{"id":10815,"date":"2007-11-22T00:00:00","date_gmt":"2007-11-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:05:04","modified_gmt":"2017-09-14T04:05:04","slug":"folhetim-o-amor-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/folhetim-o-amor-3\/","title":{"rendered":"Folhetim: O Amor 3 *"},"content":{"rendered":"<p>O Nasci fazia ponto ali naquele boteco que desapareceu com as obras do Metr\u00f4, entre as ruas Grenfeeld e Bom Pastor onde o Sacoman torce o rabo. Dia sim e outro tamb\u00e9m, \u00edamos ali marcar presen\u00e7a, ver o amigo, tomar uns gor\u00f3s, conviver com a subra\u00e7a que habitava o local e principalmente ouvir hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>Muitos de n\u00f3s cheg\u00e1vamos a por em d\u00favida a veracidade dos causos do amigo. Outros entendiam tudo aquilo como uma li\u00e7\u00e3o de vida, ensinamentos de quem sabia o caminho das pedras. <\/p>\n<p>A bem da verdade, conforme as chuvas e as trovoadas do nosso humor, bande\u00e1vamos de um lado para outro. Com ou sem acreditar, por\u00e9m, todos eram un\u00e2nimes em dizer que o Nasci era um grande &quot;caus\u00eddico&quot; &#8212; nossa singela tradu\u00e7\u00e3o para contador de causos. <\/p>\n<p>E o melhor dos iguais.<\/p>\n<p>Por mais incr\u00edvel que possa parecer, n\u00e3o se falava s\u00f3 de futebol ou de pol\u00edtica ou de como derrubar um chefe insuportavelmente est\u00fapido \u2013 como todos, no lugar, consideravam os respectivos superiores. \u00c0s vezes, o homem puxava uma conversa diferente. <\/p>\n<p>Discorria sobre TV (e a\u00ed sobrava para o jornalista Ismael Fernandes, especializado em novela), cinema (ele ficava insuport\u00e1vel no dia seguinte \u00e0 entrega do Oscar), teatro (\u201cmeu nome art\u00edstico como ator era Jos\u00e9 Augusto\u201d e falava do dia em que perdeu para o Tarc\u00edsio Meira num teste para um papel no teleteatro), mpb (a coisa era comigo nessa \u00e1rea) e o que lhe desse na telha \u2013 mas, sempre o discurso tinha algu\u00e9m na mira. <\/p>\n<p>Para o bem ou para o mal.<\/p>\n<p>Por isso, naquele cair de tarde, todos estranhamos quando o Nasci, do nada, sacou esta:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o existe amor, meus caros. O que existe hoje \u00e9 conveni\u00eancia.<\/p>\n<p>At\u00e9 aonde sab\u00edamos, o Nasci era rigorosamente equilibrado afetivamente. Passado, presente, futuro, as coisiquinhas do cora\u00e7\u00e3o estavam sob controle para o Mestre. Mais de uma vez, falou da fase zen que vivia e que n\u00e3o era santo, nunca o foi \u2013 mas, queria dist\u00e2ncia de eventuais \u201cbolas divididas\u201d. <\/p>\n<p>N\u00e3o, naquele momento da vida.<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o era um desabafo existencial. Ent\u00e3o, com quem poderia ser?<\/p>\n<p>Um olhou para o outro. O outro para o um \u2013 e assim sucessivamente. O balan\u00e7ar de cabe\u00e7a foi geral, como a dizer \u201cn\u00e3o \u00e9 comigo\u201d.<\/p>\n<p>Ciente do abalo c\u00f3smico que nos causou, o Nasci repetiu a fala.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00eas entenderam? N\u00e3o existe amor. Existe conveni\u00eancia.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8212; Ningu\u00e9m ama ningu\u00e9m. \u00c9 fato. As pessoas se unem e separam ao bel prazer dos pr\u00f3prios interesses. N\u00e3o podemos chamar isso de amor. Podemos?<\/p>\n<p>E esta agora, compadre, pensei. Aonde o cara quer chegar?<\/p>\n<p>&#8212; De qualquer forma, os relacionamentos \u2013 sejam quais forem, tenham o tempo e a import\u00e2ncia que tiverem \u2013 s\u00e3o definitivos e marcantes na constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de cada um de n\u00f3s. Sabem por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Quem se atreveria a responder?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m disse ai.<\/p>\n<p>E o Nasci continuou:<\/p>\n<p>&#8212; Porque eis o momento em que tomamos contato com o ef\u00eamero da vida. Um dia come\u00e7a. Um dia termina e l\u00e1 se v\u00e3o planos e n\u00e3o-planos, sonhos e n\u00e3o sonhos, a coisa de envelhecer juntos. Conven\u00e7\u00f5es e conquistas. L\u00e1 se vai tempo a nos escapar pelo v\u00e3o dos dedos.<\/p>\n<p>Nem sei bem porqu\u00ea, mas arrisquei um comentarico, enquanto ele tomava f\u00f4lego para continuar.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 simples.<\/p>\n<p>&#8212; Claro que n\u00e3o. H\u00e1 sempre algu\u00e9m que entra com o p\u00e9 e o outro, pois \u00e9, o outro&#8230;<\/p>\n<p>O Nasci era pudico. Preservava uma certa eleg\u00e2ncia ret\u00f3rica.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o h\u00e1 melhor, nem pior. A vida faz com que freq\u00fcentemos os dois lados. Um dia estamos aqui, outro ali e a decis\u00e3o \u00e9 sempre dif\u00edcil. Para quem sai, sobram aquelas d\u00favidas, tipo \u2018ser\u00e1 que \u00e9 isso mesmo que deve ser feito?\u2019, \u2018e se eu me arrepender?\u2019, \u2018e se ela arranjar outro e eu descobrir que ela era?\u2019.<\/p>\n<p>Como nada dissemos, completou:<\/p>\n<p>&#8212; Para quem fica, a ferida que parece nunca vai cicatrizar e, dependendo do momento da vida em que acontece, n\u00e3o cicatriza mesmo.<\/p>\n<p>O Cebola, rec\u00e9m-sa\u00eddo de uma paix\u00e3o avassaladora que ele esqueceu no dia seguinte, tomou coragem e disse que ele estava se contradizendo.<\/p>\n<p>&#8212; Nada disso. Estou deixando claro que \u201csentimento sentimento\u201d n\u00e3o existe. Existe o sentimento da perda. \u00c9 isto o que nos corr\u00f3i: aos olhos dos outros, n\u00e3o existimos mais, morremos. Viramos nada.<\/p>\n<p>Todos se entreolharam. <\/p>\n<p>&#8212; Pensamos em n\u00f3s, e vemos que a Fulana cabia t\u00e3o bem em nossa vida, est\u00e1vamos t\u00e3o confort\u00e1veis em nossa vidinha cotidiana. E agora vai dar um trabalh\u00e3o danado come\u00e7ar de novo, sair \u00e0 ca\u00e7a, ficar sujeitos a outro adeus. Enquanto um qualquer vai se dar bem como um dia nos demos.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m ousou questionar. <\/p>\n<p>Parece que todos identificaram dentro de si, em algum tempo, o que o Nasci acabara de dizer.<\/p>\n<p>&#8212; Querem sensa\u00e7\u00e3o mais destruidora do que essa? Ontem, fomos encanto, promessa, inquietude. Hoje, somos uns trolhas a empatar a vida do outro. <\/p>\n<p>Duas baforadas no indefect\u00edvel cachimbo, um abanar para espantar a fuma\u00e7a que ele pr\u00f3prio provocou e ficou o dito pelo n\u00e3o dito.<\/p>\n<p>&#8212; O amor n\u00e3o existe, meus caros. \u00c9 uma verdade. Mas, esque\u00e7am o que eu disse&#8230;<\/p>\n<p>Apagou o cachimbo e o limpou com as batidinhas de praxe no balc\u00e3o. Despediu-se para estranheza geral \u2013 era sempre o \u00faltimo a sair, naquela noite foi o primeiro. Parou um t\u00e1xi e sumiu na Bom Pastor e a noite ainda nem se fizera escura por inteira.<\/p>\n<p>Mudamos de assunto porque, na verdade, ningu\u00e9m se sentiu \u00e0 vontade para tal convers\u00ea.<\/p>\n<p>Foi a \u00fanica vez que n\u00e3o concordei com o Mestre. Mais tarde, descobri que o recado era para todos n\u00f3s. Os mais jovens. <\/p>\n<p>Hoje temo dizer que o Nasci, como sempre, tinha raz\u00e3o. <\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para afirmar que o amor n\u00e3o existe. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o garanto nada.<\/p>\n<p>De resto, um recado.<\/p>\n<p>Eu posso at\u00e9 pensar assim. <\/p>\n<p>Voc\u00eas, os mais jovens que t\u00eam muito para andar e viver, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Permitam-se acreditar&#8230;<\/p>\n[* Postado no blog, em duas partes, com o t\u00edtulo O Melhor dos Iguais.]\n[Publicado com o t\u00edtulo &quot;O amor, segundo o Velho Mestre&quot; no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Nasci fazia ponto ali naquele boteco que desapareceu com as obras do Metr\u00f4, entre as ruas Grenfeeld e Bom Pastor onde o Sacoman torce o rabo. 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