{"id":10812,"date":"2007-11-20T00:00:00","date_gmt":"2007-11-20T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:46","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:46","slug":"o-melhor-dos-iguais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-melhor-dos-iguais\/","title":{"rendered":"O melhor dos iguais"},"content":{"rendered":"<p>O Nasci fazia ponto ali naquele boteco que desapareceu com as obras do Metr\u00f4, entre as ruas Grenfeeld e Bom Pastor, onde o Sacoman torce o rabo. Dia sim e outro tamb\u00e9m, \u00edamos ali marcar presen\u00e7a, ver o amigo, tomar uns gor\u00f3s, conviver com a sub ra\u00e7a que habitava o local \u2013 assim que n\u00f3s mesmos nos defin\u00edamos \u2013 e principalmente ouvir suas hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>Muitos de n\u00f3s cheg\u00e1vamos a por em d\u00favida a veracidade dos causos dos amigos. Outros entendiam tudo aquilo como uma li\u00e7\u00e3o de vida, ensinamentos de quem sabia o caminho das pedras. <\/p>\n<p>A bem da verdade, conforme as chuvas e as trovoadas do nosso humor, bande\u00e1vamos de um lado para outro. Com ou sem acreditar, por\u00e9m, todos eram un\u00e2nimes em dizer  que o Nasci era um grande contador de hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>E o melhor dos iguais.<\/p>\n<p>Por mais incr\u00edvel que possa parecer, n\u00e3o se falava s\u00f3 de futebol ou de pol\u00edtica ou de como derrubar um chefe insuportavelmente est\u00fapido \u2013 como todos, no lugar, consideravam os respectivos superiores. \u00c0s vezes, o homem puxava uma conversa diferente. <\/p>\n<p>Discorria sobre TV (e a\u00ed sobrava para o jornalista Ismael Fernandes, especializado em novela), cinema (ele ficava insuport\u00e1vel no dia seguinte \u00e0 entrega do Oscar), teatro (\u201cmeu nome art\u00edstico como ator era Jos\u00e9 Augusto\u201d e falava do dia em que perdeu para o Tarc\u00edsio Meira num teste para um papel no teleteatro), mpb (a coisa era comigo nessa \u00e1rea) e o que lhe desse na telha \u2013 mas, sempre o discurso tinha algu\u00e9m na mira. <\/p>\n<p>Para o bem ou para o mal.<\/p>\n<p>Por isso, naquele cair de tarde, todos estranhamos quando o Nasci, do nada, sacou esta:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o existe amor, meus caros. O que existe hoje \u00e9 conveni\u00eancia.<\/p>\n<p>At\u00e9 aonde sab\u00edamos, o Nasci era rigorosamente equilibrado afetivamente. Passado, presente, futuro, as coisiquinhas do cora\u00e7\u00e3o estavam sob controle para o Mestre. Mais de uma vez, falou da fase zen que vivia e que n\u00e3o era santo, nunca o foi \u2013 mas, queria dist\u00e2ncia de eventuais \u201cbolas divididas\u201d. <\/p>\n<p>N\u00e3o, naquele momento da vida.<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o era um desabafo existencial. Ent\u00e3o, com quem poderia ser?<\/p>\n<p>Um olhou para o outro. O outro para o um \u2013 e assim sucessivamente. O balan\u00e7ar de cabe\u00e7a foi geral, como a dizer \u201cn\u00e3o \u00e9 comigo\u201d.<\/p>\n<p>Ciente do abalo c\u00f3smico que nos causou, o Nasci repetiu a fala.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00eas entenderam? N\u00e3o existe amor. Existe conveni\u00eancia.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8212; Ningu\u00e9m ama ningu\u00e9m. \u00c9 fato. As pessoas se unem e separam ao bel prazer dos pr\u00f3prios interesses. N\u00e3o podemos chamar isso de amor. Podemos?<\/p>\n<p>E esta agora, compadre, pensei. Aonde o cara quer chegar?<\/p>\n<p>&#8212; De qualquer forma, os relacionamentos \u2013 sejam quais forem, tenham o tempo e a import\u00e2ncia que tiverem \u2013 s\u00e3o definitivos e marcantes na constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de cada um de n\u00f3s. Sabem por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Quem se atreveria a responder?<\/p>\n<p>(Amanh\u00e3 continua&#8230;)<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Nasci fazia ponto ali naquele boteco que desapareceu com as obras do Metr\u00f4, entre as ruas Grenfeeld e Bom Pastor, onde o Sacoman torce o rabo. 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