em que se destaca o estilo r\u00fastico a combinar simplicidade e bom gosto. Parece que fizemos alguma travessura. Ao menos, \u00e9 o que entendo pela express\u00e3o do An\u00edsio que anda pra l\u00e1 e pra c\u00e1.<\/p>\n<p>Pergunto:<\/p>\n<p>&#8212; Que cara \u00e9 essa, An\u00edsio?<\/p>\n<p>Ele me responde com outra pergunta.<\/p>\n<p>&#8212; Quer apostar que acordamos o homem?<\/p>\n<p>Dou a tr\u00e9plica da pergunta.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o era para estarmos aqui \u00e0s nove?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 tempo para resposta. <\/p>\n<p>Um sonoro e sorridente \u201cbom dia\u201d ressoa pela casa \u2013 e comprova o que o An\u00edzio previu. <\/p>\n<p>&#8212; Querem um caf\u00e9? <\/p>\n<p>Decididamente Jair pulou da cama para nos atender. <\/p>\n<p>Ele se acomoda num espa\u00e7o entre a cozinha e a sala, onde h\u00e1 uma grande mesa. E l\u00e1 mesmo come\u00e7amos nossa conversa sobre os festivais TV Record e os bastidores do showbizz. O cantor de Disparada foi personagem central daquele importante momento da nossa Hist\u00f3ria. E percebo, agora, um justific\u00e1vel prazer em sua fala ao record\u00e1-los. <\/p>\n<p>Usei parte da entrevista para a reportagem que o Jornal da Tarde publicou em 13 de agosto daquele ano, com o t\u00edtulo \u201cAinda h\u00e1 novos Chicos, Vandr\u00e9s, Caetanos, Gils e Miltons por a\u00ed?\u201d (tamb\u00e9m postado no \u00edcone Leia Esta Can\u00e7\u00e3o). Outro tanto do muito que Jair nos disse naquele dia permaneceu em meus arquivos pessoais. Foi exatamente esse material que transformei em posts e venho abastecendo nosso blog\/site desde domingo:<\/p>\n<p>\u2022 Jair Rodrigues e Disparada, dia 4<br \/>\n\u2022 Jair Rodrigues e os Festivais da Record, dia 5<br \/>\n\u2022 Jair Rodrigues e M\u00edlton Nascimento, dia 6<\/p>\n<p>Creio que, antes de encerrar essa modest\u00edssima s\u00e9rie, devia ao meu car\u00edssimo leitor esse esclarecimento. N\u00e3o sei se, de um modo efetivo, os meios de comunica\u00e7\u00e3o e mesmo a opini\u00e3o p\u00fablica fazem a justi\u00e7a merecida a Jair Rodrigues. <\/p>\n<p>Sei que ele \u00e9 refer\u00eancia em termos de MPB ao lado de outros contempor\u00e2neos como Benjor, Simonal, Gil, Caetano, Chico e outros raros. Afinal, os anos 60 foram o grande filtro para tudo o que ouvimos ainda hoje. <\/p>\n<p>Mas, pensando bem, n\u00e3o cabe aqui tal discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Cabe, sim, contar mais uma historinha do alegre Cachorr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a seguinte.<\/p>\n<p>Ainda no ano santo de 1965, Jair viajou para o Rio de Janeiro a convite do radialista C\u00e9sar de Alencar, um dos grandes nomes do r\u00e1dio brasileiro. \u00c0quela \u00e9poca, os principais programas de r\u00e1dios eram transmitidos ao vivo, direto de um audit\u00f3rio, com orquestra e garantia de enorme audi\u00eancia. <\/p>\n<p>O cantor ficou feliz, muito feliz. Al\u00e9m de levantar um troco sempre bem-vindo, tratava-se de uma chance imperd\u00edvel para algu\u00e9m, como ele, em come\u00e7o de carreira. Estava t\u00e3o entusiasmado com a oportunidade que, do aeroporto Santos Dumont, foi direto para a emissora. <\/p>\n<p>Na coxia, enquanto esperava a hora de se apresentar, Jair foi abordado por um rapaz que disse ser compositor e lhe passou a letra de um samba. Era Alberto Paes, parceiro de Edson Menezes num samba, \u00e0 primeira vista, bem esquisito. Havia uma parte falada e s\u00f3 bem depois entrava a melodia.<\/p>\n<p>Jair ouviu o autor cantarolar. Estranhou. Mas, resolveu topar o desafio. N\u00e3o disse nem sim, nem n\u00e3o.<\/p>\n<p>No outro dia, j\u00e1 em S\u00e3o Paulo, resolveu \u2018passar\u2019 a m\u00fasica junto com os m\u00fasicos da boate Djalma, onde se apresentava. Aproveitaria para \u2018testar\u2019 se a &#8216;coisa&#8217; era boa ou ruim. Chamou o pianista Hermeto Pascoal para acompanh\u00e1-lo. Deu as coordenadas e come\u00e7ou o fraseado:<\/p>\n<p>&quot;Deixa que digam<br \/>\nque pensem<br \/>\nque falem&#8230;<br \/>\nDeixa isso pra l\u00e1<br \/>\nVem pra c\u00e1<br \/>\nO que \u00e9 que tem.&quot;<\/p>\n<p>Hermeto ficou assim embasbacado. <\/p>\n<p>Que ritmo era aquele? <\/p>\n<p>Para socorr\u00ea-lo, Jair involuntariamente come\u00e7ou a gesticular para marcar o ritmo. Fez um vaiv\u00e9m com uma das m\u00e3os. A cada movimento, alternava a palma da m\u00e3o para cima e para baixo. Hermeto, ao piano, entendeu a cad\u00eancia e come\u00e7ou a brincar com as teclas no ritmo. Pronto: estava criada a coreografia que marcou toda a carreira de Jair Rodrigues.<\/p>\n<p>&quot;Eu n\u00e3o estou<br \/>\nfazendo nada.<br \/>\nVoc\u00ea tamb\u00e9m.<br \/>\nFaz mal bater<br \/>\num papo assim<br \/>\ngostoso com<br \/>\nalgu\u00e9m&#8230;&quot;<\/p>\n<p>Os m\u00fasicos e Jair se divertiram muito no ensaio. Tanto que \u00e0 noite, durante o show, o for\u00e7aram cant\u00e1-la na primeira oportunidade. Foi a mesma festa entre eles. Tanto que, quando Jair deu por si, estava de costa para a plat\u00e9ia a marcar o ritmo com as m\u00e3os e de frente para os m\u00fasicos. Percebeu o deslize e, de imediato, virou-se a tempo de ver que o p\u00fablico todo o imitava e caiu deliciosamente na gandaia quando come\u00e7ou a segunda parte.<\/p>\n<p>&quot;Vai, vai por mim.<br \/>\nBalan\u00e7o de amor \u00e9 assim.<br \/>\nM\u00e3ozinha com m\u00e3ozinha pra c\u00e1.<br \/>\nBeijinhos com beijinhos pra l\u00e1&quot;.<\/p>\n<p>Fechou quest\u00e3o ali. A m\u00fasica seria um sucesso.<\/p>\n<p>&quot;Vem balan\u00e7ar<br \/>\namor \u00e9 balanceio, meu bem.<br \/>\nS\u00f3 vai no meu balan\u00e7o quem tem<br \/>\ncarinho para dar&quot;.<\/p>\n<p>Pode ser um exagero. Mas, faz todo sentido.<br \/>\nH\u00e1 quem diga que Jair \u00e9 o primeiro rapper brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma ensolarada ter\u00e7a-feira de agosto de 2000. <\/p>\n<p>Eu e o rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico An\u00edsio Assun\u00e7\u00e3o estamos diante de um grande port\u00e3o de madeira numa estreita estrada em Cotia, munic\u00edpio da Grande S\u00e3o Paulo.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10797","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10797","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10797"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10797\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17111,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10797\/revisions\/17111"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10797"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10797"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10797"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}