{"id":10823,"date":"2007-11-28T00:00:00","date_gmt":"2007-11-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:45","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:45","slug":"bola-no-telhado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/bola-no-telhado\/","title":{"rendered":"Bola no telhado"},"content":{"rendered":"<p>Desconfio que o grande desafio para quem gosta de escrever \u00e9 fazer um texto que ele pr\u00f3prio, autor, gostaria de ler. E se sentisse assim, um cronista dos bons. Desses que as pessoas l\u00eaem e suspiram. <\/p>\n<p>&quot;Nossa! Ele sabe tudo da vida, dos amores.&quot; <\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>No enfileirar de letrinhas do mo\u00e7o caber\u00e1 boas tiradas de humor e emo\u00e7\u00e3o. Que as pessoas gostam de quem as diverte e encanta. N\u00e3o \u00e9 verdade? <\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p>Muitas vezes, vale mesmo ser um figura\u00e7o da chamada intelectualidade. Melhor ainda se for amigo do filho do dono do jornal. Vai se dar bem&#8230; <\/p>\n<p>Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Ora porque com o aval do herdeiro ele est\u00e1 livre para desrespeitar as regras dos manuais de Reda\u00e7\u00e3o e tegiversar sobre o que bem quiser. <\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Reflitam comigo.<\/p>\n<p>Se amigo do dono \u00e9 meio dono, amigo do filho do dono, manda e desmanda, prende e solta, faz e acontece. <\/p>\n<p>Como bom amigo do herdeiro, hoje \u00e9 praxe um certo verniz de erudi\u00e7\u00e3o e d\u00e1-lhe a citar Proust, Balzac e Nen\u00e9m Prancha (&quot;Treino \u00e9 treino e jogo \u00e9 jogo&quot;), que futebol sempre aumenta o ibope do rapaz:<\/p>\n<p>Todos na Reda\u00e7\u00e3o e fora dela s\u00e3o obrigados a achar lindo.<\/p>\n<p>IV. <\/p>\n<p>\u00d3bvio que, por tais e quais virtudes, o Fulano recebe elogios, coment\u00e1rios apaixonados e convites para eventos sociais. <\/p>\n<p>\u00c9 mais do que um cronista &#8212; ali\u00e1s est\u00e1 em desuso a figura do sens\u00edvel observador do cotidiano, rep\u00f3rter do dia-a-dia das pessoas comuns. Aquelas tais que andam de \u00f4nibus, metr\u00f4, van e nunca s\u00e3o convidadas para festas e badala\u00e7\u00f5es&#8230; <\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Hoje, quem escreve coluna, assim como dono de talk-show,  logo vira celebridade e s\u00f3 circula em altas rodas. N\u00e3o sei quando acham tempo para escrever. <\/p>\n<p>Mas, isto, como diria o Parreira (quem diria que sentir\u00edamos saudades do Mano Parreira, n\u00e3o \u00e9 Dunga?), \u00e9 apenas um detalhe. <\/p>\n<p>Um detalhe de somenos import\u00e2ncia&#8230;<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Acho que \u00e9 politicamente incorreto fazer tais observa\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Pode parecer at\u00e9 que tenho uma diferen\u00e7a com este ou aquele.  <\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o \u00e9 isso n\u00e3o.<\/p>\n<p>Vou lhes contar o qu\u00ea aconteceu.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 desta quarta, por um caso do acaso, olhei pela janela da sala de aula &#8212; terceiro andar de um desses pr\u00e9dios espelhados na Vila Mariana &#8212; e  vi uma bola  no telhado de uma casa, dessas casas bem antiguinhas daquele tradicional bairro paulistano.<\/p>\n<p>Muitos de voc\u00eas n\u00e3o sabem o que significa uma bola no telhado. <\/p>\n<p>Vou tentar resumir em breves palavras:<\/p>\n<p>Para os garotos da minha gera\u00e7\u00e3o, era um sentimento de perda irrepar\u00e1vel.<\/p>\n<p>VIII.<\/p>\n<p>Verdade.<\/p>\n<p>Todos os dias improvis\u00e1vamos um futebol na cal\u00e7ada da Muniz de Souza. Os postes e paralelep\u00edpedos demarcavam nossas traves. N\u00e3o havia um numero certo de participantes. Os que chegavam depois iam entrando alternadamente nos times.<br \/>\nTamb\u00e9m poderiam esperar e formar uma outra equipe que enfrentaria o vencedor da porfia. Jogo r\u00e1pido, pegado. Uns descal\u00e7os &#8212; haja unhas qubradas, bolhas e topadas. Outros de sapato ou alpargatas que t\u00eanis acho que nem existia.<\/p>\n<p>Pois \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>No melhor do pega, o mais desvairado imaginava-se no Pacaembu e enfiava o p\u00e9 na bola de borracha que subia, subia, subia&#8230;<\/p>\n<p>e plaft&#8230; <\/p>\n<p>&#8230;ca\u00eda no telhado de uma das casas.<\/p>\n<p>XIX.<\/p>\n<p>A gente ainda olhava esperan\u00e7oso. Os telhados eram inclinados e, n\u00e3o raras vezes, a bichinha rolava mansa de volta \u00e0s nossas m\u00e3os e p\u00e9s. Que o jogo continuava&#8230;<\/p>\n<p>Por\u00e9m &#8212; e sempre existe um por\u00e9m &#8211;, quando uma bendita telha malajambrada ou calha mais funda cortava o trajeto natural da redonda, era o fim do jogo e dos sonhos. <\/p>\n<p>Era o fim de tudo&#8230;<\/p>\n<p>A tarde ficava vazia. A vida ficava sem gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Verdade.<\/p>\n<p>X.<\/p>\n<p>Car\u00edssimos. <\/p>\n<p>Na hora que vi a bola ali, quietinha, no telhado, deu uma vontade danada de ler uma cr\u00f4nica com este t\u00edtulo Bola no Telhado, mas escrita por um Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria, um Raul Drewnik ou mesmo o saudoso Pl\u00ednio Marcos&#8230;<\/p>\n<p>Era tudo o que hoje eu queria ler.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desconfio que o grande desafio para quem gosta de escrever \u00e9 fazer um texto que ele pr\u00f3prio, autor, gostaria de ler. E se sentisse assim, um cronista dos bons. 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