{"id":10824,"date":"2007-11-29T00:00:00","date_gmt":"2007-11-29T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:44","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:44","slug":"nicola-psicologo-e-taxista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/nicola-psicologo-e-taxista\/","title":{"rendered":"Nicola, psic\u00f3logo e taxista"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto isso naquele consult\u00f3rio de atendimento psicol\u00f3gico, pr\u00f3ximo ao ponto de t\u00e1xi, em uma movimentada avenida de S\u00e3o Paulo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, doutor, n\u00e3o gosto de lembrar disso&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Do qu\u00ea? S\u00f3 lhe perguntei se gosta de escrever&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Gosto e n\u00e3o gosto.<\/p>\n<p>&#8212; Explique-se melhor.<\/p>\n<p>&#8212; Adoro. Mas escrevo sempre sobre minhas emo\u00e7\u00f5es, meus desejos, sentimentos muito meus. Por isso, sempre foi algo assim, como direi, clandestino, sigiloso.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8212; A princ\u00edpio, eu mesmo n\u00e3o gosto de me expor publicamente. Depois eu era casada e meu marido n\u00e3o entenderia. Ali\u00e1s, como n\u00e3o entendeu&#8230; Tamb\u00e9m, pudera, os poemas desvendam minha alma que, \u00f3bvio, nada tinha em comum com ele. <\/p>\n<p>&#8212; Ah! <\/p>\n<p>&#8212; Doutor, doutor, est\u00e1 me ouvindo?<\/p>\n<p>&#8212; Claro que sim. Continue.<\/p>\n<p>&#8212; Meus poemas t\u00eam uma hist\u00f3ria infinitamente triste. Meu ex descobriu meu ba\u00fa encantado e deu para o juiz ler. No dia da minha separa\u00e7\u00e3o, eu tive de ouvi-los em voz alta como prova cabal da minha trai\u00e7\u00e3o. Dif\u00edcil, triste&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Como voc\u00ea reagiu a essa, digamos, invas\u00e3o de privacidade?<\/p>\n<p>&#8212; Fiquei atarantada. S\u00f3 repetia: poemas s\u00e3o poemas. <\/p>\n<p>&#8212; Desde quando voc\u00ea escreve?<\/p>\n<p>&#8212; Escrevo poemas desde menina, desde que comecei a escrever. Naquele dia, me senti a Maria Madalena entre pedras, entende?<\/p>\n<p>&#8212; Entendo.<\/p>\n<p>&#8212; Foi o dia mais cruel da minha vida. O doutor, se quiser, pode incluir esta hist\u00f3ria na sua tese de doutorado. Sobre o que \u00e9 mesmo o seu estudo?<\/p>\n<p>&#8212; Mulheres que amam demais.<\/p>\n<p>&#8212; Ah! Ent\u00e3o cabe bem a hist\u00f3ria dos poemas condenados.<\/p>\n<p>&#8212; Pode ser que use, sim.<\/p>\n<p>&#8212; Vou lhe contar mais, ent\u00e3o. Naquele dia eu jurei n\u00e3o ter nenhum papel que pudesse me ligar a algu\u00e9m. N\u00e3o precisar de juiz, nem de ju\u00edzo. O doutor me conhece. Pode imaginar a cena que vivi?<\/p>\n<p>&#8212; (&#8230;)<\/p>\n<p>&#8212; Foi assim que tudo acabou como acabou. Mas, no meu primeiro poema, eu profetizava: <\/p>\n<p>\u201cVou embora e levo<br \/>\ns\u00f3 o beijo que roubei<br \/>\ne nunca te fez falta.\u201d<\/p>\n<p>Mas, juro, doutor, n\u00e3o havia trai\u00e7\u00e3o e eu continuo repetindo: poemas s\u00e3o poemas e poeta tem direito ao perd\u00e3o. O doutor concorda?<\/p>\n<p>&#8212; Talvez. Mas j\u00e1 deu a nossa hora. Terminamos a terapia por hoje. Estou atrasado para o meu outro trabalho.<\/p>\n<p>&#8212; O doutor atende em outro consult\u00f3rio, tem uma cl\u00ednica?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, n\u00e3o. Sou taxista. Ao volante, ou\u00e7o as pessoas de gra\u00e7a, por ouvir. Mas cobro a corrida e uma taxa extra por hist\u00f3rias. Quer aproveitar? Aonde a senhora mora?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto isso naquele consult\u00f3rio de atendimento psicol\u00f3gico, pr\u00f3ximo ao ponto de t\u00e1xi, em uma movimentada avenida de S\u00e3o Paulo&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, doutor, n\u00e3o gosto de lembrar disso&#8230;<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10824","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10824","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10824"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10824\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17088,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10824\/revisions\/17088"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10824"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10824"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10824"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}