{"id":10799,"date":"2007-11-09T00:00:00","date_gmt":"2007-11-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:47","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:47","slug":"parem-as-maquinas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/parem-as-maquinas\/","title":{"rendered":"Parem as m\u00e1quinas!"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 lhes falei do Almeidinha. <\/p>\n<p>Jornalista das antigas, de certa forma incerta foi um dos caras que me deu r\u00e9gua e compasso para acertar o passo incerto na vida de enfileirar letrinhas, uma depois da outra.<\/p>\n<p>Se quiserem saber mais do amigo, basta acessar o \u00edcone Parangol\u00e9s, em 10 de julho deste ano. Se quiserem dar-me a honra de voltar aqui depois, fico muito agradecido. Agradecido mesmo, pois gostaria de lhes contar como o senso jornal\u00edstico do Almeidinha evitou uma guerra. <\/p>\n<p>Ou quase isso&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Tarde da noite. <\/p>\n<p>A reda\u00e7\u00e3o vazia.<\/p>\n<p>O Almeidinha, mais uma vez ali, sozinho. <\/p>\n<p>De plant\u00e3o. <\/p>\n<p>A postos. <\/p>\n<p>Se houvesse qualquer imprevisto antes ou durante a impress\u00e3o, ele seria acionado e prontamente deveria resolver a quest\u00e3o. <\/p>\n<p>Nos anos 50, o jornalismo n\u00e3o contava com tantos recursos tecnol\u00f3gicos. O jornal era feito no \u201cchumb\u00e3o\u201d, \u00e0 quente, como se dizia \u00e0 \u00e9poca. Toda e qualquer mudan\u00e7a era uma trabalheira consider\u00e1vel. <\/p>\n<p>Linotipos, clich\u00eas, versalete, tabelas de convers\u00e3o, picas (lia-se paicas), c\u00edceros, caixa alta, caixa baixa, primeira prova, segunda prova, emenda, rama \u2013 a garotada de hoje n\u00e3o tem sequer id\u00e9ia do tamanho da encrenca, o que significam essas inocentes palavras.<\/p>\n<p>Mas, era para isso que o Almeidinha estava ali.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o tinha vantagens e desvantagens. <\/p>\n<p>A maior vantagem era que, na maioria das vezes, n\u00e3o aconteciam erros. Almeidinha, cioso da responsabilidade, conferia p\u00e1gina por p\u00e1gina, linha por linha, clich\u00ea por clich\u00ea e dava um ok para a impress\u00e3o. No dia seguinte, o Almeidinha chegava com cara de quem mal dormiu. Os colegas soltavam o deboche:<\/p>\n<p>&#8212; Dinheiro mole ontem, hein.<\/p>\n<p>IV. <\/p>\n<p>Outra vantagem era o \u201calvar\u00e1 de soltura\u201d sem prazo de validade que podia apresentar \u00e0 patroa, a Sra. Almeidinha. Ou dona Pol\u00edcia, como preferirem. <\/p>\n<p>Dali, o homem poderia esticar para um \u2018inferninho\u2019 qualquer \u2013 de prefer\u00eancia, os da Domingo de Moraes. Chegaria a hora que bem entendesse em casa e, \u00f3bvio, a culpa era do fechamento do Di\u00e1rio da Noite. <\/p>\n<p>Um \u00fanico sen\u00e3o: os perfumes baratos que usavam as &quot;finas&quot; mo\u00e7as desses lugares nem t\u00e3o finos assim.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>As desvantagens eram muitas. <\/p>\n<p>N\u00e3o lhe permitia vida pessoal. Trocava a noite pelo dia. Dormia aos sobressaltos, acordava injuriado, pois n\u00e3o podia haver erro no jornal que todos lhe acusavam: <\/p>\n<p>&#8212; Que vacilo, Almeidinha! Estava dormindo quando revisou a p\u00e1gina? Papel\u00e3o!<\/p>\n<p>Pior eram as noites em que acontecia um fato importante no limiar da madrugada. Todo o jornal era repaginado com a supervis\u00e3o atenta do Almeidinha e o ru\u00eddo dos teletipos que traziam as \u00faltimas do Brasil e do mundo. <\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Foi ao lado de uma dessas trapitongas que, por volta das duas da manh\u00e3, algu\u00e9m encontrou a not\u00edcia do ano: a Espanha acabara de declarar guerra ao Brasil. <\/p>\n<p>Explico: a Espanha nunca declarou guerra ao Brasil. <\/p>\n<p>Tudo n\u00e3o passou de uma brincadeira que algum gaiato fez para cima de um zeloso linotipista. <\/p>\n<p>VII. <\/p>\n<p>Foi assim:<\/p>\n<p>Algu\u00e9m forjou um telex com a not\u00edcia falsa e deixou por ali, de bobeira, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do primeiro vacil\u00e3o que passasse. E passou. E pegou. E leu&#8230; <\/p>\n<p>Explicava tim-tim por tim-tim porque a diplomacia dos dois pa\u00edses n\u00e3o chegou a um bom termo em prol da paz. Parece que os espanh\u00f3is acharam menosprezo o comportamento de nossa torcida durante a recente Copa do Mundo de 1950. O escrete tascou um retumbante 5 a 0 e o Maracan\u00e3 inteiro cantou os versos de uma marchinha de carnaval:<\/p>\n<p>\u201cEu fui \u00e0s touradas em Madri<br \/>\nE quase n\u00e3o volto mais aqui<br \/>\nPra ver Peri beijar Ceci<br \/>\nEu conheci uma espanhola<br \/>\nnatural da Catalunha<br \/>\nQueria que eu tocasse castanhola<br \/>\ne pegasse touro \u00e0 unha<br \/>\nCaramba caracoles<br \/>\nsou do samba n\u00e3o me amoles<br \/>\nPro Brasil eu vou fugir<br \/>\nIsto \u00e9 conversa mole<br \/>\npara boi dormir &#8230;<br \/>\nPararatchimbumbumbum\u201d<\/p>\n<p>O telex dizia mais. <\/p>\n<p>\u201cOs espanh\u00f3is acharam uma torpe ofensa.\u201d <\/p>\n<p>Inclusive amea\u00e7avam \u201cprender e fuzilar os autores da obra, Braguinha e Alberto Ribeiro.\u201d<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Antes de continuar, uma explica\u00e7\u00e3o se faz necess\u00e1ria. <\/p>\n<p>Os linotipistas eram profissionais orgulhosos de seus conhecimentos, tanto da l\u00edngua portuguesa como de tudo o que estava acontecendo no mundo. E eles eram bons nisso. Primeiro, porque uma v\u00edrgula que errassem e teriam de refazer a p\u00e1gina desde o come\u00e7o. Segundo, porque gostavam de se mostrar mais jornalista do que os pr\u00f3prios jornalistas. <\/p>\n<p>Justi\u00e7a seja feita. <\/p>\n<p>Era comum consertarem erros de gram\u00e1tica que deixavam passar os craques das not\u00edcias. <\/p>\n<p>Por isso, ao encontrar o telex com timbre de uma das ag\u00eancias internacionais, o fulano concluiu que algum rep\u00f3rter mais desatento nem se dera conta da import\u00e2ncia da informa\u00e7\u00e3o. Resolveu, por conta pr\u00f3pria, refazer a primeira p\u00e1gina e s\u00f3 depois notificar ao Almeidinha que estava ali a olhar estrelas.<\/p>\n<p>IX.<\/p>\n<p>Ao receber a p\u00e1ginas, o jornalista tonteou. <\/p>\n<p>Quando leu a declara\u00e7\u00e3o de guerra em letras garrafais, as estrelas que imaginara ver transformaram-se em enorme cometa com cauda de fogo a cortar os c\u00e9us rumo \u00e0 Terra, mais precisamente ao pr\u00e9dio dos Di\u00e1rios Associados, na rua Sete de Abril.  <\/p>\n<p>&#8212; Enlouqueceu, Man\u00e9? <\/p>\n<p>&#8212; De onde saiu isso? <\/p>\n<p>&#8212; Quer que eu perca meu emprego? <\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea bebeu?<\/p>\n<p>&#8212; Quer me *****, ot\u00e1rio?<\/p>\n<p>Enquanto engatilhava uma pergunta atr\u00e1s da outra, imaginou o furd\u00fancio que seria se n\u00e3o agisse rapidamente e consertasse aquela bobagem infinita. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, no melhor estilo dos profissionais das antigas, desfez o n\u00f3 da gravata, desabotoou o colarinho e gritou:<\/p>\n<p>&#8212; Parem as m\u00e1quinas!<\/p>\n<p>X. <\/p>\n<p>E as m\u00e1quinas pararam&#8230;<\/p>\n<p>E tudo foi refeito, recuperando-se a manchete anterior.<\/p>\n<p>S. PAULO TER\u00c1 CHUVA DE PRATA<br \/>\nNAS FESTAS DO IV\u00b0 CENTEN\u00c1RIO<\/p>\n<p>XI. <\/p>\n<p>N\u00e3o se espantem.<\/p>\n<p>A tal chuva de prata provocaria inunda\u00e7\u00e3o alguma. Seriam algumas milhares de bandeirinhas l\u00e2minadas que um teco-teco jogaria sobre a cidade na noite de 25 de janeiro de 1954.<\/p>\n<p>Ah! <\/p>\n<p>Quanto ao linotipista maluco-beleza, ele n\u00e3o perdeu o emprego porque era camarada de Almeidinha. Al\u00e9m do que, os dois amanheceram tr\u00eabados a caminhar abra\u00e7ados pelas cal\u00e7adas da Domingos de Moraes. Cantavam Touradas de Madri e davam \u201cvivas\u201d \u00e0 paz na terra aos homens de boa vontade. \u201cPararatchimbumbumbum\u201d.<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 lhes falei do Almeidinha. <\/p>\n<p>Jornalista das antigas, de certa forma incerta foi um dos caras que me deu r\u00e9gua e compasso para acertar o passo incerto na vida de enfileirar letrinhas,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10799","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10799","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10799"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10799\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17109,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10799\/revisions\/17109"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10799"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10799"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10799"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}