{"id":10821,"date":"2007-11-27T00:00:00","date_gmt":"2007-11-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-29T20:01:19","modified_gmt":"2018-03-29T20:01:19","slug":"no-meu-tempo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/no-meu-tempo\/","title":{"rendered":"No meu tempo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Carolina Tavares<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Nunca gostei de rock. Fato. Cresci ouvindo m\u00fasica sertaneja, samba e Elis Regina, por causa da minha m\u00e3e. Elis tamb\u00e9m n\u00e3o gostava de rock. Eu tinha 11 anos quando ouvi rock pela primeira vez, numa viagem do col\u00e9gio. A m\u00fasica era Primeiros Erros, do Capital Inicial. Foi a\u00ed que comecei a escutar esse som. Mas ainda preferia Como os Nossos Pais.<\/p>\n<p>O que eu n\u00e3o sabia \u00e9 que, anos depois, eu ouviria essa mesma m\u00fasica ao vivo e pessoalmente, da boca do pr\u00f3prio autor, \u201csenhor Kiko Zambianchi\u201d. Mais do que isso, eu descobriria as influ\u00eancias e os influenciados, eu seria a contadora oficial dessa hist\u00f3ria chamada Rock Nacional.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia n\u00e3o me empolgou muito, mas eu precisava fazer, ent\u00e3o, m\u00e3os a obra. A d\u00e9cada de 50 era minha. Faz tanto tempo, eles j\u00e1 devem ter morrido! Mas n\u00e3o ele, o S\u00e9rgio Benelli. Foram in\u00fameras liga\u00e7\u00f5es e aquela mulher n\u00e3o me deixava falar com o senhor de 71 anos. Eis que eu recebo um e-mail: \u201cCarol, est\u00e1 marcado. Sexta-feira, 14h. V\u00e1 busc\u00e1-lo, o endere\u00e7o \u00e9&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o nada em S\u00e3o Paulo. Moro em Santo Andr\u00e9 desde que nasci, em S\u00e3o Bernardo do Campo. S\u00f3 sa\u00ed do Grande ABC para trabalhar. Por motivos \u00f3bvios, me perdi no Centro da cidade grande naquela sexta-feira, mas cheguei a tempo no pr\u00e9dio de n\u00famero 158. Pela porta de vidro fume vi o topete. Como ele ainda o mant\u00e9m em p\u00e9? Afinal, foram tr\u00eas filhos e muita hist\u00f3ria para contar.<\/p>\n<p>Pensei que n\u00e3o ia ter o que conversar, mas ele tinha muito assunto para colocar em dia. O tr\u00e2nsito ruim; o dia que trocou a guitarra pelo viol\u00e3o, h\u00e1 15 anos; o caf\u00e9 sem a\u00e7\u00facar que ele toma, por causa do livro que est\u00e1 lendo, sobre os malef\u00edcios da subst\u00e2ncia. Voc\u00ea sabia que a\u00e7\u00facar refinado faz mal para a mem\u00f3ria? Ele sabe. E n\u00e3o lhe falta mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Senhoras e senhores, apresento-lhes o rocker Tony Campello, o homem que pirou a cabe\u00e7a dos adolescentes no in\u00edcio disso que chamamos Rock\u2019n Roll. Hoje, sem o Roll. Pelo menos foi essa a impress\u00e3o que o homem nos deixou, vestido com t\u00eanis, camiseta roxa e blusa da Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol \u2013 CBF, que ganhara do filho, preparador t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o sub-17. Irm\u00e3o da Celly Campello, aquela que canta Est\u00fapido Cupido e tantas outras can\u00e7\u00f5es que embalam festas de formatura e casamento, ele viu sua vida mudar em uma semana. Os irm\u00e3os foram descobertos na sexta-feira, gravaram na segunda e viraram \u00eddolos do Brasil.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que o pa\u00eds estava descobrindo o que era esse tal de rock, j\u00e1 que a primeira can\u00e7\u00e3o oficial do estilo, uma vers\u00e3o de Rock Around the Clock, interpretada oficialmente por Bill Halley and His Comets, foi gravada pela sambista Nora Ney, em 1.955. Isso sem contar que a primeira m\u00fasica roqueira essencialmente brasileira foi interpretada pelo cantor rom\u00e2ntico (e inspira\u00e7\u00e3o de Tony para suas imita\u00e7\u00f5es) Cauby Peixoto. D\u00e1 para acreditar?<\/p>\n<p>Quando surgiram os irm\u00e3os Campello, rockers na atitude e nas can\u00e7\u00f5es, o p\u00fablico foi \u00e0 loucura. As roupas eram outras. Ningu\u00e9m mais precisava usar gravata para entrar no cinema. A dan\u00e7a era o twist e estava liberada, junto com a cuba livre. O momento era de desenvolvimento econ\u00f4mico com o presidente Juscelino Kubitschek. Mas a hora era deles. Os anos de 58 a 65 passaram como um foguete que deixou seus rastros, at\u00e9 hoje. Pelo menos era o que narrava o brilho nos olhos de Tony, ao contar toda essa trajet\u00f3ria, em cerca de quatro horas de entrevista.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o gostava de rock. N\u00e3o podia entender, com 11 anos e uma m\u00fasica, a hist\u00f3ria que estava por tr\u00e1s daquilo tudo. N\u00e3o foi f\u00e1cil para Tony e Celly provarem, com seus 21 e 15 anos respectivamente, que n\u00e3o eram rebeldes sem causa. Eram apenas adolescentes que queriam cantar numa moda \u201cElvis Tupiniquim\u201d. N\u00e3o foi f\u00e1cil para mim, entender a import\u00e2ncia disso tudo, o movimento que uma m\u00fasica simples como Boogie do Beb\u00ea representava.<\/p>\n<p>Todos esses fragmentos que pessoas como Tony e Kiko me contaram agora fazem sentido. S\u00e3o impress\u00f5es de um pa\u00eds que estava cansado de lutas pol\u00edticas e fugia de algumas repress\u00f5es atrav\u00e9s da m\u00fasica. Aonde chegamos com tudo isso?<\/p>\n<p>Diga-me voc\u00ea, caro leitor.<\/p>\n<p>Se quiser saber o que Tony pensa, para ele n\u00e3o h\u00e1 mais espa\u00e7o. As r\u00e1dios est\u00e3o massificadas e o mundo \u00e9 outro. Senhor Campello, obrigada pela regress\u00e3o. De repente, passo a sentir falta de um tempo que n\u00e3o vivi. Ah! E bem-vindo ao meu mundo, esse lugar chamado s\u00e9culo XXI.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Carolina Tavares<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Nunca gostei de rock. Fato. 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