{"id":10831,"date":"2007-12-05T00:00:00","date_gmt":"2007-12-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:55:44","modified_gmt":"2017-09-15T19:55:44","slug":"bixiga","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/bixiga\/","title":{"rendered":"Bixiga"},"content":{"rendered":"<p>Nos anos 50, o menino do Cambuci ouvia falar do Bixiga como um reino encantado. L\u00e1 as coisas tinham nomes curiosos (Morro do Piolho), criativos (Cord\u00e3o Escola de Samba Vai-Vai), po\u00e9ticos (Sereno Futebol Clube). No morro do Piolho, morava o Charutinho, personagem que Adoniran Barbosa interpretava na R\u00e1dio Record \u2013 e virou at\u00e9 marchinha de carnaval. O samba da Vai-Vai, diziam, era mais cadenciado que o dos batuqueiros Lavap\u00e9s e Imp\u00e9rio do Cambuci juntos. Os bambas do peda\u00e7o n\u00e3o gostavam de ouvir tamanha desfeita, mas n\u00e3o discordavam. O Sereno era um time de bo\u00eamios \u2013 aqueles rapazes m\u00e1gicos que trocavam a noite pelo dia e bebiam e cantavam e se derramavam em amores imposs\u00edveis. Melhor que isso: era imbat\u00edvel, estava h\u00e1 50 jogos sem perder e um dos craques era um famoso cantor de r\u00e1dio chamado Agostinho dos Santos.<\/p>\n<p>J\u00e1 no fim da d\u00e9cada seguinte, o adolescente ouvia o pai dizer que, no Bixiga, comia-se \u201ca melhor perna de cabrito com br\u00f3colis do Planeta\u201d. <\/p>\n<p>&#8212; Um peda\u00e7o da It\u00e1lia no Brasil.<\/p>\n<p>O pai sempre foi um oriundi exagerado. <\/p>\n<p>Quando gostava de algo, era assim mesmo: \u201co melhor do Planeta\u201d.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Eis que \u201co mais famoso musical do mundo\u201d adivinhem aonde aportou, l\u00e1 pelo in\u00edcio dos anos 70? No Bixiga, l\u00f3gico. Foi a pe\u00e7a Hair que impregnava a juventude da filosofia \u201cpaz e amor\u201d. Haja amor. Haja esc\u00e2ndalos. Os atores apareciam nus em cena. Todos. Mas, o agora rapaz nem reparou no simbolismo da montagem. S\u00f3 tinha olhos para uma garota morena que, depois veio saber, atendia pelo nome de S\u00f4nia Braga.<\/p>\n<p>Viv\u00edamos a espera da Era de Aquarius. <\/p>\n<p>Por isso, o antigo teatro da rua 13 de Maio ganhou nova denomina\u00e7\u00e3o. Teatro Aquarius. Nesta mesma plat\u00e9ia, tempos depois, o estudante de jornalismo da Universidade de S\u00e3o Paulo assistiu \u00e0 pe\u00e7a Brasileiro, Profiss\u00e3o Esperan\u00e7a, com Paulo Gracindo e Clara Nunes. Foi um s\u00e1bado, outubro de 1975, no mesmo dia em que Vladimir Herzog morreu assassinado nos por\u00f5es do DOI-CODI. Os artistas encerraram o espet\u00e1culo \u2013 e deram a not\u00edcia em primeira m\u00e3o para a plat\u00e9ia. Muitos choraram. Todos reverenciaram a mem\u00f3ria do jornalista que durante dois meses foi seu professor na Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Essas cenas me vieram \u00e0 mente desde que Amanda, \u00c9rika, Luciana e Daniel me convidaram para ser orientador do livro-reportagem Bela Vista. Um Olhar Sobre o Bixiga em junho passado. Como explicar a esses jovens jornalistas o caminho das pedras que leva at\u00e9 o Bixiga? At\u00e9 porque, durante um bom tempo, os paulistanos sabiam de cor que todos os caminhos da divers\u00e3o, do entretenimento, da cultura, da tradi\u00e7\u00e3o levavam ao Bixiga&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>H\u00e1 quantas anda hoje esse bairro diante dos desafios da metr\u00f3pole em pleno s\u00e9culo XXI?<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses depois, ao ler as reportagens escritas pelos estudantes, cheguei \u2013 chegamos? \u2013 a conclus\u00e3o que o Bixiga resiste bravamente \u2013 e, ao menos, na imagina\u00e7\u00e3o de seus moradores e\/ou convivas continua sendo um reino independente, \u00fanico e encantado.<\/p>\n<p>Um peda\u00e7o de S\u00e3o Paulo menos cinza, onde o sol bate e se inclina. A reverenciar sonhos e mem\u00f3ria. Mas, at\u00e9 quando?<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Hoje foi a banca examinadora do grupo \u2013 pois, o livro representa o Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso e todos estavam emocionados: os estudantes, familiares, amigos e inclusive os pr\u00f3prios examinadores, os experientes jornalistas Geraldo Nunes e Jorge Tarquini. De alguma forma, eles tamb\u00e9m t\u00eam algo em comum com o bairro e uma \u00e1urea diferente envolveu a sala de aula onde aconteceu a sess\u00e3o.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil explicar. N\u00e3o vou sequer tentar.<\/p>\n<p>Digo apenas que, entre elogios e cr\u00edticas, foram aprovados com nota 9,5 \u2013 o que deixou a todos felizes e satisfeitos. Precisei sair rapidamente porque tinha outra banca \u00e0 minha espera. Sou capaz de apostar que a garotada foi comemorar o fim do curso e a boa nota numa das cantinas do Bixiga. <\/p>\n<p>Quem sabe n\u00e3o incluem a hist\u00f3ria desta noite em um pr\u00f3ximo livro?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos anos 50, o menino do Cambuci ouvia falar do Bixiga como um reino encantado. 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