{"id":10804,"date":"2007-11-12T00:00:00","date_gmt":"2007-11-12T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:46","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:46","slug":"caronas-e-caroneiros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/caronas-e-caroneiros\/","title":{"rendered":"Caronas e caroneiros"},"content":{"rendered":"<p>Vamos e venhamos. <\/p>\n<p>Mas, se puderem evitar a carona, evitem amigos leitores, evitem&#8230;<\/p>\n<p>Carona \u00e9 um tro\u00e7o sempre imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>Acompanhem essas hist\u00f3rias:<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelos idos dos anos 70, o bom amigo Maucir tinha um rebrilhante e fabuloso Fusc\u00e3o \u201cazul da cor do mar\u201d. <\/p>\n<p>\u00c0s quintas feiras \u00edamos para o Di\u00e1rio do Grande ABC, onde era montada e impressa Gazeta do Ipiranga, jornal em que trabalh\u00e1vamos. Cheg\u00e1vamos cedo. O Maucir at\u00e9 mais cedo do que eu. Ele, de Fusca. Eu, de \u00f4nibus. <\/p>\n<p>N\u00e3o t\u00ednhamos hora para \u201cfechar\u201d o seman\u00e1rio.  A impress\u00e3o off-set estava ainda em seus primeiros passos e os imprevistos eram comuns \u2013 e sempre \u00e0 \u00faltima hora.<\/p>\n<p>Generosamente, ent\u00e3o, o Mau\u00e7a me oferecia carona. Ambos mor\u00e1vamos no Ipiranga. A \u00fanica ressalva era mesmo o gosto musical do amigo. N\u00e3o sei bem se era verdadeiramente \u201cum gosto musical\u201d. Sei que o Mau\u00e7a tinha uma cole\u00e7\u00e3o de fitas k7 das \u2018baterias\u2019 das escolas de samba do Rio de Janeiro \u2013 e, nem bem entr\u00e1vamos no carro, j\u00e1 come\u00e7ava o gurugudum, gurugudum, gurugudum.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha fim o gurugudum.<\/p>\n<p>Depois de dez ou doze horas de trabalho, convenhamos s\u00f3 mesmo o grande Maucir para relaxar ao som de tanta anima\u00e7\u00e3o. Gurugudum, gurugudum, gurugudum&#8230;<\/p>\n<p>Era isso ou esperar o \u00f4nibus das 4 da manh\u00e3, Santo Andr\u00e9-Parque D. Pedro, que passava pela rua Manifesto, seis ou sete quadras de dist\u00e2ncia da casa onde morava na Bom Pastor.<\/p>\n<p>Salve, pois, o gurugudum&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Na arte de \u201ccaronar\u201d, amigo Nasci tinha hist\u00f3rias imbat\u00edveis. <\/p>\n<p>Ele gostava de contar sobre uma experi\u00eancia, digamos, das mais ex\u00f3ticas.<\/p>\n<p>O Nasci n\u00e3o dirigia e s\u00f3 andava de t\u00e1xi. Da\u00ed, ter um vasto repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>Para economizar uns trocos, topava qualquer neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Certo dia, aceitou a carona de um ex-jogador de futebol do Palmeiras, o meia \u00c9cio, que chegou a  jogar no Corinthians e se destacou mesmo quando o Parque da Mooca disputou o Desafio ao Galo.<\/p>\n<p>A curti\u00e7\u00e3o do craque n\u00e3o era propriamente o baticum das baterias das escolas do Rio de Janeiro. Ele gostava mesmo de ouvir &#8212; e mostrar aos seus caronas &#8212; a narra\u00e7\u00e3o radiof\u00f4nica dos gols que fez ao longo da carreira. <\/p>\n<p>Uma carona inesquec\u00edvel, dizia o Nasci. <\/p>\n<p>Entre uma cachimbada e outra, ao lembrar da hist\u00f3ria, sempre comentava:<\/p>\n<p>&#8212; Caroneiro sofre&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Na Reda\u00e7\u00e3o, todos \u00e9ramos durangos. Por isso, havia um verdadeiro festival de hist\u00f3rias de caronas. No entanto, a campe\u00e3 de audi\u00eancia era contada \u2013 adivinhem por quem? \u2013 pelo Nasci. Ele jurava que n\u00e3o foi o protagonista \u2013 at\u00e9 porque como escrevi l\u00e1 em cima, o homem n\u00e3o sabia dirigir \u2013 mas, segundo dizia, foi testemunha ocular de parte da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Aconteceu num carnaval. <\/p>\n<p>O Nasci era diretor social \u2013 ou coisa que o valha \u2013 do Clube Atl\u00e9tico Ypiranga e todos os anos montava um camarote para a Imprensa. Por l\u00e1 circulavam \u2018deus-e-o-mundo\u2019 al\u00e9m dos rep\u00f3rteres. Naquele ano, para a alegria da rapaziada, circularam tamb\u00e9m as duas cantoras e bailarinas da banda que n\u00e3o era do Z\u00e9 Pretinho mas animava a festa.<\/p>\n<p>Uma mais linda que a outra.<\/p>\n<p>Um an\u00f4nimo rep\u00f3rter de r\u00e1dio \u2013 que o Nasci n\u00e3o quis entregar \u2013 foi tomado por s\u00fabita paix\u00e3o por uma das mo\u00e7as. O Nasci cuidou de  avisar logo no primeiro dia, com aquele jeitinho Nasci de ser.<\/p>\n<p>&#8212; Fulano, n\u00e3o se assanha n\u00e3o. S\u00e3o \u2018comidinhas\u2019 do dono da banda. O cara que toca trombone.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o n\u00e3o quis acreditar. Jurou para o Nasci que a mo\u00e7a era s\u00f3 sorriso para o lado dele. Tanto que o rapaz fez o que p\u00f4de para mudar a escala na emissora. E voltou ao Ypiranga nas tardes e noites de domingo, segunda e ter\u00e7a. N\u00e3o perdia sequer as matin\u00eas. Sempre na mesma ilus\u00e3o. <\/p>\n<p>Que, ali\u00e1s, se desfez  \u00e0s 5 de la matina da quarta, quando o \u00faltimo baile terminou. Ele descor\u00e7oado viu elazinha ir embora de bra\u00e7o dado com o trombonista. <\/p>\n<p>Ficou que era s\u00f3 tristeza. <\/p>\n<p>At\u00e9 que viu a outra cantora sozinha \u00e0 espera de condu\u00e7\u00e3o na porta do clube.<\/p>\n<p>Generoso que s\u00f3, o radialista lhe ofereceu carona. A mo\u00e7a prontamente aceitou.<\/p>\n<p>Ele agradeceu aos c\u00e9us porque, olhando assim de perto, a morena ao lado dava de dez &quot;naquela loura aguada\u201d.<\/p>\n<p>Assim que entraram na avenida D. Pedro, ele perguntou gentil:<\/p>\n<p>&#8212; Estou no caminho certo?<\/p>\n<p>Ela respondeu que sim. <\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, aonde vamos?, perguntou meigamente o rapaz.<\/p>\n<p>Ela:<\/p>\n<p>&#8212; Para minha casa&#8230;  em Itaquera.<\/p>\n<p>Sem constrangimentos, apoiou o rosto na janela e caiu num sono lascado a tirar o atraso de quatro noite ao som de \u201cMam\u00e3e Eu Quero\u201d.<\/p>\n<p>Hora e tanto depois, ao descer, agradeceu o radialista com um beijo no rosto. E assim se foi&#8230;<\/p>\n<p>Nunca mais se viram&#8230;<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vamos e venhamos. <\/p>\n<p>Mas, se puderem evitar a carona, evitem amigos leitores, evitem&#8230;<\/p>\n<p>Carona \u00e9 um tro\u00e7o sempre imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>Acompanhem essas hist\u00f3rias:<\/p>\n<p>I.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10804","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10804","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10804"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10804\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17106,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10804\/revisions\/17106"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10804"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10804"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10804"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}