{"id":10835,"date":"2007-12-08T00:00:00","date_gmt":"2007-12-08T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T19:53:44","modified_gmt":"2017-09-15T19:53:44","slug":"no-na-garganta-percival-de-souza","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/no-na-garganta-percival-de-souza\/","title":{"rendered":"N\u00f3 na garganta &#8211; Percival de Souza"},"content":{"rendered":"<p>Na esteira do post de ontem, transcrevo hoje um dos cap\u00edtulos mais importantes do livro-reportagem &quot;N\u00f3 na Garganta&quot;. Trata-se do trabalho do jornalista Percival de Souza para reconstituir, passo a passo, a tr\u00e1gica morte de Tim L\u00f3pes, amigo pessoal de Percival e tamb\u00e9m rep\u00f3rter investigativo. <\/p>\n<p>Depoimento e texto final de Paloma Minke.<\/p>\n<p>N\u00d3, DOR E PRANTO<\/p>\n<p>\u201cO risco \u00e9 um marco divis\u00f3rio.<br \/>\nPara contar a nossa hist\u00f3ria,<br \/>\ntemos que enfrent\u00e1-lo e venc\u00ea-lo.<br \/>\nNada de super-homem ou mulher-maravilha.<br \/>\nBons jornalistas, apenas, com um pouco<br \/>\nde aud\u00e1cia e bastante determina\u00e7\u00e3o\u201d <\/p>\n<p>Percival de Souza n\u00e3o se sentiu um super jornalista ao subir o morro da Vila Cruzeiro, na periferia do Rio de Janeiro, num dia qualquer de 2002. Naquele momento, n\u00e3o lhe importavam os quatro pr\u00eamios Esso que havia conquistado pela brilhante carreira em reportagens investigativas. N\u00e3o vinha ao caso toda a sua trajet\u00f3ria no Jornal da Tarde, o qual ajudou a fundar e defendeu mesmo nos dif\u00edceis tempos da censura nos anos 1970. Nem mesmo a lembran\u00e7a que tanto o orgulha, do in\u00edcio de carreira, quando ainda jovem recebeu do ent\u00e3o diretor de reda\u00e7\u00e3o do JT, Mino Carta, a miss\u00e3o de criar um novo formato de cobertura criminal que revolucionaria a imprensa, amenizaria a dor daquele momento. <\/p>\n<p>Encolhido na ca\u00e7amba de uma caminhonete, Percival sentiu-se profundamente humilhado. Mas n\u00e3o tinha escolha, sabia que se fosse descoberto, seria executado tamb\u00e9m. Era o sacrif\u00edcio a ser feito pelo grande amigo Arcanjo Tim.<\/p>\n<p>\u201cSubir ao perigoso local onde Tim foi morto pode parecer um del\u00edrio de minha parte. Mas ao me disfar\u00e7ar dentro de um ve\u00edculo de entrega de mercadorias em mercearias, eu me sentia seguro\u201d. Nem mesmo \u00e0 mulher comunicou a sua arriscada miss\u00e3o. \u201cCoisa minha \u2013 eu e Deus\u201d, diz o jornalista. \u201cMas nada fiz loucamente, e sim conscientemente. Conhecendo meus limites\u201d.<\/p>\n<p>Mais que colega de profiss\u00e3o \u2013 ambos dedicavam-se ao jornalismo investigativo \u2013 Percival tornou-se amigo pessoal de Arcanjo Antonino Lopes do Nascimento, o Tim Lopes. O breve intervalo de tempo entre o brutal assassinato do jornalista e o processo de produ\u00e7\u00e3o do livro, ambos no mesmo ano, certamente contribuiu para as emo\u00e7\u00f5es \u00e0 flor da pele depositadas em cada uma das p\u00e1ginas do \u201cNarcoditadura\u201d, desabafo do jornalista em resposta ao crime. O companheiro Tim havia sido executado durante a produ\u00e7\u00e3o de reportagem que denunciava a explora\u00e7\u00e3o sexual de menores em bailes funk no morro. <\/p>\n<p>Foram seis meses de intensa dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria, apura\u00e7\u00e3o dos fatos e reconstitui\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios, dentre os quais, a penosa e indispens\u00e1vel visita \u00e0 cena do crime. \u201cAl\u00e9m do n\u00f3 na garganta, dor e ang\u00fastia, alma sangrando, emo\u00e7\u00e3o ao tomar conhecimento dos fatos, chorar em v\u00e1rios locais, principalmente o da execu\u00e7\u00e3o brutal, e tamb\u00e9m n\u00e3o conter as  l\u00e1grimas na hora de enfrentar o teclado\u201d, relembra Percival. <\/p>\n<p>A insatisfa\u00e7\u00e3o com a cobertura da m\u00eddia sobre o fato, que intimidou outros colegas de profiss\u00e3o a faz\u00ea-la de forma mais aprofundada, deu-lhe for\u00e7as para conciliar emo\u00e7\u00f5es e o conhecimento acumulado nas muitas coberturas jornal\u00edsticas, e tra\u00e7ar o perfil do jornalismo investigativo e bastidores do crime organizado em sua obra. \u201cEuclides da Cunha chamou o seu cl\u00e1ssico \u201cOs Sert\u00f5es\u201d de livro-vingador, para descrever o massacre promovido em Canudos por uma quarta expedi\u00e7\u00e3o militar, que dizimaria Antonio Conselheiro e centenas de seguidores. Ele se indignou com a degola em massa promovida por militares enfurecidos. Eu me indignei com o esquartejamento e a carboniza\u00e7\u00e3o de Tim\u201d, justifica.<\/p>\n<p>*Amanh\u00e3 continua&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na esteira do post de ontem, transcrevo hoje um dos cap\u00edtulos mais importantes do livro-reportagem &quot;N\u00f3 na Garganta&quot;. 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