{"id":10817,"date":"2007-11-24T00:00:00","date_gmt":"2007-11-24T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:45","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:45","slug":"recordacoes-de-um-reporter-5","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/recordacoes-de-um-reporter-5\/","title":{"rendered":"Recorda\u00e7\u00f5es de um rep\u00f3rter 5"},"content":{"rendered":"<p>Hoje no shopping vi uma mo\u00e7a passar com um chap\u00e9u c\u00f4co igualzinho igualzinho ao que Charles Chaplin usava nos filmes de Carlitos. \u00c9 muito prov\u00e1vel que para a menina aquele acess\u00f3rio sirva apenas para tirar uma onda, fazer uma gra\u00e7a, compor um tipinho, sei l\u00e1. No entanto, para um rep\u00f3rter vira-lata como eu, era natural que aquela figurinha \u2013 no m\u00ednimo, curiosa e sem dizer uma palavra \u2013 me fizesse lembrar de alguma hist\u00f3ria.  Uma ou v\u00e1rias.<\/p>\n<p>A mais remota que eu me lembre foi a do filme Luzes da Ribalta que assisti, pela primeira vez, aos onze doze anos. Foi numa matin\u00e9 em um cinema chamado Ouro Verde em Campinas, onde passava f\u00e9rias na casa da minha irm\u00e3 Doroti. O personagem principal era um velho palha\u00e7o \u2013 e n\u00e3o o vener\u00e1vel vagabundo Carlitos. Mas, o que ficou para mim daquela tarde de domingo foram as l\u00e1grimas que n\u00e3o consegui controlar nas cenas finais. Ainda bem que estava sozinho. A sala escura, os assentos aos lados vazios, n\u00e3o houve testemunhas da minha \u2018fraqueza\u2019. Viv\u00edamos no tempo em que era c\u00e9lebre a frase \u2018homem n\u00e3o chora\u2019 \u2013 e, pela primeira vez, uma obra de arte me emocionara a tal ponto que chorar me foi inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Segredo revelado, passo a segunda hist\u00f3ria. Tamb\u00e9m antiguinha. Dezembro de 1977, dias antes do Natal, morre Charles Chaplin, aos 88 anos, em sua casa na Su\u00ed\u00e7a. Eu e dois amigos \u2013 Cl\u00f3vis Naconecy e Ismael Fernandes \u2013 toc\u00e1vamos gloriosamente um seman\u00e1rio de nome Jornal da Mooca, pequenino mas muito valente e at\u00e9 abusado. Mesmo sendo uma publica\u00e7\u00e3o regional \u2018fechamos\u2019 que a manchete da pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o seria dedicada ao not\u00e1vel cineasta. O Cl\u00f3vis tratou de bolar uma capa genial (veja acima, com a brev\u00edssimo texto-legenda &#8216;Chaplin tinha raz\u00e3o. Com esse mundo, s\u00f3 rindo mesmo&#8217;.) e o Ismael de fazer o texto j\u00e1 que escrevia as reportagens de cinema. A mim, restou o trivial bem temperado do resto da edi\u00e7\u00e3o. Ou seja, trataria do notici\u00e1rio geral, da diagrama\u00e7\u00e3o das p\u00e1ginas e de acompanhar a feitura da edi\u00e7\u00e3o na gr\u00e1fica. Era s\u00f3 um tabl\u00f3ide de oito p\u00e1ginas, mas no vigor dos vinte e tantos anos nos pareceu ter feito a melhor reportagem do mundo.<\/p>\n<p>E ainda hoje acho que fizemos&#8230;<\/p>\n<p>A terceira foi uma entrevista que fiz ali pelo in\u00edcio desta d\u00e9cada com um ator, f\u00e3 e s\u00f3sia de Chaplin. Chamava-se Paulo Pasttella, morava no Ipiranga e tinha \u00e0 \u00e9poca pouco mais de 50 anos. Tudo o que o homem queria era manter \u201ca imagem de Carlitos viva\u201d. Como? Ora levando o mais famoso personagem de Charles Chaplin \u00e0s escolas. <\/p>\n<p>&#8212; Quero mostrar para as crian\u00e7as e para os jovens um filme de Chaplin, contar um pouco a hist\u00f3ria de sua vida e depois fazer a minha performance.<\/p>\n<p>Para ele, o personagem era imortal. <\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o podemos deixar que essa obra caia no esquecimento. Por isso, procuro fazer a minha parte.<\/p>\n<p>O ator disse interpretar o personagem Carlitos h\u00e1 quase 30 anos. Mas, ressaltou, tudo come\u00e7ou ainda crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; Os meus pais assistiam na televis\u00e3o os filmes de Chaplin e um dia eu vi aquela figura engra\u00e7ada do vagabundo. Me apaixonei pelo personagem e carrego esse amor comigo ainda hoje.<\/p>\n<p>Um amor \u00e9 t\u00e3o grande que, mesmo no dia em que casou, Pastella participou de toda a cerim\u00f4nia caracterizado de Carlitos. <\/p>\n<p>&#8212; Esse personagem, embora c\u00f4mico, possui sentimentos puros. E foi essa emo\u00e7\u00e3o que quis transmitir. Tive essa id\u00e9ia, contei para a minha mulher que logo aprovou.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive coragem de lhe perguntar se o casamento sobreviveu. A paix\u00e3o por Chaplin continuava ali. Firme e forte. Mesmo formado em Administra\u00e7\u00e3o de Empresa e ap\u00f3s cursar at\u00e9 o terceiro ano de Ci\u00eancias Sociais, ele me disse que, antes de mais nada, representar Carlitos era \u201ca grande miss\u00e3o a sua vida\u201d.<\/p>\n<p>Quando lhe perguntei por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Ele repetiu as palavras de Chaplin para definir o Vagabundo. <\/p>\n<p>&#8212; Porque ele \u00e9 um riso e uma l\u00e1grima ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Uma l\u00e1grima e um sorriso, estou certo, estampariam as fei\u00e7\u00f5es do Chaplin do Ipiranga se visse a mo\u00e7oila passar com o chap\u00e9u c\u00f4co. Suspeito que ficaria nele, como est\u00e1 em mim agora, a d\u00favida: ser\u00e1 que ela n\u00e3o assistiu a uma das apresenta\u00e7\u00f5es de Pastella em tempos idos e aprendeu a amar Carlitos como sempre acontece com as pessoas sens\u00edveis e puras que o conhecem? <\/p>\n<p>Ser\u00e1?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje no shopping vi uma mo\u00e7a passar com um chap\u00e9u c\u00f4co igualzinho igualzinho ao que Charles Chaplin usava nos filmes de Carlitos. \u00c9 muito prov\u00e1vel que para a menina aquele acess\u00f3rio sirva apenas para tirar uma onda,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10817","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10817","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10817"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10817\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17094,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10817\/revisions\/17094"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10817"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10817"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10817"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}